Como raiva e frustração transformaram Brvnks na heroína do indie de guitarra do Brasil

Bruna Guimarães veio para São Paulo em 2017, não pensa em viver exclusivamente de música e lançou um dos grandes discos do ano, Morri de Raiva, por uma gravadora multinacional

Pedro Antunes Publicado em 05/06/2019, às 08h44

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Brvnks (Foto: Rodrigo Gianesi / Divulgação)

No horário almoço de mais um dia normal de trabalho, Bruna Guimarães comeu o que trouxe de casa, em uma marmitinha. "Era karê", ela conta, sobre o prato do dia, após terminá-lo. "Eu mesma que fiz."

Era quinta-feira. Papo marcado para ocorrer entre 12h e 13h, quando Bruna deixaria o posto diário de especialista de globalização de uma empresa de tecnologia sediada em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, para voltar a ser Brvnks, a artista/banda/projeto (tudo centralizado em uma figura só), cujo disco seria lançado no dia seguinte, sexta, 31 de maio.

Há tempos se fala de um álbum de estreia de Brvnks, o projeto com o qual Bruna ganhou projeção nacional com o EP Lanches, lançado três anos atrás. Pouco depois depois, ela deixou Goiânia, cidade onde a nascida no município de Trindade foi criada, e mudou-se para São Paulo.

Na últimas sexta-feira de maio, dia 31, Brvnks lançou Morri de Raiva, um álbum de 10 faixas, produzido por Edimar Filho, nome que também aparece na ficha técnica do disco em outras funções, como guitarrista (ao lado de Brvnks e Ian Alves), baixista (com Chrisley Hernan), tecladista (novamente com Ian Alves) e baterista.

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O disco saiu pela gravadora multinacional Sony Music, o que por si só é um feito e tanto para Brvnks e para todo o universo da música indie de guitarra nacional, já que o espaço para esse tipo de som no catálogo das majors costuma ser pequeno - quando muito, as grandes gravadoras preferem abrir selos menores para focar nesse tipo de som.

"Foram eles [a gravadora] que vieram até a gente. Quando eu vi o e-mail, pensei que não era possível", conta Brvnks. A proposta era para o lançamento de um EP, mas Bruna já tinha quase todo o disco pronto.

Faltava o material passar pelo processo de masterização e mixagem, o que é "doloroso", como ela resume, "eu sou um enjoo, porque é a minha cara, meu nome, a música que eu fiz sozinha e fico naquele processo doloroso de mudar muita coisa." No fim das contas, a gravadora topou colocar o álbum todo na rua.

Um disco sobre existir - e passar raiva 

Morri de Raiva celebra uma trajetória interessante de Bruna e seu alter-ego musical Brvnks criado a partir de canções compostas desde os 17 anos de idade.

Seis anos depois, aos 23, ela acumula apresentações em festivais independentes importantes,como o Bananada (GO) e o Dosol (RN), os midstream, caso do sempre delicioso Popload Festival, e gigantes, tal qual o Lollapalooza Brasil (neste ano de 2019). Também fez o show de abertura para artistas como Basement e Courtney Barnett.

Imersa na rotina do trabalho diário e de Brvnks, Bruna até se perde no tempo para lembrar quando Morri de Raiva começou a ser feito. No dia seguinte à entrevista, ela envia uma mensagem para lembrar que em junho de 2017 as primeiras partes do álbum começaram a ser gravadas. E era seu aniversário.

"Ou seja", ela escreveu, "mais tempo do que eu imaginei." Como não havia gravadora e sem suporte financeiro, Morri de Raiva foi criado aos pouquinhos, quando dava, no estúdio de um amigo, em troca de shows ou o que fosse.

Duas das músicas de Morri de Raiva já estavam no EP, "F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B (Freedom Is Just a Name For What I Want You To Be)" e "Don't", mas conceitualmente o disco é bem diferente do trabalho de três anos atrás.

"Fiz aquelas músicas [de Lanches] quando eu era muito nova. Não tia noção que iria lança-las de alguma forma, se chegaria ao ouvido de alguém", ela relembra. "Era um drama adolescente, sobre quem eu estava apaixonada. Mas não é uma estética que eu gosto, eu não gosto do EP."

Brvnks explica: "Acho que o EP não representa quem eu sou, fiquei frustrada por um tempo e decidi que se estava fazendo isso, era eu precisava dar a minha cara pro negócio".

E nasce Morri de Raiva, que em vez de uma ilustração de um (belo) sanduíche na capa tem Bruna, com os cabelos longos e negros sobre o rosto, em um clique do fotógrafo mais requisitado do indie brasileiro Rodrigo Gianesi.

