Na cabeça de Marcelo D2

Em entrevista, o rapper levanta as reflexões do novo disco inteiramente virtual e garante "tentar pegar de volta as cores da bandeira do Brasil"

Nicolle Cabral Publicado em 03/07/2020, às 20h30

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Marcelo D2 (Foto: Divulgação)

Em 2019, quando entrevistei Marcelo D2 para falar sobre a agenda de shows lotada com o projeto multimídia Amar É Para os Fortes, o mundo era outro. As discussões estavam voltadas, principalmente, para as ruas e para as urnas — o disco foi lançado às vésperas das eleições para a presidência do País, em 2018. Agora, mais de um ano depois desse papo, se fala sobre tudo, mas essencialmente sobre em estar em casa. 

Há três meses de quarentena no Rio de Janeiro com Paulete Peixoto (mãe), Luiza Machado (esposa e produtora) e Luca, Lourdes, Maria Joana e Stephan (filhos) —  que também passam um tempo com a mãe —, D2 explica a rotina à Rolling Stone Brasil: "Tem dia que acordo sem vontade de levantar da cama e tem dia que acordo cheio de disposição para fazer tudo. Os dias estão oscilando". 

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Enquanto alguns aliviam os dias assando pães de fermentação natural ou fazendo crochês, D2 pensou em um novo álbum — o décimo primeiro da carreira — enquanto descansava das composições "porrada" do novo disco do Planet Hemp. Com o título de um dos maiores expoentes do rap nacional, o grupo planejava uma grande reunião, porém, foram interrompidos pela pandemia do novo coronavírus. "Tava todo mundo pronto para terminar o disco, mas aí começou a pandemia", explica. "Não dá para terminar sozinho. Quer dizer, dá. Mas depois de tanto tempo queríamos terminar o disco juntos".

Com isso, surgiu uma brecha para D2 revisitar algumas composições e pensar além da interação das lives que faz no Twitch — uma delas, inclusive, acontece todos os sábados, chamada de "Almoço dos Cria", em que junto a família prepara alguma receita culinária. Na última semana, preparou o famoso "pudim sem furinhos". 

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"Comecei a fazer live todo dia no Twitch, mas não tava muito satisfeito com só fazer a live, eu queria fazer algum movimento artístico, que é a minha parada, porque não sou só streaming". Com isso, o projeto foi anunciado com um detalhe atrativo no meio desse cenário caótico: ao longo de 30 dias, a partir deste sábado, 4, o processo de criação do novo disco do rapper será transmitida ao vivo pela plataforma Twitch.

Isso inclui todos os estudos de referências até a masterização e mixagem das músicas. "Eu quero escrever as letras na frente de todo mundo e perguntar no chat para a galera: 'o que vocês estão achando disso? e o que acham que eu posso falar aqui?'. A ideia é que seja colaborativo". 

Segundo apresentado, "a revolução não será televisionada. A revolução será transmitida ao vivo" — o discurso veio de uma adaptação da música de Gil Scott-Heron, "The Revolution Will Not Be Televised". Como isso vai ser feito? Ele ainda não sabe. Mas vai descobrir. 

A seguir, a conversa com Marcelo D2 sobre o despertar do Planet Hemp, "quem é o verdadeiro brasileiro?", patriotismo, show drive-in, o "novo normal" e um novo disco inteiramente virtual. 

Tenho visto artistas comentarem que a quarentena roubou um pouco das 'provocações' na hora de fazer música, como também vi gente falando que não mudou muita coisa, por naturalmente já gostar de criar música quando está sozinho(a). Como está sendo isso para você? Você está conseguindo fazer som mesmo em casa?

Tive uma porção de ideias [para o disco do Planet Hemp], na quarentena, a maioria das músicas eu comecei, outras só terminei. Mas cara, é fod*, o disco do Planet Hemp é exatamente sobre essa distopia que estamos vivendo agora. Basicamente, é o conceito do disco. O Planet Hemp é uma banda que começou há 20 anos e as letras continuam super atuais. É basicamente como se eu tivesse adormecido e o Planet Hemp acordasse em um lugar talvez até pior do que a gente achou que já estava ruim. Escrever letra em uma quarentena não é fácil, tá ligado? Tive momentos em que eu fiquei 'não vou aguentar' e aí pensei, 'cara, não dá, vou aliviar um pouco se não vou ficar maluco'. Sei lá, foi difícil escrever o disco. Acho que passei o primeiro mês todo fazendo, e aí depois fiquei uns 15 dias de ressaca do Planet Hemp: das letras e do peso que é escrever um disco desse, distópico para caralh*. E nem a distopia como algo que vem, que possa vir a existir, é uma distopia que a gente já está vivendo. É uma coisa punk, no filter, meio que 'já chegou, né cara’. O futuro que não existe é agora. E 2020, né, que emblemático. Então fiquei meio cansado, e comecei a ver umas músicas minha que eu já tinha. 

No meio disso, veio a Twitch me convidar a participar de um projeto que eles estão promovendo de música, e aí me deu uma acendida. Eu não tava muito satisfeito em só fazer live, eu queria fazer algum movimento artístico, que é a minha parada, não sou só 'streaming, streaming' — apesar de querer muito fazer disso uma constante na minha vida mesmo depois de a pandemia acabar... um dia [risos]. É fod* falar assim, mas a gente achou que ia durar três meses ou quatro e estamos aqui. 

Pois é. Falaram que ia melhorar até julho, mas parece que não. 

Caiu mais de 15 shows meus, foram tudo para setembro.

Mas e aí como veio essa ideia de fazer o disco? 

