Profissionais do sexo criticam nova série da Netflix por explorar estereótipos e fetiches

Amizade Dolorida é a nova série da plataforma de streaming que aborda o movimento BDSM

Rolling Stone EUA Publicado em 30/04/2019, às 11h55

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Zoe Levin em Amizade Dolorida (Foto: Reprodução / Netflix)

A nova produção original da Netflix, Amizade Dolorida, que estreou no dia 24 de abril, aborda a vida de Tiff (Zoe Levin), uma jovem universitária que encontra uma forma de garantir as suas economias por meio de práticas sexuais BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) ao lado do seu melhor amigo, Pete (Brendan Scannell), que a ajuda como assistente do negócio.

No entanto, a série está recebendo críticas dos profissionais do sexo e da comunidade BDSM por imprecisão de informações. Muitos destacam o fato do programa abordar uma narrativa muito mais embasada na propagação de estereótipos e fetiches dos profissionais do sexo.

Tiff, por exemplo, é posta como emocionalmente indisponível e com um histórico de traumas sexuais. "Isso é um clichê a respeito dos profissionais, visto que encoraja as pessoas a nos verem como vítimas de traumas", diz Kitty Stryker, escritora, ativista e profissional do sexo.

A personagem é abordada como "uma princesa com um coração de gelo e látex", acrescenta Stryker. - o que deixa implícito de que isso é um pré-requisito para o trabalho. E este não é o caso. A Mistress Couple, chefe da La Domaine Esemar revela a Rolling Stone EUA: "O trabalho sexual é trabalho, não uma extensão da personalidade individual ou alguma patologia, a maioria das dominadoras não são mulheres passivas-agressivas que atacam os seus clientes".

Amizade Dolorida aborda a história de Tiff como alguém que tem os domínios mais requisitados da cidade de Nova York, mas ela não é tão boa em seu trabalho. Em diversas cenas, ela demonstra uma falta de compreensão dos princípios de segurança e consentimento, dois valores que são considerados primordiais dentro da comunidade de BDSM.

Para uma série sobre sexo, não existe interesse em se envolver com a realidade. “O BDSM sem o consentimento, o cuidado e o componente sexual é abuso”, diz Couple. “E eu acho que ela é muito abusiva não apenas com seus clientes, mas também com Pete e especialmente com ela mesma… ela compromete seus limites a maior parte do tempo.”

No final da série, Tiff acaba em uma situação violenta. Embora a violência contra profissionais do sexo não seja incomum, pessoas que cometeram atos violentos na vida real, como Alisha Walker, que foi sentenciada à prisão por 15 anos por matar um cliente que a socou e tentou esfaqueá-la, encontram-se em situações de punição brutal por lutarem por suas vidas. E então, é possível que, caso Amizade Dolorida seja renovada para a próxima temporada, Tiff, sendo uma mulher branca jovem e atraente, não enfrente as reais consequências.

"Se a série fosse criada por alguém que trabalhou ou trabalha o como dominadora, muitas dessas imprecisões poderiam ter sido evitadas", comenta Couple. Não está claro se o programa contratou ex-profissionais para consulta e desenvolvimento do programa, caso isso tivesse sido feito, Couple acredita que ofereceria uma visão mais realista e equilibrada do setor.

Por outro lado, o criador do programa, Rightor Doyle, parece estar genuinamente empenhado em tentar eliminar alguns dos estigmas que cercam o trabalho sexual e a sexualidade alternativa, como revelou ao New York Post: “O importante para mim é que estamos explorando este mundo."

"O maior medo que eu tenho é do programa é que isso vai inspirar as jovens a pensarem que é algo fácil, que você pode depositar o seu trauma em pessoas inocentes em troca de dinheiro. Todas as razões são equívocadas para serem pautadas na série e é uma visão totalmente imprecisa do que é realmente essa vida, e isso também coloca mulheres em situações perigosas." completa Couple. 

Além disso, a comunidade BDSM criticou o fato da personagem ter um perfil verificado no Twitter, para promoção da série, em um momento em que muitas profissionais do sexo têm sido banidas pelas grandes plataformas de mídia social. Afinal, eles acreditam que a prática de banir ou remover um perfil de mídia social dificulda o acesso das pessoas - que é amplamente utilizado para este trabalho. 

Assista o trailer abaixo: 

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