Aos 70, Guinga reflete como o importante da vida não é grana ou fama - é ser fiel a si mesmo [ENTREVISTA]

Centro Cultural Banco do Brasil retoma série musical Guinga e as Vozes Femininas, em homenagem ao aniversário do músico, com agenda de lives

Larissa Catharine Oliveira | @whosanniecarol Publicado em 11/10/2020, às 15h00

None
Guinga se apresenta no CCBB do Rio de Janeiro (Foto: Renato Mangolin)

O cantor, compositor e violonista Guinga completou 70 anos em junho. Nome pouco conhecido do público, mas reconhecido pela crítica e pares da MPB, o carioca é o tema de uma nova série musical realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. A programação de Guinga e as Vozes Femininas, inicialmente idealizada para ocorrer presencialmente no CCBB, entre março e maio, foi interrompida pela pandemia e retornou virtualmente com a homenagem ao repertório do grande Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar. 

Humilde e bem humorado, o artista conversou com a Rolling Stone Brasil sobre o projeto, que teve início na última quinta, 8, e segue com agenda no formato online até 12 de novembro. Guinga participa de todas as transmissões, cada uma com diferentes repertórios da obra do homenageado, com participação de cantoras e músicos convidados. 

+++ LEIA MAIS: Jair Rodrigues: relembre a trajetória do dono do sorriso mais contagiante da MPB

Dois shows foram realizados no teatro do CCBB, no fim de março, e estão disponíveis na íntegra no canal do Centro Cultural. Apesar de sentir falta dos shows convencionais, Guinga está satisfeito por tocar no período de isolamento, e reconhece a potência das apresentações virtuais como um formato promissor. “A vantagem das lives é atingir um público muito maior”, comenta. “É uma nova forma de comunicação do artista que deve continuar e prosseguir de alguma maneira futuramente”. 

Guinga é um gênio, compositor e violonista excepcional, e dono de uma voz singular. A identificação de Guinga com as vozes femininas é algo que lhe é bastante característico e que vem de há muito tempo: ele aprendeu a tocar violão acompanhando o canto da mãe, e desde os anos 70, tocou primeiro com Clara Nunes e Elis Regina e, depois, com Elza Soares, Nana Caymmi, Alaíde Costa, Zezé Gonzaga, Miúcha, Maria João, Leila Pinheiro e Mônica Salmaso, por exemplo”, elogia a artista visual e cineasta Fernanda Vogas, idealizadora do projeto, em nota.

+++ LEIA MAIS: Qual o futuro das lives?

Além das parcerias mais antigas, como Leila Pinheiro, colaboradora do músico desde 1980 e intérprete de “Catavento e Girassol”, primeira artista a gravar um álbum completo com composições do violonista e Aldir Blanc; e Ana Carolina, com quem gravou “Leveza de Valsa” para a trilha sonora do filme Meu País (2010), as performances contam também com as cantoras Luísa Lacerda, Bruna Moraes, Anna Paes, Simone Guimarães, Cíntia Graton e Ilessi. “O que mais gostei é que esse projeto dá oportunidade para cantoras que não são tão conhecidas. Não por minha causa, pelo amor de Deus, não estou me elogiando, mas tem a Leila e Ana Carolina, e isso ajuda a chegar em mais pessoas”, continuou.

Apesar de reconhecer e aprovar essas vantagens do novo formato, o músico critica a falta de reconhecimento e remuneração da arte como um trabalho como qualquer outro. “Está muito errado o artista fazer live toda hora grátis, isso se volta contra o artista. Principalmente contra o artista que tem maior dificuldade de se colocar na mídia, e precisa se submeter para mostrar que existe”, pondera. “Existe artisticamente, sim, mas também enquanto ser humano. Tem que pagar as contas. É complicado colocar assim, mas até a pessoa que se prostitui, coloca o amor naquilo que faz e merece receber por isso. O artista não precisa se prostituir, cada um dá o que tem pra dar e merece ser valorizado por isso”. 

+++ LEIA MAIS: Quais são os novos desafios dos artistas independentes para sobreviver de música durante a pandemia?

De origem pobre, Guinga começou a tocar violão aos 11 anos de idade e, aos 17, conseguiu classificar a primeira composição no Festival Internacional da Canção Popular, um concurso realizado no ginásio do Maracanazinho, no Rio de Janeiro, entre 1966 e 1972.