Pensei em várias coisas. Amo artes plásticas, galeria, exposição, e eu fiquei pensando ‘po, eu podia fazer uma exposição’. Até pensei em pintar na frente de todo mundo. Mas se eu for pintar, ou fazer crochê, sei lá, vai ficar tudo uma merda. Então pensei não, vou fazer o que sei fazer na vida, né, música. Ai decidi que, a partir de amanhã [04 de julho], vou 'Tocar os Meus Tambores'. Vai ser um grande festival. E depois, no domingo, 05, vai ser o 'tá, mas e agora?'. 

Pra onde vai...

É, e aí vou começar a ligar para os produtores, parceiros musicais, via live, e começar a chamar a galera para ver como a gente vai fazer esse disco.

Então, durante esses 30 dias, você vai fazer essa live mostrando algum passo do disco?

Todo dia, toda hora, a qualquer momento, em qualquer lugar. [risos]

[risos]. Certo, quando bater, você vai. 

Isso! A galera vai ter que ligar notificação. Vou entrar nas lives e vamos ver o que vai saindo, sabe? Eu não tenho ideia nenhuma do que vou fazer, de qual disco, quer dizer, nenhuma não, eu tenho uma ideia, porque o Nuts tem aquela festa, Disco é Cultura, não sei se você tá ligada

Sim, do Prato do Dia.

É! Basicamente estou em cima desse conceito de música brasileira. Sei lá, essa coisa do patriotismo tem me incomodado muito sabe. Eu tava guardando para ter essas ideias lá, mas a gente vai conversando e aí vai rolando. Tá tendo um brainstorming aqui [risos]. Mas então, essa ideia do patriotismo, cara, me assusta muito.

Total.

Quem são os brasileiros, quem são os reais brasileiros? Quem são as pessoas que serão aceitas nesse país, sabe qual é? Os negros e os homossexuais não vão ser aceitos? Toda essa coisa da não aceitação do brasileiro, que na real, para mim, é o brasileiro de verdade, essa mistura de tudo, me assusta. Então, sei lá, acho que esse disco vai ser cultura. Nada melhor do que a arte para temperar tudo isso. Durante esse um mês, eu vou procurar esse Brasil que eles tanto renegam e tentar pegar as cores da bandeira de volta. E se não der, meu amigo, a gente faz uma bandeira nova e enfia essa porr* da bandeira... Não é verde e amarelo? Então beleza, a gente faz rosa e azul. Nossa nova bandeira, sei lá [risos]. 

É sobre isso, o lance de ressignificar.

A ideia é essa, que a gente saia desse lugar e faça disso arte. Eu vi a Pitty falando uma coisa muito interessante sobre arte no Twitter, ela disse que 'a arte no sucede e nos precede', e isso foi muito importante para mim. Porque essa merda vai passar, mas a arte vai ficar.

Então de uma certa maneira, no meio dessa pandemia, eu quero registrar esse momento com arte. A melhor coisa que eu poderia fazer é isso. Se eu registrar isso em forma de disco, vai ser mais interessante, para mim, porque acho que a poesia vale mais. E os fascistas odeiam poesia.

É louco isso, né. É a coisa de concretizar, porque a gente está em uma vida completamente virtual, então se você transforma esse sentimento em uma arte concreta e leva isso para as pessoas faz muito mais sentido. Rola um acalento. 

Exatamente.

Só voltar no lance das lives, você fica super vontade trocando ideia, né. Uns tempos para trás, você fez uma 'livezona' e também fez um pocket show em um drive-in, e eu queria te perguntar como foi fazer show para um monte de carros?

Cara, eu me senti naquele desenho, Carros.

Os dois riem.

Porque eu olhava e todo mundo fazia [barulho de buzina]. Mas cara, foi incrível. Eu não subia em um palco fazia três meses, tá ligado? Então, foi uma cuspida de tudo que eu tava sentindo. Teve uma hora que fiquei super arrepiado, quase chorei no meio do show. Foi bem libertador estar no palco de novo.

Mas, ao mesmo tempo, também foi distópico para caralho. Porque eu falava com a galera, eles colocavam as mãos para fora do carro e parecia que tava todo mundo pedindo ajuda. Mas sei lá, sentar a mão na buzina nesse tempo deve ter sido muito maneiro para a galera. Me mandaram mensagem depois falando 'caraca, deu vontade de botar a mão na buzina do começo ao fim do show, mas aí eu não ia ouvir.’ 

Caraca! Que legal. Mas aí, você pensa que o show drive in vai rolar mais vezes? Pensando em um futuro 'normal'. 

Sinceramente? Acho que o normal que a gente estava acostumado, não volta mais. Por causa dessa pancada que esse vírus deu, acho que a gente não volta a ser o que foi antes. As pessoas vão tentar, mas isso vai ser um pouco diferente daqui para frente. Eu acho que essa coisa da live, a pandemia deu acelerada nesse futuro, que a gente ia ter um dia, mas acho que ninguém mais sai disso. As lives chegaram para ficar, vai ser uma constante daqui para frente e é uma grande descoberta para todo mundo que quer se relacionar. 

Eu, por exemplo, descobri que prefiro fazer live para 5 ou 10 mil pessoas que tão ali interessadas em colaborar, no sentido de comunidade, de conseguir falar com todo mundo, de fazer doação e as pessoas apoiarem projeto. 

Acho que esse lugar é muito mais interessante do que você ir em um programa em uma rede de televisão, que atinge milhões de pessoas, e não ganha nada. Você só alimenta esse circulo de empresas patrocinando programas, então sei lá, eu acho que é um lugar mais democrático esse futuro, as pessoas se ajudam. É um mundo diferente, a gente tá caminhando para isso. Na verdade, fomos empurrados para isso. 

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