"Meu pai sempre quis que virasse um filme", diz filho de Renato Russo sobre Faroeste Caboclo

Ísis Valverde e Fabrício Boliveira, protagonistas do longa-metragem, e o diretor René Sampaio falam sobre a produção, que estreia nesta quinta, 30

Stella Rodrigues Publicado em 30/05/2013, às 09h20 - Atualizado às 11h56

Faroeste Caboclo
Divulgação

Quando foi lançada, nos anos 80, a canção “Faroeste Caboclo”, composta por Renato Russo no Legião Urbana, se destacou. Cheia de palavrões e com o triplo de duração da maioria das canções, ela chamou atenção do público, que ficou curioso para entender direito que história era aquela (não é como se desse para procurar a letra na internet). Uma dessas pessoas era René Sampaio, que na época tinha 14 anos, em Brasília. “Já era fã da banda e quando tocou no rádio achei incrível, queria ouvir de novo para pegar o resto da letra. Já queria fazer o filme desde aí”, conta o diretor em entrevista à Rolling Stone Brasil.

“Legião é como Elvis Presley, Beatles... gente que vendeu mais disco depois que acabou do que quando estava em atividade”, diz ele, sobre a atualidade do projeto. Sendo assim, ele o levou adiante. O longa-metragem baseado na célebre canção do Legião Urbana, com estreia marcada esta quinta, 30, traz Fabrício Boliveira encarnando seu primeiro protagonista, João de Santo Cristo, anti-herói que sai do interior da Bahia para tentar a vida em Brasília. Ísis Valverde é a amada do rapaz, Maria Lúcia, a “mocinha fora do arquétipo”, conforme define a atriz.

Como parte da pesquisa, Ísis contou que esteve com a família de Russo, incluindo Dona Carmem, mãe do músico, que abriu a casa e mostrou cartas e objetos do filho para a equipe do filme. “Em cartas achamos que teve um Jeremias na vida dele, alguém que o traiu. O João é um alter ego. Então, perguntei a ela quem era a Maria Lúcia e descobri que eram várias. Tentei fazer elas todas em uma só, uma mocinha bem atípica, bem solta”, afirma a atriz, que gosta de definir a personagem como um “passarinho preso”. "O João vem abrir a porta e deixá-la voar um pouco", explica. "Ela tem um vulcão de emoção dentro dela, mas não pode expressar."

Faroeste Caboclo acaba focando muito mais no aspecto da história de amor da canção do que nas questões sociais e políticas que fazem parte dela. Isso acaba servindo de pano de fundo para o drama dos personagens. “São dois solitários procurando preencher um buraco, a tristeza e a angústia”, define Ísis. “A gente chorou muito quando, no ensaio, percebemos o tamanho da solidão dos personagens”, relembra o par romântico da atriz, Fabrício Boliveira.

Crítica: Faroeste Caboclo traz questões sociais e políticas atuais como pano de fundo para romance.

A família de Russo acompanhou tudo de perto, embora o diretor garanta que teve total liberdade. Giuliano Manfredini, filho de Russo, “se imiscuiu na equipe”, conforme brinca Sampaio. “Faroeste... é um filme que está há muito tempo na minha vida. Meu pai sempre quis que virasse um filme. Ver todo esse resultado é maravilhoso para mim, dá muito orgulho ver isso acontecer”, diz Manfredini. Fabrício, que virou um grande amigo do rapaz nesse processo, conta: “Dava muita segurança ter o Giuliano participando daquilo, isso embasava nosso trabalho de muitas formas. E ele abria uma porta para a gente para esse universo de Brasília.”

Conforme já foi contado aqui, o diretor não estava necessariamente procurando um protagonista negro e as questões raciais ganharam força após a escolha de Boliveira. “Eu queria gente assim: além de talentosa, com essa entrega para o personagem”, diz Sampaio. “É um processo de criação coletivo, o João que ele colocou na tela não é o que eu tinha imaginado no primeiro dia. Ele trazia coisas, eu levava outras. A gente foi descobrindo o filme conforme foi fazendo.”

A música

“Toda vez que toca a gente canta como se fosse a primeira vez”, lembra Ísis a respeito da faixa que tornou o filme possível. “Ela era inerente ao filme, era colada, uma coisa completava a outra. Era como se a gente estivesse morando dentro da música, era mágico, lindo, incrível. Sabe quando criança entra na história conforme vai cantando?”, relembra ela, que tem uma história curiosa com a canção.

"Minha mãe sempre foi fascinada por música e bandas dos anos 80. Eu era uma criança de 7 anos apaixonada por Tim Maia. As crianças brincavam de quem conseguia cantar a letra de ‘Faroeste Caboclo’ sem errar, em Minas. Ficava um olhando para a cara do outro para ver se não errava.” Quando soube que poderia ter a chance de encarnar Maria Lúcia, a atriz se entregou de corpo e alma aos testes até conseguir o papel. “Perguntei: ‘Esse filme vai ter corpo físico agora, é isso? Posso ser ela?! É isso?’ Fiquei muito emocionada e corri atrás do teste”.

Já René Sampaio não teve a mesma experiência com a faixa e diz que não tem certeza se consegue cantar a letra toda sem se perder. “Eu não sei se ele come as menininhas ou rouba a igreja primeiro. Faz parte da graça da música cantar com os amigos e um ir puxando o outro quando alguém erra”, afirma, rindo.