Arcebispo sul-africano Desmond Tutu se une a apelo contra show de Gil e Caetano em Israel

Antes dele, Roger Waters já havia pedido para que os artistas brasileiros cancelassem apresentação em respeito ao povo palestino

Redação Publicado em 16/06/2015, às 14h15 - Atualizado em 23/06/2015, às 13h09

Arcebispo da Igreja Anglicana da África do Sul e herói do fim do apartheid no país
Reprodução

Além do ex-baixista e fundador do Pink Floyd, Roger Waters, agora é a vez de Desmond Tutu, arcebispo da Igreja Anglicana, Prêmio Nobel da Paz em 1984 pela luta a favor do fim do apartheid na África do Sul, se posicionar contra o show de Gilberto Gil e Caetano Veloso, dia 28 de julho, em Tel Aviv, Israel.

Após Caetano Veloso e Gilberto Gil anunciam turnê conjunta para celebrar os 50 anos de carreira.

Assim como Waters, Tutu citou as restrições feitas ao governo israelense ao povo palestino para pedir em uma carta que os artistas brasileiros cancelem a apresentação.

“Estou escrevendo a vocês para impeli-los a não se apresentar em Israel enquanto continua sua ocupação e apartheid contra o povo palestino [...] Nós, sul-africanos, sofremos décadas de apartheid e podemos reconhecer isso em outros lugares. Eu, pessoalmente, testemunhei a realidade de apartheid que Israel criou dentro de suas fronteiras e nos territórios palestinos ocupados”, diz o comunicado da autoridade religiosa, um dos heróis do fim do regime racista na África do Sul, junto com Nelson Mandela, entre outros.

Roger Waters volta a pedir para que Gil e Caetano cancelem apresentação em Tel Aviv.

“Você, Gil, até cantou para nós: “Tornai vermelho todo sangue azul”. Você cantou ao “Senhor da selva africana”, dizendo que ela era “irmã da selva americana”. Eu acrescento: nossas selvas também são irmãs do vale do rio Jordão ocupado, das oliveiras em Jerusalém e dos pomares cítricos da Terra Santa”, cita ainda o comunicado.

O arcebispo e Waters declararam apoio a um mesmo movimento, o grupo não-violento BDS (boicote, desinvestimento e sanções). Quando os brasileiros anunciaram a realização do espetáculo em Israel, em 26 de maio, se desencadeou uma série de protestos nas redes sociais. No Facebook, a página “ Tropicália Não Combina com Apartheid” já reuniu mais de 12 mil assinaturas contra a performance dos músicos em Tel Aviv.

As assessorias de imprensa de ambos os artistas e o próprio Gilberto Gil já afirmaram que eles não abrirão mão do show. Roger Waters cobrou uma resposta dos músicos e não foi atendido.

Gil disse não ser necessário escrever uma carta de resposta a Waters e respondeu que os argumentos dele eram “fortes, e verdadeiros até certo ponto. Não a ponto de que devemos considerar Israel uma sociedade de apartheid. É um regime democrático. Tenho empatia pelo povo, já estive lá tantas vezes. E nas duas últimas vezes em que fui tocar lá também enfrentei objeções, com o mesmo tipo de movimentação internacional para me dissuadir de ir. Mas nós vamos".

Ele acrescentou, ainda, em entrevista ao Estado de S.Paulo, que houve uma “migração” da música de contestação para gêneros como o rap.

Leia na íntegra a carta de Desmond Tutu:

12 de junho de 2015

Caros Caetano e Gil,

Estou escrevendo a vocês para impeli-los a não se apresentar em Israel enquanto continua sua ocupação e apartheid contra o povo palestino. Quando um importante grupo musical sul-africano insistia em ignorar os apelos da sociedade civil palestina para cancelar sua apresentação em Tel Aviv, eu escrevi a eles: “Assim como dissemos durante o apartheid que era inapropriado para artistas internacionais se apresentarem na África do Sul, em uma sociedade fundada em leis discriminatórias e exclusividade racial, também seria errado a Ópera de Cape Town se apresentar em Israel.”

Nós, sul-africanos, sofremos décadas de apartheid e podemos reconhecer isso em outros lugares. Eu, pessoalmente, testemunhei a realidade de apartheid que Israel criou dentro de suas fronteiras e nos territórios palestinos ocupados. Eu vi as ruas ocupadas, colonizadas e racialmente segregadas de Hebron, as colônias exclusivamente judaicas, e eu andei ao lado do Muro que divide famílias palestinas em Belém e impede suas crianças de terem acesso normal à escola. Eu vi o sistema racializado de carteiras de identidade, as cores diferentes para placas de carro, e as leis raciais que discriminam contra palestinos. Meus caríssimos Caetano e Gil, eu vi o apartheid israelense em ação.

Mas eu também conheci a luta não violenta do povo palestino para pôr fim ao regime de opressão que lhes nega seus direitos e dignidade. Eles têm apelado ao mundo para pressionar Israel, assim como foi feito contra a África do Sul do apartheid, para acabar com a ocupação e as violações de direito internacional. Eu tenho apoiado seu movimento não violento de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) em busca da justiça, liberdade e igualdade para todos.

Se nós não podemos ao menos atender os apelos da sociedade palestina, abstendo-nos de minar sua resistência pacífica e aspirações por uma vida sem opressão, nós estaremos abandonando nossas obrigações morais. Em situações de opressão, a neutralidade significa tomar o lado do opressor.

Sem o isolamento internacional do regime de apartheid da África do Sul, incluindo o apoio ao boicote cultural, nós não poderíamos ter alcançado a nossa liberdade. Artistas conscientes que se recusaram a se apresentar em Sun City contribuíram para nossa marcha pela liberdade, e nós somos profundamente gratos pela solidariedade deles. Vocês mesmos nos apoiaram em face do apartheid. Então, vocês também podem apoiar a busca palestina por dignidade e direitos.

A performance de vocês está marcada para o próximo mês, um ano depois dos últimos brutais ataques israelenses à ocupada e sitiada Faixa de Gaza. Milhares de irmãs e irmãos palestinos foram assassinados e muitos mais permanecem sem casa. Naquele momento, eu testemunhei os maiores protestos já vistos na África do Sul desde que libertamos nosso país do apartheid. As ruas de Cape Town foram tomadas por milhares de sul-africanos, homens e mulheres, jovens e velhos, colocando-se em solidariedade com o povo palestino.

Você, Gil, até cantou para nós: “Tornai vermelho todo sangue azul”. Você cantou ao “Senhor da selva africana”, dizendo que ela era “irmã da selva americana”. Eu acrescento: nossas selvas também são irmãs do vale do rio Jordão ocupado, das oliveiras em Jerusalém e dos pomares cítricos da Terra Santa.

Eu rogo a vocês que cancelem sua apresentação em Israel até o momento em que reine a liberdade e sua música não possa ser explorada por um regime opressivo para encobrir e perpetuar a opressão. Só então todos os palestinos -- e israelenses -- poderão viver sem opressão e verdadeiramente desfrutar de sua música.

Deus os abençoe.

Arcebispo Emérito Desmond Tutu

Cape Town, África do Sul