Dossiê: o Samba de Roda e o Prato-e-Faca

A popularização e tradições do samba de roda, a origem do prato-e-faca, e a importância de Dona Edith do Prato e Dona Dalva Damiana para o samba do Recôncavo da Bahia explicadas por J. Velloso, Marcos Santos, Carlos Sandroni, Rosildo Rosário e Any Manuela

Redação Publicado em 18/08/2020, às 18h00

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Sambadeira Dona Aurinda, de Mar Grande, município de Vera Cruz, Ilha de Itaparica (Foto: Luiz Santos/Acervo do IPHAN)

Ainda criança, ele ia às festas que não eram necessariamente programadas. J. Velloso, produtor, cantor e compositor se recorda daquela farra que vivia na infância em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. "Não precisava contratar um grupo de samba. Os próprios santo-amarenses já eram sambistas por natureza. Um cantava, outro respondia e ia aumentando. Aí, aparecia alguém e começava a bater palmas."

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Pequenino, Velloso via aquilo com aqueles os olhos maravilhados de quem ainda tem muita vida para viver, mas testemunhava uma tradição fundamentada na cultura africana trazida ao Brasil e influente em diferentes musicalidades brasileiras, de canto a canto do País. 

Uma voz, duas vozes, um coro de samba. Palmas se juntavam a tacos de madeira soltos de casa para dar ritmo. "Assim, ficava mais alto", conta Velloso. "Logo, aparecia alguém tocando prato, e isso era muito frequente. E, quando isso acontecia, a festa não tinha hora para acabar.” 

Era o samba de roda que Velloso via, participava, cantava e dançava. A tradição de "se juntar para cantar, dançar e tocar junto ao som de certos ritmos e instrumentos", como define Carlos Sandroni, o professor de Etnomusicologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em entrevista à Rolling Stone Brasil

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Coordenador, a convite do Ministério da Cultura, da pesquisa para candidatura do samba de roda do Recôncavo ao título de patrimônio cultural brasileiro, e à Declaração das Obras Primas do Patrimônio Imaterial da Humanidade, da UNESCO, Sandroni segue: "O repertório de cantigas tradicionais é muito rico, e cresce com a criação de novos sambas dentro dos estilos tradicionais da chula, do corrido, etc. As maneiras de dançar, das quais a mais conhecida tem o passo chamado de 'miudinho', são maravilhosas."

Rosildo Rosário, um dos sambadores mais importantes atualmente no Recôncavo, vai além na definição do samba de roda: “Me arriscaria a dizer que não haveria música baiana se não existisse o samba de roda do Recôncavo". Para ele, esse "samba constituído no campo semântico possibilita a utilização e interpretação em qualquer recorte temporal. O samba se completa com outras manifestações e reorienta para outros campos da música. Foi construída uma identidade musical no Brasil em torno do samba". 

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Foto: Luiz Santos/Acervo IPHAN

Para se fazer uma roda de samba, diz Rosário, basta uma reunião de pessoas. "As mãos podem ser os instrumentos, porque do simples ato de bater palmas já é possível fazer a sonoridade necessária. O som que se encaixa perfeitamente com todos os outros sons da roda pode ser extraído também de um prato e uma faca nas mãos certas. A primeira utilização do prato-e-faca pode até ter sido improviso, mas transformou-se em elemento fundamental, tocado preferencialmente por mulheres”, conta.  

Os primeiros registros do samba de roda 

Para iniciar essa jornada de entender o samba de roda e toda a fundamental cultura musical iniciada no Recôncavo Baiano, é preciso voltar no tempo e bucar a origem. Como conta Sandroni, não se sabe ao certo quando o samba de roda surgiu, mas as primeiras referências datam de 1860 e 1870. 

