Crítica: Tim Bernardes tenta entender a falta e a separação na brutalmente honesta estreia solo

Recomeçar, primeiro disco do líder d’O Terno sem os companheiros de banda, é uma pérola triste, um filho direto da obra-prima Lóki?, de Arnaldo Baptista

Lucas Brêda Publicado em 28/09/2017, às 19h54 - Atualizado às 20h38

Capa do debute solo de Tim Bernardes, Recomeçar
Reprodução

“Não chora mais, vai, por favor”, implora Tim Bernardes, vocalista d’O Terno, na dolorida “Não”, faixa em que consuma um fim tão indesejado quanto implacável de relacionamento. Sétima de 13 na tracklist de Recomeçar – primeiro álbum solo dele –, a canção é o clímax de uma jornada pouco linear pela confusão de sensações que é tentar entender a falta (não só a física e objetiva, mas a que diz respeito à mente) posterior à quebra de laços com um(a) parceiro(a) de vida.

Depois de três discos – sendo os dois mais recentes deles bastante aclamados – e meia década de carreira com O Terno, ele agora fala não daquilo que lhe interessa, como faz na banda, e sim do que não consegue evitar. A estrutura de canção, claro, remete a’O Terno, assim como às óbvias influências de Beatles, Mutantes, Clube da Esquina, mas Recomeçar é tão intrinsecamente pessoal que funciona como uma obra completamente destacada. Não se trata de sobras – e nem de um álbum que poderia ser – do grupo que Bernardes lidera, menos ainda de um aglutinado de ideias heterogêneas.

Integralmente sozinho (ele assina quase tudo: “Voz, coros, violões, guitarras, pianos, bateria, baixo, órgão, mellotron, percussões, autoharp, metalofone”), o paulistano, filho de Maurício Pereira (Os Mulheres Negras), é onipresente: ele está tanto nos sons quanto nos silêncios. A sensação, aliás, é de que os ecos e espaços vazios, plano de fundo de um disco quase brutalista, são sombriamente preenchidos pelas dúvidas e lamentos de uma mente devastada. São memórias, diálogos e divagações visitados com uma nostalgia melancólica – de instrumentos quase rudimentares, timbres lo-fi, melodias de cantiga – e permeados por momentos de fuga da realidade.

Liricamente, Bernardes tem uma capacidade impressionante de encarar sentimentos tão desagradáveis (a solidão, a culpa, a negação) com a crueza de frases ordinárias. Atravessando falsetes, vocais simultâneos, gritos e sussurros, ele ainda eleva o nível de drama traçando um jeito de cantar tremido que soa despedaçado como uma versão mais técnica e suave do que fazem Neil Young e J Mascis. Bernardes consegue fazer o gancho de “Ela Não Vai Mais Voltar” – literalmente o título da faixa e que poderia ser o refrão de uma das mais amarguradas músicas de Zezé di Camargo & Luciano nos anos 1990 – soar como a expressão mais brutalmente triste e honesta do mundo por alguns segundos.

Uma das horas mais dolorosas (e catárticas) é quando ele encara o inevitável, com um piano tão frágil quanto a voz que admite, hesitante: “Vou deixar ela ir embora”. Em “As Histórias do Cinema”, Bernardes faz seu humor lírico característico soar trágico ao comparar o momento chave do LP – o pontapé do recomeço – com o olhar das horas no celular após o fim de um filme. Se fosse um longa, e há material para isso, Recomeçar teria estrutura narrativa e crueza emocional comparável a de um Amor (2012), de Michael Haneke, por exemplo.

Quem ouviu “66” – primeiro single d’O Terno, uma canção sobre a dificuldade de escrever de maneira original – em 2012, dificilmente vislumbrou o compositor corajoso e profundamente entregue que seu autor veio a se tornar. Suficientemente independente d’O Terno em todos os aspectos, Recomeçar é uma pérola triste, um filho direto da obra-prima Lóki? (de Arnaldo Baptista), um break-up record que já nasce com aura de obra “rara”, daquelas tão sentimentalmente densas que dificilmente serão revisitadas (até mesmo pelo próprio Tim Bernardes).