Em entrevista no mês passado, Emílio Santiago falou à Rolling Stone Brasil sobre o que acabou sendo um de seus últimos shows

“Sou um cantor romântico", afirmou o cantor, bem-humorado, após ter tido dificuldade de acompanhar o ritmo do frevo na abertura do carnaval de Recife

Pedro Antunes Publicado em 20/03/2013, às 12h53 - Atualizado às 13h19

Emílio Santiago no carnaval de Recife
Marcelo Lyra/ Divulgação

O relógio já se aproximava das 23h quando Emílio Santiago foi chamado ao palco Marco Zero, principal polo do festivo carnaval de Recife, por Fafá de Belém. Subiu com aquele sorriso branco e brilhante, que chamava mais a atenção do que a camisa estampada. De frente para uma multidão de 60 mil pessoas, o cantor, que morreu nesta quarta-feira, 20, aos 66 anos, fez uma das últimas performances naquela noite de 9 de fevereiro.

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Emílio suava. Estava quente, sim, mas o compasso rápido do frevo regido por Maestro Spok era mais. Diferente das canções românticas ou dos sambas-enredos com os quais ele estava habituado. “Exige uma técnica muito grande do cantor”, disse ele à Rolling Stone Brasil, na área reservada para os artistas, depois da apresentação.

Enquanto secava o suor que insistia em escorrer pelo rosto, após 15 minutos de performance, Emílio derreteu-se de amor a Recife e ao frevo. “Estou fazendo o meu debute e tenho o maior carinho”, disse ele. “Espero que da próxima vez eu esteja mais relaxado. O frevo é raríssimo. Não se vê em nenhum outro lugar do mundo. É um ritmo genuinamente pernambucano. Tenho o maior carinho pelo povo pernambucano e pela cultura daqui. É muito bom poder estar aqui, na abertura do carnaval de Recife, cantando esses frevos dificílimos de Antônio Maria”, contou ele.

No palco, ele e Fafá entoaram um dos hinos da cultura local, “De Chapéu de Sol Aberto”, antes de encararem os versos de Antônio Maria, poeta e compositor pernambucano, com um pot-pourri dos Frevos Nº 1, 2 e 3. Diferentemente da cantora, acostumada ao gênero, Emílio patinou e sua voz pouco apareceu.

Até ele mesmo admitiu que aquela não foi a apresentação ideal, mas não perdeu o bom humor diante do gravador. “É uma questão de continuar a cantar, cantar, cantar, cantar e cantar”, cantarolou ele, no ritmo do verso “Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”, original de “O que É, o que É?”, de Gonzaguinha. “Sou um cantor romântico”, disse. “Da próxima vez vou estar mais à vontade, mais relaxado”, completou, ainda sorridente, ainda suado, dirigindo-se para o camarim.

Emílio Santiago sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) no dia 7 de março e foi internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada. O velório, aberto ao público, realizado na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, teve início às 12h desta quarta, 20. Já o enterro será às 11h de quinta, no Memorial do Carmo, no Caju, na Região Portuária do Rio.