Vanguart respira ao som de Bob Dylan enquanto planeja o futuro da banda

Grupo lançou recentemente projeto só com músicas do Bardo, mas tem novidades até o fim de 2019

Pedro Antunes Publicado em 14/09/2019, às 10h00

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Vanguart (Foto: Juan Pablo Mapeto / Divulgação)

Em algum momento, perdi a conta de quantos sanduíches de queijo quente chegaram à mesa acompanhados de copos e xícaras com os mais diferentes tipos de café - coado, expresso, duplo, vegano e por aí vai. Helio Flanders, Reginaldo Lincoln e Fernanda Kostchak, três quartos do Vanguart, sentam-se em volta o gravador enquanto comem o café da manhã já quase no horário do almoço, para falar de Bob Dylan e do futuro do Vanguart.

Há alguns meses, em julho, o quarteto completado por David Dafré lançou o disco Vanguart Sings Bob Dylan pela Deck, um projeto que tomou forma de álbum depois de quase uma década de shows baseados no repertório das canções do artista norte-americano.

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O Vanguart nunca foi estranho às versões, é verdade. Em 2009, estrearam shows baseados nas canções dos Beatles, amparados pela roupagem folk do grupo de Cuiabá. No ano seguinte, iniciaram as performances com músicas de Dylan. Certa vez, na TV Globo, impressionaram Fernanda Kostchak ao tocarem Raul Seixas, anos antes da entrada dela na banda, marcada pelo disco Boa Parte de Mim Vai Embora, de 2011.

"Naquela época [com os shows dos Beatles e Dylan], a ideia era pagar as contas. Agora, nós temos um conceito", explica Reginaldo. Helio completa: "Era um modo de seguir tocando. O problema é parar de produzir, entende? Acho até que nos ajudou a produzir mais".

Fernanda segue: "Acho que o Vanguart percebeu muito rápido que esse trânsito em outras coisas, fazer versões, ter projetos paralelos, tudo isso alimenta o autoral. Enriquece a nossa dinâmica de grupo".

Ao longo de uma década de banda, entre transformações, mudanças geográficas e de integrantes, o Vanguart se estabeleceu como uma das bandas mais interessantes e inovadoras do cenário alternativo nacional.

Partiram do folk de violões com cordas de aço, como ouvido no já clássico disco ao vivo Multishow Registro: Vanguart, de 2009, com músicas que marcaram uma geração (tal qual "Semáforo"), até Beijo Estranho, o poderoso e tenso registro de uma banda em constante reinvenção, lançado em 2017.

Beijo Estranho, aliás, ganhou em 2018 uma versão deluxe, com uma porção de músicas inéditas, com destaque para "Tudo o Que Não For Vida", uma favorita dos seguidores da banda. Portanto, Vanguart Sings Dylan não era um projeto "obrigatório", no sentido mercadológico da coisa, eles explicam. Mas foi algo que aconteceu.

Em 5 dias, de 2 a 7 de dezembro, acompanhados pelo produtor Rafael Ramos, o Vanguart entrou no estúdio e regravaram essas canções em um processo bastante orgânico, como o projeto mesmo pedia.

Foram lançadas 16 músicas no total escolhidas a partir de algumas categorias. O lindo - e melancólico até a ponta do fio de cabelo - disco Blood on Tracks, lançado por Dylan em 1975, por exemplo, tem as três primeiras músicas incluídas, "Tangled Up in Blue", "Simple Twist of Fate" e "You're a Big Girl Now".

Também decidiram incluir canções dos momentos mais clássicos e tradicionais de Dylan,  caso de "Like a Rolling Stone" e "Blowin' In the Wind", como uma forma de introduzir o artista para um público que talvez ainda não o conheça.

É claro, também há raridades, como "I'll Keep It With Mine", música criada por Dylan para o disco dele Blonde on Blonde, de 1966, mas gravada por Nico no seminal Chelsea Girl (1967), ou "Restless Farewell", presente em The Times They Are a-Changin' (1964).

Além de Helio e Reginaldo, vozes recorrentes nos discos do Vanguart, a violinista Fernanda Kostchak canta lindamente "House of the Risin' Sun" e o guitarrista David Dafré dá voz a "Hurricane".

Cada Vanguart estava em um momento diferente quando o projeto foi gravado - e até agora. Helio atualmente está na Itália, mergulhado nas poesia italiana, Dafré no Canadá, Reginaldo se diverte com as duas filhas pequenas, enquanto Fernanda explora novas sonoridades do violino e da sua voz em projetos paralelos.

"Quando surgiu a ideia, não tive dúvidas de que esse era um momento de entressafra", explica Reginaldo. Ele e Helio tem criado canções separadamente, inclusive. "Aprendemos que existe um timing, um momento, para que as coisas do Vanguart aconteçam. Sempre foi algo muito natural."

"A gente nunca se obrigou a fazer algo", segue Helio, "até mesmo porque não rola. Somos tomados por uma depressão profunda com compromissos. A gente já adoeceu tentando mudar os processos em alguns momentos."

Vanguart Sings Dylan, portanto, é um respiro. É diversão, também. "Não existe pretensão comercial com esse disco. Fizemos o álbum porque a gente queria", explica Flanders.

"É um show que a gente sempre fez", explica Fernanda, "e fazia parte da nossa rotina. Muita gente perguntava sobre como ouvir essas versões. Então, também é uma maneira de registrar isso, guardar na memória como algo positivo."

"Aprendemos a viver em um modus operandi caótico", brinca Flanders. Cada integrante do Vanguart vive atualmente além das fronteiras da banda, como eles explicam, para que algo novo surja em breve. "Daí, quando vou compor, fico mais relaxado."

O projeto de Dylan surgiu, aconteceu, mas há algo por vir para a banda nos próximos meses, garante Reginaldo. "Devemos soltar mais alguma coisa nesse ano. Um single, uma música, um disco, não sabemos o que é", revela ele. Fernanda até se espanta com a frase do colega e ri: "Você vai revelar isso assim?".

Helio toma a frente: "Eu estou compondo. Você está compondo?". Ele pergunta para Reginaldo que, entre uma mordida e outra no queijo quente colocado à sua frente, responde: "Sim, muito. Muitas músicas boas".