Lollapalooza 2019: depois de tanto apanhar, Kings of Leon personifica o “Rocky Balboa” e vence após de 7 tentativas

Banda faz show mais energético das outras quatro vezes que estiveram no País neste sábado, 6, no Autódromo de Interlagos

Pedro Antunes Publicado em 06/04/2019, às 23h44

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Caleb Followill(Foto:Camila Cara)

A posição do Kings of Leon era das mais difíceis: a de banda chamada “de última hora” para o Lollapalooza 2019, depois que a escalação dos Tribalistas causou controvérsia ao ser anunciado como headliner do segundo dia de festival. Neste sábado, 6, a banda tocou para um público total de 92 mil pessoas.

Para piorar, o clima não ajudou o grupo. Uma tempestade interrompeu as atividades do evento por mais de 2 horas e quase causou seu cancelamento. Isso fez com que muita gente fosse embora e, outros, desistissem de sequer ir ao Autódromo de Interlagos.

Contra a banda também contava o fato de que, embora tenham uma boa base de fãs no Brasil, faria a sua 5ª turnê no país ( e 8º show)  com desconfiança acumulada por não ter entregado o suficiente nos palcos nas vezes anteriores.

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Poderia ser esse o roteiro de Rocky, filme de Sylvester Stallone, adaptado para o mundo da música. Mas é a história de redenção do Kings of Leon, banda de Nashville, que voltou ao Brasil pela 5ª vez para fazer aquilo que nunca foi capaz: um show intenso, de entrega e superação.

Outrora colocada como uma das bandas mais importantes do rock contemporâneo, principalmente graças à uma boa sequência de discos no começo da carreira e ao álbum de estrelato, Only By The Night (2008), o grupo viveu de desconfianças desde então, com trabalhos de receptividade mediana e shows bastante mornos ao redor do mundo.

A apresentação no Lollapalooza 2019 mudou isso. A família Followill pela primeira vez desde que estreou em terras brasileiras, na década passada, entregou uma performance aprimorada, como se tivesse vontade de proporcionar um bom espetáculo.

Grande parte do sucesso do show se deu ao fato de que o grupo parece ficar tranquilo no palco, o que não ficou muito evidente das outras vezes.

Compreensão de altos e baixos

De bandinha indie mais descolada do momento, com os álbuns Youth & Young Manhood (2003) e Aha Shake Heartbreak (2004), que levavam o garage rock urbano para o ambiente rural, do country e vintage, o Kings of Leon experimentou uma ascensão meteórica quando decidiu deixar as botas de caubói de lado.

O par de discos seguinte, Because of the Times (2007) e Only by the Night (2008), mudou a vida da banda para sempre. Em 2009, eles levaram três prêmios no Grammy por "Use Somebody", sucesso absoluto do quarto álbum dos rapazes.

Naquele mesmo ano de 2009, a banda fez 120 shows e, depois disso, nunca mais foi mesma. A convivência entre os irmãos Caleb, Nathan, Jared, e o primo Matthew se desgastou e, depois disso, foi difícil se reerguer.

A prova está em Come Around Sundown (2010), um álbum burocrático e sem criatividade, um claro sinal de que algo não ia bem. Não por acaso, logo depois dele, o grupo anunciou um hiato, em 2011.

A volta por cima

Depois de alguns tantos tropeções, o Kings of Leon mostrou que soube achar a direção de casa com Mechanical Bull, um álbum que foi bem em vendas, mais ou menos em críticas, mas apontou um caminho.

Walls, disco de 2016 que dá nome à turnê que traz o KOL de volta ao Brasil, se saiu melhor, com um respeitável primeiro lugar nas paradas norte-americana e inglesa.

Não bastasse isso, apesar de trazer um repertório inconsistente, com ótimos momentos e outros nem tanto, o disco garantiu aos Followill a vaga de atração principal do festival Reading, na Inglaterra, um dos principais da Europa.

5ª vez no Brasil

O Kings of Leon esteve no país outras quatro vezes. Antes do show no Lollapalooza 2019, vieram em 2005 (para Rio de Janeiro e São Paulo), 2010 (no festival SWU, no interior de São Paulo), 2012 (São Paulo) e 2014 (São Paulo e Rio de Janeiro).

Nenhuma das vezes na qual o grupo pisou por aqui fez justiça ao burburinho criado em torno da banda, e parte disso é culpa da ascensão estratosférica e a incapacidade deles em lidar com o sucesso e com a intensa agenda de shows.

Escalação de "última hora"

Havia um alívio na pressão em cima dos ombros do grupo por conta da escalação que chegou dias depois do anúncio do resto das atrações.

O festival revelou todos os artistas que tocariam, em 21 de novembro. No alto do pôster de divulgação, estavam Arctic Monkeys, Kendrick Lamar e Tribalistas.

Foi só 20 dias depois, em 11 de dezembro, que o Kings of Leon foi anunciado. O nome da banda foi encaixado de maneira quase que improvisada ao lado dos Tribalistas, o que aumentou a especulação de que a reação do público jovem do Lollapalooza 2019 à escalação do grupo formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown pode ter levado o festival a buscar uma alternativa rápida para dar mais peso ao evento.

Ficou com o Kings of Leon segurar esse rojão, fosse responsabilidade deles ou não.

Intensidade e público entregue

Aquilo que poderia ser visto como um desafio, como a interrupção do festival e a chuva, fez bem ao KOL. Pela descrença em cima deles, o grupo soltou o melhor que tem de si. O público, dentro desse espírito de redenção e entrega ao show que por pouco não aconteceu, embarcou na onda da banda.

E eles entregaram um roteiro baseado no melhor que já fizeram. Isso inclui canções como “Use Somebody” e “Sex On Fire”, de Only By The Night, ao final da apresentação, além das canções mais impactantes dos outros álbuns, como "Revelry", "Supersoaker" e "The Bucket".

Por anos, o Kings of Leon parecia cansado da própria fama. Agora, eles a aceitam e, com isso, contra todas as expectativas e prospecções, entregam o seu melhor: uma família que curte fazer som juntos, como eram, ao serem lançados anos atrás.

Confira abaixo o setlist do show:

1- "Crawl"
2 - "Find Me"
3 - "Radioactive"
4 - "Molly's Chambers"
5 - "On Call"
6 - "Revelry"
7 - "Supersoaker"
8 - "The Bucket"
9 - "Fans"
10 - "Over"
11 - "Closer"
12 - "Mary"
13 - "Eyes on You"
14 - "Sex on Fire"
15 - "Notion"
16 - "Pickup Truck"
17 - "Knocked Up"
18 - "Manhattan"
19 - "Pyro"
20 - "Back Down South"
21 - "Use Somebody"
22 - "Waste a Moment"