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"As primeiras referências a ‘samba’ na Bahia e no Recôncavo, datam de meados do século XIX", conta. "Portanto, o samba de roda surge no contexto da escravidão e em uma economia de exploração de terras e pessoas, com monocultura, primeiro de cana-de-açúcar, e em seguida, de tabaco. Por volta dos anos de 1860 e 1870 já se encontram muitas menções a esta prática no Recôncavo e em Salvador", conta o pesquisador.

O contexto histórico, social e político do Brasil da época é fundamental para entender o que representou o surgimento samba de roda e a prática do prato-e-faca, manter a memória viva e a prática, também. 

Doutorando em etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador das musicalidades e culturas africanas e afrodiaspóricas, Marcos Santos traça a raiz do samba de roda: "Enquanto acontecimento, [a roda] é um princípio que fundamenta muitas das tradições do continente africano bem como tradições dos povos originários do Brasil. Ela organiza a partilha de experiências musicais nos diversos lugares e contextos do nosso território, a exemplo dos candomblés, os sambas de coco, os jongos, tambor de crioula, as cirandas, os batuques de umbigada do sudeste e os sambas de roda". 

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Santos explica como as construções sonoras estéticas e rítmicas do samba de roda se originaram de uma matriz angolana. "Muito dessa criação tem como fundamento a Kabila. A Kabila, ou Kabula, é um dos principais toques da nação de Candomblé Angola. A sua estrutura em si encaminha construções sonoras e musicais cuja recepção reflete as bases fundantes do que hoje compreendemos como os sambas - em sua diversidade."

"A raiz vem da África", acrescenta J. Velloso, "que por questões históricas veio parar aqui no Brasil, e oferece tanta riqueza cultural para nós. Santos acrescenta: “Estamos falando de populações que compartilhavam modos de vida, cosmologias, praticas de crença, etc. Penso que as culturas dos povos Bantu, falantes da África Central, exerceram um papel fundamental nesse processo."

Religião e ofício no samba de roda

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Grupo Suerdieck. (Foto: Francisca Marques/LEAA Recôncavo)

Portanto, não há um "marco zero", como conta o pesquisador das musicalidades e culturas africanas e afrodiaspóricas. Santos, contudo, enxerga a existência de um "cruzamento de processos identitários, religiosos e econômicos que, no caso dos sambas de roda do Recôncavo, teve o espaço rural do roçado, do plantio e colheita de cana, fumo, feijão, mandioca, etc., como lugar de fricção, integração e ressignificação destes processos. Pode parecer redundância, mas não há samba de roda sem roda, porque tudo parte dela.” 

Sandroni traz o nome de Dona Dalva Damiana, da cidade de Cachoreira, como líder de um dos grupos de samba mais famosos até hoje, o Samba de Roda Suerdieck, para mostrar a proximidade do samba de roda com o cruzamento de processos identitários, religiosos e econômicos da região do Recôncavo. "[Ela] era funcionária da fábrica de charutos Suerdieck, naquela cidade, e criou o grupo com suas companheiras de trabalho."

A Rolling Stone Brasil, então, entrou em contato com Any Manuela, neta da líder Dona Dalva Damiania, também sambadeira e integrante do Grupo de Samba de Roda Suerdieck. "É uma manifestação muito representativa", conta Any que segue, ao traçar essa linha que costura as atividades profissionais ao samba de roda, "se pensamos no samba de roda e em todos os elementos que estão nessa manifestação, encontramos várias referências de trabalhos do interior do Estado da Bahia. Você vai encontrar o samba de que é constituído por várias charuteiras, samba de roda constituído por pescadores, por marisqueiras, por ceramistas, por trabalhadores do campo e assim sucessivamente.”

Any Manuela também faz a conexão do samba de roda com as religiões. "Guarda uma memória muito peculiar por conta dos aspectos da religiosidade. Temos, por exemplo, um samba de roda de São Cosme e São Damião, samba de roda para Santa Bárbara, para Santo Antônio, e outros, que são celebrações católicas e fazem parte das devoções religiosas de Santos Católicos. Além disso, também tem o samba de roda com a referência muito forte no caboclo, e com referência muito forte no terreiro de Candomblé.”

