O "maldito" Jards Macalé completa 70 anos

Leia entrevista com o músico, que faz aniversário neste domingo, 3

Guilherme Bryan Publicado em 03/03/2013, às 11h47 - Atualizado às 12h22

FOTO RUI MENDES

Neste domingo, 3 de março, o cantor, violonista, ator e compositor Jards Macalé completa 70 anos como um dos nomes mais inquietos, inovadores, criativos e irreverentes da música brasileira. Para festejar a data, nomes como Adriana Calcanhotto, Thaís Gulin e Ava Rocha se encontraram com ele na noite anterior, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. A festa seguirá no dia 7, no também carioca BNDES, e no dia 10, no Auditório Ibirapuera (São Paulo), com o show “A história do Bem e do Mal – homenagem a Nelson Cavaquinho”. O artista será acompanhado pela nova banda, que batizou de Let’s Play That, nome da canção composta com Torquato Neto em homenagem a Naná Vasconcelos, e que deu título ao álbum lançado por ele em 1983.

Demonstrando toda a diversidade artística que possui, Jards Macalé também participará de exposições em homenagem a Lygia Clark e Hélio Oiticica, e da mostra em homenagem a Nelson Pereira dos Santos, quando apresentará as trilhas musicais que compôs para os filmes O Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres. Ao mesmo tempo, o primeiro compacto que gravou, em 1970, Só Morto, ganhará uma reedição pelo selo Discobertas, a qual contará com dez faixas bônus com registros raros ou inéditos dos anos 70. E chegará aos cinemas em junho no documentário Jards, de Eryk Rocha, que mostra a relação do artista com a música e deverá ser lançado em DVD até o final de 2013. Em 2008, ele já havia sido tema da cinebiografia Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal, de João Pimentel e Marco Abujamra.

Jards Macalé 70 anos: leia depoimentos de Luiz Melodia, Falcão (O Rappa), Frejat e outros.

Jards Adnet da Silva, ou Macau (como era chamado pelos amigos), nasceu em 3 de março de 1943, no bairro carioca da Tijuca, ao pé do Morro da Formiga. O apelido Macalé veio mais tarde, quando jogava futebol na praia e era uma referência ao que era considerado o pior jogador do Botafogo, na época. O primeiro contato com a música veio através da mãe, que gostava de cantar e tocar foxes, valsas e modinhas no piano, muitas vezes sendo acompanhada pelo marido, no acordeom. Já morador de Ipanema, ele estudou piano e orquestração com Guerra Peixe, violão com Jodacil Damasceno, violoncelo com Peter Dauelsberg e regência com Mario Tavares.

Após formar vários grupos musicais, o artista acompanhou Maria Bethânia, que substituía Nara Leão no espetáculo Opinião. Foi mais do que o suficiente para passar a ser diretor musical de shows posteriores da artista e de se aproximar da geração tropicalista dos anos 60, principalmente Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, participando do álbum Transa (1972), de Caetano. Também fez canções para Gal Costa, Nara Leão e Elizeth Cardoso.

Em 1969, chamou atenção do grande público ao participar do IV Festival Internacional da Canção, da TV Globo, com a canção “Gothan City”, a qual interpretou junto da banda Os Brazões. Esse é um dos maiores clássicos da carreira dele, junto com “Vapor Barato”, parceria com Waly Salomão.

Contratado pela gravadora RGE, em 1970, lançou o compacto duplo Só Morto. O primeiro LP, homônimo, foi lançado em 1972. Desde então, gravou mais de dez álbuns. Entre os mais marcantes, está Banquete dos Mendigos, gravado ao vivo, em 1973, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, para comemorar o 25º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que só foi lançado vários anos depois em função da censura. Já na década seguinte, tornou-se parceiro de Moreira da Silva, no samba de breque “Tira os Óculos e Recolhe o Homem”.

No cinema, Jards Macalé compôs músicas para as trilhas sonoras dos filmes Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha; A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura; Se Segura, Malandro!, de Hugo Carvana; e Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres, ambos de Nelson Pereira dos Santos. Nesses dois últimos filmes, o cantor e compositor trabalhou também como ator. O personagem mais marcante foi Pedro Arcanjo, do romance de mesmo nome de Jorge Amado.

Jards Macalé conversou por e-mail com o site da Rolling Stone Brasil sobre o fato de completar 70 anos e os planos para o futuro. Leia abaixo.

O que significa para você completar 70 anos?

Significa que estou vivinho da silva a mais de meio século sobre o planeta Terra.

Há algo que você acredita que apenas essa idade te possibilita fazer?

Sim… a estranha sensação que vivi intensa e perigosamente esses anos todos. Vivi e sobrevivi.

O que representa para você ser identificado como um gênio incompreendido?

O gênio é uma grande besteira (como dizia Oswald de Andrade). A incompreensão vem de preguiça de tentar compreender. O papel que exerci e que exerço até hoje é de estar aberto a novas formas de expressão, tentando compreendê-las.

Como foi o trabalho com o Eryk Rocha? Como é para você ser tema de documentários?

O trabalho com Eryk foi confiar a ele captar a realidade do meu som, da minha alma. Os documentários servem para esclarecer e revelar alguns fatos não revelados ou esclarecidos de minha vida.

Quando você descobriu que gostaria de se dedicar à música profissionalmente? Qual foi a importância do Severino Araújo na sua carreira?

Aos 15 anos comprei meu primeiro violão. Alí fantasiei que gostaria de tornar-me músico. O maestro Severino Araújo confirmou esse desejo.

Como foi participar do espetáculo Opinião, de 1965, e como começou sua relação com Maria Bethânia e Caetano Veloso?

Minha relação com Maria Bethânia vem desde o momento em que ela, para substituir Nara Leão no show, hospedou-se em minha casa, em Ipanema. Caetano eu já havia conhecido em 1959, quando me foi apresentado por Torquato Neto.

Qual foi a importância dos festivais da canção na sua carreira?

Foi aparecer na televisão defendendo minhas músicas.

Quais são as principais lembranças que você guarda do período em que viveu em Londres?

Sexo, drogas e rock and roll.

Há álbuns que você considera os mais importantes da sua carreira?

Todos. Cada um é tão querido quanto os outros. Tive oportunidade de tocar com músicos maravilhosos, escolhidos por mim pela admiração e respeito que tenho por todos.

Como foi a realização do show e do álbum O Banquete dos Mendigos?

Foi complexo. Estávamos no auge da ditadura militar no Brasil, além da censura feroz. A carta universal dos Direitos Humanos (ONU) nos protegeu do pior. No show foram lidos alguns artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cada artigo era um desafio para aquele governo. O disco foi mais complicado porque foi proibido em todo o território nacional. Foi lançado 5 anos depois de sua feitura.

O que significou para você ter a canção "Vapor Barato" tão valorizada nos anos 90, a ponto de ter aparecido na trilha do filme Terra Estrangeira e de ter sido regravada por O Rappa e Gal Costa?

É um fenômeno interessante. O "Vapor" é uma música datada, da época em que "descíamos, de calça vermelha, casaco de general, cheio de anéis, por todas as ruas…”. E essa cantiga atravessou o tempo através de Gal, Rappa, e tantas outras pessoas que a gravaram.

Quais são seus projetos de vida a partir de agora, tanto pessoal como profissionalmente?

JViver mais 70 anos consertando os malfeitos e defendendo e criando meus benfeitos.