Aos 70 anos, ele reflete sobre a trajetória profissional e pessoal com modéstia. “Materialmente, não construí nada, não tenho apartamento próprio, dinheiro em poupança, nada. Das coisas que o dinheiro compra, consigo algumas, do que o dinheiro não compra, tenho todas”, afirma. “Sou pobre, não sou miserável, tenho o mínimo, mas o que eu mais quero é poder trabalhar. Que não me falte saúde e trabalho, quero o bem daqueles que me são importantes e também não desejar mal a ninguém, independente se a pessoa gosta de mim ou não. se a pessoa não gosta de mim, eu também não gosto dela, mas sem desejar que ela se esborrache e se f**a, entende? Isso é um problema dela”.

+++ LEIA MAIS: Dossiê: o Samba de Roda e o Prato-e-Faca

Esses preceitos não são derivados de nenhuma religião, mas Guinga os coloca como um caminho para maior equilíbrio. “Acredito nos espíritos, que Deus é o bem, ancestralidade, espiritualidade”, explica. “Um dia entrei numa igreja - e não me importo se é católica, evangélica, centro espírita, budista, isso não importa -, e estava escrito que ‘Quando morremos, deixamos tudo que temos e levamos tudo que somos’. É isso. Quero que minha música continue”.

As dificuldades financeiras da família na infância, porém, são entendidas por ele com positividade. “Você aprende muito mais nos revezes. A vitória não ensina p**ra nenhuma pra ninguém, a vitória é pra ter e esquecer, ter e esquecer”, analisa. “Não tenho nada contra [quem acumula bens], Sérgio Moreira, grande amigo meu, é rico e eu sou pobre, mas a classe social nunca foi impedimento para nossa amizade”. Guinga só reclama dos famosos pedantes e “babacas” com os quais teve o azar de cruzar. 

+++ LEIA MAIS: Como funciona a ajuda emergencial ao setor cultural? Lei Aldir Blanc terá R$ 3 bilhões para trabalhadores da cultura

Essa honestidade, com os outros e consigo, é o maior conselho que daria a si caso pudesse voltar no tempo. Considera a fama uma mera consequência, a prioridade deve ser manter lealdade aos próprios sonhos e “aquilo que gosta de fazer”. “Vivemos em um sistema que te engole, te digere e, depois que não precisa mais, te caga”, resume ao falar contra a engrenagem cruel da indústria do entretenimento. 

Guinga também critica os aspectos da política brasileira, apesar de não se enquadrar alinhado a uma ideologia exata. “Não sou de direita, nem de esquerda. Sou do meu pai e da minha mãe”, brinca. “Se você tiver uma dívida no banco, eles tiram sua casa. e sabe por quê? No Brasil, não teve nenhum governo que deixou de beneficiar os banqueiros, os poderosos, continua tudo igual. Não entendo como a pessoa defende um presidente como se fosse um político de estimação”. 

Sem dar mais informações, Guinga garante novidades em breve - e não deve parar tão cedo. “Toda vez que subo no palco, é como se fosse a primeira vez. É um sentimento! Parece que tenho 17 anos novamente e me apresentava pela primeira vez”, conclui. 


AGENDA DE LIVES
Dia 8 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Leila Pinheiro e Marcus Tardelli

Dia 15 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Cíntia Graton e Marcus Tardelli

Dia 22 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Simone Guimarães e Jean Charnaux

Dia 25 de outubro (domingo), às 20h
Guinga recebe Anna Paes e Pedro Paes

Dia 29 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Bruna Moraes e Jean Charnaux

Dia 1 de novembro (domingo), às 20h
Guinga recebe Ana Carolina e Jean Charnaux

Dia 5 de novembro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Ilessi e Jean Charnaux

Dia 8 de novembro (domingo), às 20h
Guinga recebe Luísa Lacerda e Zé Nogueira

Dia 12 de novembro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Leila Pinheiro e Marcus Tardelli

CICLO DE PALESTRAS - POR ANNA PAES
Aos sábados, às 20h
Dia 24 de outubro: Guinga e Paulo César Pinheiro
Dia 31 de outubro: Guinga, memória, história e identidade
Dia 7 de novembro: Viva Aldir! A parceria entre Guinga e Aldir Blanc

MASTERCLASS - COM GUINGA

Dia 10 de outubro (sábado), às 20h, com a temática “A influência de Villa-Lobos e Tom Jobim na obra do compositor”.


+++ TERNO REI: ‘ANTES DE LANÇAR, VOCÊ NUNCA SABE SE É BOM OU RUIM’ | ROLLING STONE