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Figura importante dos sambadores do Recôncavo, Rosildo Rosário é do município de Saubara, também do território do Recôncavo Baiano, conta a origem familiar para resgatar a raiz da musicalidade própria. 

"Tive a imensa honra de ter nascido de duas famílias zeladoras das manifestações tradicionais do Recôncavo, minha família paterna envolvida mais intensamente com a Marujada, reisados e ranchos, e minha família materna mais fortemente ligada ao samba de roda. E é nesse ambiente que cresço, onde a música produzida e reproduzida é deste universo", diz Rosário

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Roda de Samba em Saubara (Foto: Reprodução The Spirit of Samba)

Ele reforça a ancestralidade da cultura do samba de roda: "É a herança ancestral dos povos que viveram a diáspora africana, e foram escravizados nos engenhos de açúcar do Recôncavo, e mesmo com seus corpos castigados do trabalho forçado, ainda assim encontravam momentos para um batuque. Meus bisavós foram desse tempo, ouvi muitas histórias de minha avó Hygina Maria de Santana [também chamada de Sinhá], de como seus pais viveram nesse período. A música chega até a mim através das rodas de samba realizadas por estas pessoas em suas devoções e suas festas.". 


Como surge o termo samba de roda? 

A partir da questão acima, o pesquisador Carlos Sandroni explica que o título de "samba de roda" era chamado de "samba" e nota: "No Recôncavo e em outros lugares do interior da Bahia, porque este samba tradicional é encontrado também em outros pontos do estado e não só no Recôncavo, ainda se fala em ‘samba’, e não 'samba de roda'".  

Ele explica a transformação na titulação dada à tradição do samba: "O que acontece é que o samba baiano tradicional foi levado para o Rio de Janeiro por emigrados baianos, e lá na capital do país passou por um processo de transformação que levou ao surgimento do samba carioca. Este, nos anos 1930, através do rádio, do disco e do carnaval, se transformou no ‘samba brasileiro’, isto é, no samba como gênero mais reconhecido de uma 'brasilidade musical'".

Sandroni recorda, contudo, que o samba tradicional baiano seguiu cultivado, mesmo fora do que ele chama de "contexto fonográfico" criado no sudeste. "Quando pesquisadores como Edison Carneiro escreveram sobre este samba tradicional baiano, chamaram-no de ‘samba de roda’ para não confundir com o samba carioca/nacional/radiofônico que estava no auge”, explica."O termo pegou, mas no Recôncavo até hoje, o mais usual é, quando se fala em termos genéricos, se referir ao 'samba', e não ao 'samba de roda'."


Um guarda-chuva gigante chamado samba de roda

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Foto: Luiz Santos/Acervo IPHAN

Samba chula, corrido, de viola, de parada. Tradições distintas, ritmos, instrumentos (como o prato-e-faca tocado por Moreno Veloso na turnê Ofertório, ao lado dos irmãos e do pai Caetano Veloso, novamente colocado em evidência durante a live deCaetano no dia 7 de agosto), danças, estéticas, sonoridades. Diversidade. Como diz o doutorando em etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) Marcos Santos, "no contexto da Bahia, há uma diversidade dentro desse guarda-chuva samba de roda". Cada uma das modalidades possui "variações minuciosas entre uma e outra", diz Santos, e provoca divertidamente: "Essas minúcias, é melhor que sejam percebidas no seu fazer; dançando na roda."

Rosildo Rosário, sambador de primeira do Recôncavo, também elenca entre as variedades do samba da região, além dos citados samba corrido, de viola, chula e de parada. Na sua cabeça também vêm o samba amarrado, de estiva, martelo e de estiva. "Usados em comunidades diferentes, algumas dessas nomenclaturas servem para designar a mesma forma de sambar. Todos esses estilos são praticados nos dias atuais graças a persistência e resistência das comunidades da Bahia."

