Antipop graças a Deus

Estreando em palcos brasileiros, trio Primus executou ode à bizarrice no SWU

Pablo Miyazawa Publicado em 14/11/2011, às 23h25 - Atualizado às 23h50

Pela primeira vez tocando no Brasil, o Primus não se preocupou em ser pop e acessível, muito menos em dosar na esquisitice. Aliás, foi justamente esta a graça do show de pouco menos de uma hora de duração realizado nesta segunda, 14, última noite do festival SWU.

O show foi inteiramente de Les Claypool, o líder, baixista, vocalista e mente criativa por trás das loucuras do Primus, um grupo de sonoridade indescrítível, cujo principal atributo é a habilidade de provocar e perturbar. Icônico com seu chapéu-coco, capa e óculos de aro redondo, ele foi o fio condutor de um espetáculo bizarro proporcionado pelo virtuoso trio, formado ainda pelo guitarrista Larry LaLonde e pelo baterista Jay Lane. Com sua tão famosa habilidade, Claypool extraiu de seus baixos todo e qualquer tipo de ruído possível, pontuando cada ataque grave com contribuições vocais ininteligíveis e letras encharcadas de surrealismo colorido.

Claypool, que também é dono de um timbre vocal inconfundível e uma presença de palco única - ele saltita com um pé só enquanto espanca as cordas do baixo com a palma da mão direita, entre outras acrobacias - interagiu pouco com a plateia, entre uma faixa e outra. "Então esse aqui é o Brasil", ele brincou, antes de apresentar a suingada "Wynona's Big Brown Beaver", do álbum Tales from the Punchbowl (1995). Após variar entre um baixo de quatro cordas com alavanca, um modelo acústico e um "baixo de pau" com arco, Claypool finalmente carregou ao palco o instrumento de seis cordas que o tornou notório entre os músicos e entusiastas. Os fãs já sabiam o que esperar: as dançantes "Jerry Was a Race Car Driver" e "My Name is Mud", duas das faixas de maior sucesso da longa trajetória do Primus.

Surpreendentemente, o público respondeu positivamente à sonoridade ímpar do grupo, surgido em São Francisco em meados dos anos 80 e que há mais de dez anos não lançava um disco de inéditas. Mesmo durante músicas menos conhecidas do recente álbum Green Naugahyde (2011), como "Jilly's on Crack" e "Lee Van Cleef" (homenagem ao cultuado ator de faroestes), os aplausos empolgados contrastavam com o relativo silêncio com que as faixas eram assimiladas. Explica-se: a música do Primus - cuja origem bebe do rock progressivo e é marcada por ritmos percussivos, solos dissonantes e riffs de baixo marcantes e hipnóticos - é feita para ser decifrada e apreciada. Ou se ama, ou se odeia - não há meio termo. O respeitoso público do SWU, aparentemente, preferiu a primeira opção.

Set list

"Those Damned Blue-Collar Tweekers"

"Duchess and the Proverbial Mind Spread"

"Eyes of the Squirrel"

"Wynona's Big Brown Beaver"

"Jilly's on Crack"

"Over the Falls"

"Lee Van Cleef"

"Jerry Was a Race Car Driver"

"My Name is Mud"

"Harold of the Rocks"