Olhos Azuis traz thriller sobre imigração e agrada público de Paulínia

Filme de José Joffily narra macarrônica saga de um oficial da alfândega que, após episódio bizarro, termina em Pernambuco em busca de redenção

Por Anna Virginia Balloussier, de Paulínia Publicado em 16/07/2009, às 02h44

O "John Wayne" do Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova York, cumpre seu último dia de expediente antes da aposentadoria forçada. Uma agente agradece por ter sido acolhida sob a asa do durão - "mesmo sendo negra e mulher". "Graças a Deus não sou muçulmana!", ela mais fala sério do que brinca. Os dois, mais um oficial de sobrenome latino na certidão de nascimento, são encarregados de decidir quem pode entrar no país e quem fica de fora da festa.

Na sala de espera, um saladão global: mulheres com burcas, grupos orientais, "chicanos" de praxe. O rigoroso método para deliberar quem terá direito a mordiscar um bocadinho da Big Apple nova-iorquina? O chefão propõe um jogo: os oficiais devem "deixar a intuição fluir" e escolher, aleatoriamente, os detidos da vez. E assim instala-se a premissa de Olhos Azuis, longa de ficção apresentado na 5º noite competitiva (terça, 14) do Festival de Paulínia.

O John Wayne de José Joffily (Quem Matou Pixote?, Dois Perdidos Numa Noite Suja) atende por Marshall - nos EUA, o nome é praticamente um Silva brasileiro. Em entevista coletiva de imprensa nesta quarta, 15, o diretor confessou que pouco sabia sobre David Rasche, norte-americano escolhido para viver o protagonista, um homem moribundo que parte para Pernambuco a fim de encontrar a filha do brasileiro Nonato (o ótimo Irandhir Santos). Num twist bizarro daquela última noite de Marshall à frente da alfândega do JFK, Nonato acaba morto, após ser submetido ao interrogatório humilhante do oficial.

Rasche e Joffily acabaram bons amigos. Primeiro nome no crédito da série oitentista Sledge Hammer!, de relativo sucesso no Brasil, e coadjuvante de filmes como Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen, e Manhattan, de Woody Allen, chegou a passar várias semanas na casa do cineasta ("ele e mais mulher, três filhos, namorados dos filhos..."). Mas Rasche é apenas um dos vários nomes internacionais no filme, que se propõe uma espécie de "ensaio sobre a cegueira" - metaforizada pelos "olhos azuis" - norte-americano, ainda um tanto vendado a temas como xenofobia e abuso de poder.

O assunto, batata quente não é de hoje, chegou a Joffily 10 anos atrás, quando ele hospedou "uma deportada". Em três meses, a convidada lhe contou detalhes do dia em que foi riscada da listinha de convivas do Tio Sam. A partir daí, o diretor sempre ouvia um catatau de relatos parecidos - "humilhação" disparada na lista das palavras mais recorrentes. Para costurar a história, chamou o colaborador de longa data Paulo Halm (que assinou, ainda, filmes como A Casa da Mãe Joana e Guerra de Canudos) - que achou que "faltava mulher e revólver na história". Surgiu, então, a personagem de Cristina Lago (Maré, Nossa História de Amor), jovem prostituta que guia o norte-americano em Pernambuco. "Bia de Beatriz, como em A Divina Comédia", explicou Halm.

Deu certo com o público. A produção apostou em roteiro rápido, enveredado para o thriller psicológico. Nesse sentido, funciona: das mais aplaudidas até agora, a obra cria a tensão estimada pelo "público médio" - essa horrível definição atribuída ao espectador não especializado.

Mas, apesar do tema quente, o thriller-denúncia de Joffily acaba como um self-service de estereótipos. Pior: esses vêm requentados dos dois lados da linha de Equador. Há o policial racista que não suporta a "invasão bárbara" em seu país, a agressividade da "mulher negra independente", a consciência bamba do oficial descendente de mexicanos, o casal trambiqueiro da Argentina, a bela cubana (interpretada pela brasileira Branca Messina), entre outros. Até Bia, a garota de Recife, lembra bastante a prostituta baiana vivida por Alice Braga em Cidade Baixa.

Interessante mesmo será conferir a reação do público norte-americano ao filme. Rasche já disse ao amigo que conseguiria facilmente arranjar distribuidora - mas, para isso, seria legal que Joffily optasse por um dos finais rejeitados - o diretor preferiu um final menos generoso com a consciência norte-americana. Por aqui, Olhos Azuis deve aportar em março.

Manoel de Barros

Também na noite de terça, 15, foi exibido o documentário Só Dez Por Cento É Mentira, sobre o poeta cuiabano Manoel de Barros. Clique aqui para saber mais. Abaixo, você confere a cobertura do II Festival de Cinema de Paulínia.