No centro dessa pluralidade de sambas, a tradição também gravita em torno da existência de alguém para puxar o canto e daquele que responde. "Isso é uma tradição também de toda a formação musical que veio da África", como conta J. Velloso, ao citar a capoeira e o Candomblé. "A capoeira é a mesma coisa. O mestre canta, seus discípulos respondem. No Candomblé, de alguma forma, é semelhante. E no samba de roda não é diferente.”

A tradição e o respeito, como conta a sambadeira Any Manuela, fazem parte da estrutura do samba. "Além de tudo o que o samba de roda representa na música, ele também é um grande gerador de educação. No samba, é preciso ter consciência da hierarquia que tem nele, respeitar, pedir a bênção e valorizar o mestre ou a mestra no samba de roda. É preciso valorizar as pessoas mais velhas e tem todo um processo de educação patrimonial."

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Da Bahia para o Brasil 

Para entender os fluxos migratórios e como a cultura tradicional se move pelo País, e especificamente no caso do samba de roda, é importante lembrar que Salvador foi a capital do Brasil 1549 a 1763. Naquele ano, a capital foi mudou para o Rio de Janeiro. Esse movimento abriu uma via de migração entre a antiga e a nova capital. A cultura, é claro, também foi junto. 

O pesquisador das musicalidades e culturas africadas e afrodiaspóricas, Marcos Santos explica como o trânsito levou o samba da região do Recôncavo Baiano a chegar ao Rio de Janeiro. "A historiografia nos traz possibilidades de pensarmos nesse trânsito de Bahia e Rio de Janeiro, sobretudo no século 19", conta. "Como lugar de experiência compartilhada segundo um modelo de se compreender o samba 'mais próximo' do que entendemos hoje", ele diz. 

Outro recorte histórico trazido por Santos para entender a viagem que o samba de roda fez passa também pela Abolição da Escravatura no Brasil, em 13 de maio de 1888, cerca de duas décadas depois dos primeiros registros da existência do samba do Recôncavo. "A migração que houve no pré e pós-abolição de mães e pai de santo da Bahia para o Rio de Janeiro, de fato, possibilitou essa troca, no que tange às modalidades produzidas na Bahia. Entretanto, é preciso considerar que os fenômenos culturais eles são dinâmicos e se reificam conforme cada contexto tempo/espaço.”  

É importante lembrar, contudo, que a Kabila/Kabula já era encontrada no Rio de Janeiro do século 18, de modo que já existiam na cidade outras formas de se fazer samba, antes mesmo da mudança de capital e da chegada do samba de roda, cujo registro só ocorreu no século seguinte. 

A partir da virada do século 20, como conta o professor Calos Sandroni, o movimento migratório da Bahia para o Rio de Janeiro em busca de condições melhores de vida trouxe o samba também na bagagem. "A história do samba carioca mostra a grande importância de mulheres baianas que se mudaram para a então capital, e lá recriaram a cultura tradicional baiana em casa, influenciando decisivamente na criação de uma nova cultura carioca e nacional”, afirma o professor da UFPE. 

Segundo o pesquisador Marcos Santos, nenhum movimento é rígido e, sim, fluído. "O que chegou da Bahia no Rio de Janeiro ou em Pernambuco não necessariamente permaneceu de modo intacto ao longo do tempo, porque tudo se dá de modo relacional, como nos diz Édouard Glissant", explica. 

Ele segue: "Portanto, a roda, não estava apenas na Bahia, mas sim em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, porque em todos esses lugares as cosmologias Bantu-Kongo-Angola se fizeram presentes". 

"Certamente, influencia a musicalidade brasileira", diz o sambador Rosildo Rosário, "haja vista a representatividade negra desse estilo de música, a enorme possibilidade de criação de outras células musicais e a facilidade da incorporação dos instrumentos utilizados nos sambas em outros estilos."