Brvnks se enxerga nesse novo trabalho. "O disco não tem nada de romântico, de algo assim. É sobre frustração, raiva e outros sentimentos assim", ela diz. "Boa parte do meu disco é sobre raiva. Eu sou uma pessoa muito nervosa, muito estressada, sem paciência e reclamona".

"É um sentimento constante meu", ela anuncia, por fim.

Morri de Raiva também é um disco incrivelmente contemporâneo para uma geração de 20 a 30 anos, comandado pela guitarra derretida no ponto certo, antes de ficar líquida demais, sobre as insatisfações mundanas e reais.

É um trabalho de sentimentos e pensamentos acumulados por quem está, no dia a dia, com fones de ouvido, sobrevivendo à rotina. "I Hate All of You" é um exemplo disso: Brvnks despeja versos que parecem pensamentos que eu mesmo tive na semana passada, ao longo de um dia de ida para o trabalho, rotina do escritório, volta do trabalho.

Morri de Raiva também pode ser considerado um álbum faminto ("quero me banhar de Big Macs", ela canta, em inglês, na música "Snacks"), cansado e estressado. "Every month I pay my meditading app / Trying to be a better person but I know I can't / I swear I'll stress less, I swear I'll sleep more" (em tradução livre: "todo mês, eu pago meu aplicativo de meditação / Tentando ser uma pessoa melhor, mas eu sei que não consigo / Eu prometo que vou me estressar menos, eu prometo que vou dormir mais), diz a música "Tired".

Levante a mão quem não repetiu esse mantra para si algumas vezes durante a passagem até os 30 e poucos anos.

Cada canção parece ser um mergulho nos pensamentos diários de Brvnks, de fato. Ela também fala sobre a sociedade machista e patriarcal ("I am My Own Man") e sobre relacionamentos contemporâneos e desastrosos (como em "Yas Queen" e "Tristinha").

Bruna é uma das mais honestas e improváveis "indie heroes" do Brasil na atualidade. Tem raiva na voz, colocada para fora sempre com letras em inglês, e uma guitarra de distorções delirantes que a colocariam facilmente em listas de "artistas para se estar de olho em 2019" se tivesse nascido no Brooklyn ou Leicester, em vez do Brasil.

Curioso, intrigante (e ainda melhor) é o fato de que talvez ela sequer queira estar nesse posto.

Em uma sessão de perguntas e respostas feita na função de stories do seu Instagram (@brvnks), ela foi questionada sobre a turnê de de Morri de Raiva, por exemplo. Disse que era difícil conciliar os shows com o trabalho durante a semana. Também falavam sobre "viver de música" e ela fez questão de dizer que não é bem assim que as coisas ($$$) funcionam por ali.

"Estou em um momento muito decisivo também", ela explica. "Meu plano sempre foi trabalhar, mesmo que seja em um escritório, pagar minhas contas, me bancar sozinha. A ideia era essa, crescer na empresa e continuar tocando em outras horas."

Recentemente, contudo, ela viu a possibilidade de morar fora do País por um tempo. "Também tenho vontade, mas não sei se vou. Estou muito sem saber o que vou fazer, tenho que ver como o disco vai se sair. Ou se vou para fora, trabalhar de garçonete e fazer turnê por lá. Ou se estudo, vou fazer um curso no exterior... "

Os próximos planos dela não envolvem a música necessariamente, mas passam por isso e, principalmente, pelo o que vai acontecer com Morri de Raiva.

Bruna trabalha das 8h às 17h em Santo Amaro. Mora no bairro de Ipiranga. Gosta de entrar cedo, para chegar em casa cedo, ir para cama antes de ser tarde demais.

Costuma ter ideias para compor músicas quando corre na esteira da academia do prédio, mas também não é sempre que frequenta o espaço. "É quando eu tenho ideia para clipes, para música, tenho muita ideia ali porque não tenho muito mais coisa para prestar atenção", ela explica, "mas também é lá que tenho muita ideia de jerico", ela diz e se diverte.

Ao longo da conversa, Bruna ou Bvnks quebra a expectativa que qualquer um pode criar dela. E isso é ótimo. Embora a guitarra tenha entrado na sua vida cedo, já que aos 11 anos ela sabia tocar violão, como autodidata, com partituras encontradas na internet, não é ele o seu instrumento favorito.

"Eu prefiro tocar bateria", ela diz. "A guitarra eu toco só de vez em quando."


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