Reconhecer o samba de roda como matriz é importante, como diz a sambadeira Any Manuela, é dar valor à "manifestação cultural realizada por pessoas negras, por pessoas de cidades do interior do Estado da Bahia". "É uma forma de propagar e de difundir uma peculiaridade que se existe no Brasil. Um ritmo com uma forte expressão e uma forte presença, mesmo não sendo um ritmo, por exemplo, que está nos meios de comunicação de massa."

A origem do prato-e-faca e a ressignificação das práticas culturais 

Moreno Veloso, ao tocar prato-e-faca durante a live de Caetano Veloso, repetindo o que havia feito durante a turnê Ofertório, com a qual Caetano e os filhos Moreno, Zeca e Tom circularam o País, trazia para a tela da plataforma de streaming Globoplay um dos símbolos do samba de roda e, principalmente, uma bagagem histórica da construção da identidade do Brasil contemporâneo.  

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Dona Edith Oliveira, também conhecida como Dona Edith do Prato, abriu o disco Araçá Azul, de Caetano Veloso, com a música "Viola Meu Bem". Era o primeiro álbum de Caetano pós-exílio. Havia uma força poderosa no canto de Dona Edith que trazia a reafirmação da cultura brasileira de raiz justamente na abertura do disco que veio depois de Transa, gravado em Londres.

Ela é um dos nomes mais lembrados dessa cultura secular por conta dessa e outras participações, como com Maria Bethânia, além do disco Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação, lançado em 2002. Citada como influência por artistas como Caetano, Gilberto Gile Mariene de Castro, Dona Edith participou da expansão da cultura do samba de roda e da prática do prato-e-faca. 

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Foto: Luiz Santos/Acervo IPHAN

A origem dessa tradição vem de ressignificação cultural, como explica Marcos Santos, pesquisador e doutorando em etnomusicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). "Como bem sabemos, não foi permitido à pessoa africana escravizada trazer instrumentos musicais em sua travessia, entretanto, foram trazidos em seus corpos referenciais sonoros identitários."

O prato-e-faca surge dentro desse contexto, ele conta. "Atrela-se ao lugar da ressignificação de uma pretensa carência de um instrumental originário em um novo e estabelecido referencial sonoro - prática própria da diáspora -, e pela localização geográfica interna de uma casa em período colonial, onde as mulheres passavam maior parte do tempo e tinham permanente acesso a esses utensílios: ou seja, na cozinha."

Ao ser popularizado e usado até hoje, o prato-e-faca representa a "esfera ressignificatória das práticas culturais", como avalia Santos

O sambador Rosildo Rosário observa a importância de se manter a cultura ativa. "Manter ainda hoje o prato-e-faca como componente do samba de roda, além de muitos outros significados, demonstra como esses grupos se apropriam de diversos elementos, os compreendem, os ressignificam, dando-lhes status de símbolos de representação. Por esse motivo, talvez, sejam de extrema importância considerar os saberes e fazeres das comunidades tradicionais”, afirma. 

Coordenador da pesquisa para a candidatura do samba de roda do Recôncavo ao título de patrimônio cultural brasileiro, Carlos Sandroni também acrescenta como o uso desses instrumentos musicais também está ligado à situação econômica "onde não se dispõe de tantos instrumentos fabricados para serem musicais, e então se recorre ao que está à mão", ele diz, e explica: "Mas esse 'recurso ao que está à mão' não é indiscriminado, ele é seletivo e acaba se cristalizando numa tradição plenamente musical, e dá origem a formas musicais maravilhosas."

O prato-e-faca inicia o samba caseiro, o samba dentro de casa, o samba nas casas, como conta a sambadeira Any Manuela. "No samba de roda feito nas casas, esses instrumentos eram muito comuns. Como as pessoas estavam celebrando e festejando, eram instrumentos que faziam parte do nosso cotidiano", ela conta. 

Manuela esmiúça a tradição: “Primeiro tinha a devoção de Santo, e após, vinha a comemoração e a celebração com samba de roda com esses instrumentos. Ele se popularizou, porque o samba de roda é muito presente para nós." 

Dona Edith do Prato e a popularização do samba de roda 

Nascida em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1916, Edith Oliveira Nogueira tinha uma voz "muito especial", como relembra J. Velloso, "sobressaía acima das outras. Ela se tornou uma referência como matriz do samba de roda, onde o samba de roda é matriz do samba brasileiro". 

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Capa disco Dona Edith do Prato. (Foto: Reprodução)

Foi em parceria com J. Velloso, compositor, cantor, produtor musical, diretor artístico e agitador cultural, nascido no Recôncavo, que a artista gravou o álbum Vozes da Purificação, com a participação de Caetano Veloso e oito cantoras de Santo Amaro, em 2002. 

"O prato de Edith era uma coisa fora do comum. Não só o ritmo e a força, mas o som do prato saia alto, não saia baixinho. No meio de 50, 60 pessoas cantando, você conseguia ouvir o prato de Edith acima de todos os outros sons", derrete-se o produtor.

Vozes da Purificação levou o Prêmio Tim de Música, em 2004, na categoria de música regional. "Já havia, apesar de tudo, um certo reconhecimento nacional em um contexto 'midiático' da tradição do prato-e-faca", como contextualiza Carlos Sandroni, professor de Etnomusicologia na UFPE. 

Velloso explica que a ideia do álbum começou em uma missa na Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, em Salvador. "Fiquei impressionado com essa missa", recorda. "Tinha atabaques no altar, e todos os cânticos eram tocados nos ritmos de origem africana, samba de roda, ijexá e muitos outros. Não fiquei encantado só com as músicas, mas com aquele povo todo. Era uma missa sem aquela tristeza das missas católicas, porque tinha a alegria das festas de candomblé. Ao assistir à missa, fiquei maravilhado, e pensei: 'Vamos gravar esse disco'.". 

Ele continua: “Convidei Edith para participar o disco, mas como todo samba de roda precisa de quem puxa o canto e quem responde, reuni e chamei outras senhoras para gravar nessa faixa com ela. A gravação precisava ser muito rápida, porque foi toda gravada dentro da igreja. Acompanhada das senhoras, Edith gravou de primeira. Acredito que em duas vezes ficou bom, porque não precisa de ensaio, é o dia-a-dia da gente.” 

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J. Velloso e Dona Edith do Prato (Foto: Reprodução)

“A ideia de fazer o disco de Edith partiu da facilidade que foi de gravá-la com essas senhoras, que depois chamei de Vozes da Purificação em homenagem à padroeira de Santo Amaro, Nossa Senhora da Purificação. E, outra ideia minha muito forte e que eu não queria fazer um disco para pesquisador”, conclui.

Velloso também relembra três elementos precisavam ser valorizados na mixagem do álbum. Primeiro, a voz da cantora “para valorizar os sambas de domínio público”. Em um segundo plano, o prato “como marca da referência de autenticidade do samba de roda”. Por fim, a “viola e o violeiro de chula”. 

Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação é “para quem quer fazer uma festa de samba de roda do Recôncavo. Você liga o disco de Edith, você ouve, samba, bebe, brinca, e namora ouvindo aquele disco. A ideia é essa. É para quem gosta de música, para quem gosta de festa. É um disco simples, é um disco de música popular brasileira”, afirma J. Velloso.

Para o professor Carlos Sandroni, "a grande importância de Dona Edith é de ajudar a tornar o samba de roda mais conhecido fora do Recôncavo", ele explica. "Para quem não conhece, o uso musical do prato-e-faca pode despertar curiosidade ou mesmo estranheza. A percussionista ajudou a diminuir esta estranheza, tornando-o mais conhecido. Embora isso seja mais raro que no Recôncavo, também é bom lembrar que no Rio de Janeiro, no meio do samba, também tem quem toca prato-e-faca. E João da Baiana, um grande nome do samba carioca mais antigo era conhecido também por tocar prato-e-faca”, completa.

O pesquisador Marcos Santos reflete sobre a importância de Dona Edith do Prato para o samba de roda: "É uma figura importante, mas não foi a única. Por ser mulher negra, dona de si, artista, mais velha e detentora de saberes ancestrais, ela já exerce por si só uma importância que visibilidade midiática alguma poderia se sobrepor". 

Ouça Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação:


Dona Dalva Damiana, a voz e a percussão importante do Recôncavo

Dona Dalva Damiana, 92, é cantora, compositora, e percussionista, nascida em Cachoeira, na Bahia. Atualmente, é integrante da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, e idealizadora de manifestações culturais como Terno de Reis, Terno do Acarajé, e outros. 

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Foto: Camilla Souza/Casa do Samba de Roda de D. Dalva

Além disso, é líder do Grupo de Samba de Roda Suerdieck, fundado em 1958 quando ela era uma operária charuteira. Dona Dalva  também mantém a Casa do Samba de Roda, que “é um espaço alugado, mas que a gente desenvolve projetos”, como explica Any.

A percussionista foi proponente do registro do samba de roda do Recôncavo, representando a Associação Cultural do Samba "Dalva Damiana de Freitas", em parceria com a Associação de Pesquisa e Cultura Popular e Música Tradicional do Recôncavo da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), e com a Associação Cultural Filhos de Nagô.

O grupo de samba fundado pela percussionista e cantora teve um papel importantíssimo para que o samba de roda do Recôncavo da Bahia fosse registrado pelo IPHAN como Patrimônio Imaterial Nacional, e reconhecido pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade. 

“Minha avó me influencia diretamente, eu cresci escutando ela falar que samba de roda tinha que ter mulher. Samba de roda tinha que ter baiana, tinha que ter mulher. E isso é uma defesa, inclusive de gênero nessa manifestação. A referência dela é muito forte desde sempre. Acompanha-la com o grupo, para mim, foi muito importante e ver todo o esforço, e todo o empenho para manter esse tipo de samba”, conta a neta de Dona Dalva e também sambadeira Any Manuela.

A manutenção da tradição do samba de roda

O produtor J. Velloso reflete sobre como o samba de roda existe e se mantém atualmente. "É com muita dificuldade, porque precisa de muito apoio institucional para não ser engolida com o poder do que é comercialmente viável e interessante no momento. Existem pessoas com dedicação quase religiosa, senão religiosa, porque o samba é religião nesse caso, e que lutam e mantém vivo grupos de samba no Recôncavo. Tem Dona Dalva de Cachoeira. Tem o samba de São Brás. E muitos outros.”

Para Any Manuela, manter vivo o samba é "uma forma de salvaguarda que precisamos participar e difundir essa música brasileira, mas lutamos diariamente, principalmente com outras manifestações com grandes estruturas e repercussão na mídia. Que o samba de roda esteja presente em muitos eventos, seminários, festivais nacionais e internacionais, com todo mérito, com toda honra, e tudo que é digno dessa manifestação cujo tem uma referência que vem sendo transmitida por gerações". 

Assista ao documentário The Spirit of Samba, filmado na cidade de Saubara no início dos anos 1980. Nele está a avó Sinhá (de vestido azul) de Rosildo Rosário.


Nota do editor: A Rolling Stone Brasil reconhece e lamenta profundamente o erro cometido ao se referir ao prato-e-faca na live de Caetano Veloso, que aconteceu no dia 7 de agosto, em comemoração dos 78 anos do músico.

O texto acima é mais do que um pedido de desculpas, é parte do nosso compromisso permanente com a música brasileira, das formas mais tradicionais aos formatos mais contemporâneos e experimentais. 

Esse é um texto diferente daqueles que publicamos, com mais espaço e lugar de fala para os entrevistados. Agradecemos também a J. Velloso, Marcos Santos, Carlos Sandroni, Rosildo Rosário e Any Manuela pela atenção durante a produção desta reportagem.


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