Cazuza e Ezequiel Neves, Eternos Exagerados

Como Cazuza e Ezequiel Neves se completaram, aproveitaram a vida intensamente e transformaram a história do rock brasileiro

Guilherme Bryan, em colaboração para a Rolling Stone Brasil* Publicado em 07/07/2020, às 11h00

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Barão Vermelho e Ezequiel Mendes (na foto, Ezequiel, no centro, é abraçado por Cazuza) Crédito: Frederico Mendes / Divulgação / 1984

“Amor da minha vida / Daqui até a eternidade / Nossos destinos / Foram traçados na maternidade”. Esses versos, que abrem a canção “Exagerado”, composta por Ezequiel Neves e Cazuza, juntos com Leoni, representam uma das mais importantes e intensas parcerias de vida do rock brasileiro.

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O cantor, compositor e poeta Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de abril de 1958, e morreu em decorrência do HIV, vírus da AIDS, em 7 de julho de 1990.

Por sua vez, o jornalista e produtor musical Ezequiel Neves, que assumiu a alcunha de Zeca Jagger, em homenagem ao ídolo Mick Jagger, nasceu em Belo Horizonte, em 29 de novembro de 1935, e morreu no Rio de Janeiro, em 7 de julho de 2010, vítima de um câncer no cérebro.

Os dois viveram tão intensamente que a jornalista Regina Echeverria, que trabalhou com a mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, em dois livros a respeito dele (a biografia Só As Mães São Felizes e o livro de letras comentadas Preciso Dizer Que Te Amo), garante: “Eram duas pessoas espirituosas, que diziam frases engraçadas e exibiam sua loucura, no sentido libertário, sem amarras, com coragem muitas vezes etílica. Pareciam pai e filho, dois irmãos, dois grandes amigos. Zeca cometia os excessos que fascinavam Cazuza. Era tudo muito, sem pensar nas consequências, sem freios. Zeca ia à frente, Cazuza ia atrás. Fora a inteligência, o carisma e o talento que os unia”.

"Pareciam pai e filho, dois irmãos, dois grandes amigos.
Zeca cometia os excessos que fascinavam Cazuza",
diz Regina Echeverria

A relação de Cazuza e Ezequiel Neves

Toda essa loucura ambulante refletia nas canções que compunham, de acordo com Regina Echeverria: “As ideias de Zeca serviam para Cazuza ativar a imaginação, criar suas frases lindas e certeiras nas letras que escrevia. A juventude de Cazuza ajudava Zeca a seguir. Fora a companhia para bebedeiras memoráveis. Cazuza retratava, em suas letras, sentimentos comuns, com muita sensibilidade”.

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“Eu sempre tive a impressão de que Zeca se expressava através do Cazuza. Ele passou meses me falando do Cazuza, de como ele era genial, carismático, talentoso. ‘A Star is Born!!!!!’, ele me dizia, com todos os dias! Quando finalmente ele me apresentou Cazuza, eu olhei assim, como quem já conhecia através das descrições do Zeca e depois disse para ele: ‘Mas ele é seu alter ego, né, Zequinha?’, conta a jornalista Ana Maria Bahiana.

Eu sempre ouvi Zeca nas músicas do Cazuza.
Talvez seja o resultado dessa ligaçãotão
forte entre nós”, diz Ana Maria Bahiana

Essa mesma impressão tem o jornalista Luiz Felipe Carneiro, que tem o canal Alta Fidelidade, dedicado à música e, mais especialmente, ao rock brasileiro, no Youtube: “Era uma relação muito louca. Os caras se conheceram no finalzinho dos anos 70, na Som Livre, trabalharam juntos ali e viram que eles tinham tudo em comum. Ou seja, o gosto pela bebida, pelo sexo, pela literatura e pelos mesmos autores, cantores e bandas. O Ezequiel foi a mistura de irmão mais velho, melhor amigo, pai e tutor. Era realmente uma coisa impressionante os dois juntos, porque um completava o outro. Eu penso que o Ezequiel via no Cazuza o cara que ele não foi e que faria de tudo para ele ser”.

A paixão de Ezequiel Neves pelo Barão Vermelho e, claro, por Cazuza foi fulminante. Ao ouvir uma fita demo da banda, no escritório de Nelson Motta e Leonardo Netto, ele tratou de roubá-la e de telefonar para Lucinha Araújo, anunciando que o filho dela era absolutamente genial. Depois, tentou convencer de todos os modos João Araújo, pai de Cazuza e presidente da gravadora Som Livre, a gravar o primeiro e homônimo álbum da banda, que foi lançado em 1982, pelo selo Opus Columbia, parceria da Polygram com a Som Livre.

“O Cazuza fez com que o Ezequiel começasse a viver de novo. Tanto que, quando terminou a gravação do primeiro disco, ele falou que não queria morrer nunca mais. Aquilo deu um estímulo para ele e ele virou realmente o George Martin do Barão, apesar de não ter conhecimento de estúdio”, observa.

“De certa forma, Cazuza era na poesia o que Ezequiel era na prosa, e Cazuza era na prática o que Ezequiel era na teoria: um rockstar culto, urbano, sarcástico, andrógino. Ezequiel era pai, mãe e mentor do Cazuza, e seu maior fã. E eram melhores amigos à sua maneira, kamikazes insaciáveis, escrevendo juntos as páginas mais interessantes do rock brasileiro. Não tinham saco pra mediocridade e não havia nada mais divertido para um garoto de dezenove anos, como eu, do que estar com eles”, garante o cantor e compositor Paulo Ricardo, que foi bandleader do RPM, um popstar que teve em Cazuza um grande amigo, a quem homenageou, no final de 2019, com o EP “Paulo Ricardo Canta Cazuza”.

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Ezequiel era uma pessoa muito inteligente, mas tinha um lado sombrio. Dessa forma, nossa relação tinha altos e baixos. Apesar de Ezequiel ser muito mais velho do que Cazuza, meu filho muitas vezes tinha atitudes paternas com ele, que incentivava coisas que não eram boas. Mas essa é a opinião de uma mãe”, avalia Lucinha Araújo.

"O que havia em comum entre ele e Cazuza era a inteligência,
o gosto pela música e as loucuras que ele era um
grande incentivador. Por esse motivo, acho
que ele fez bem, mas também fez
muito mal para meu filho",
diz Lucinha Araújo

Zeca Jagger, o jornalista rock and roll

Ezequiel Neves foi um dos mais importantes e influentes jornalistas musicais do Brasil, que levantou a bandeira do rock, quando todo roqueiro tinha cara de bandido, como uma vez bradou Rita Lee.

Com um texto bastante afiado, bem-humorado, criativo e exagerado, ele passou por publicações alternativas como uma primeira versão brasileira da revista Rolling Stone, Rock, a História e a Glória, Jornal da Música, Pop e Som Três, entre outras.

Uma das grandes parceiras dele na época foi Ana Maria Bahiana, que conta: “Conheci o Zeca na Rolling Stone em 1972. Ele era meu chefe – eu era secretária da redação e ele era o top da modestíssima redação. Nos amamos instantaneamente. Nós dois, Sagitários inquietos. Dali até eu vir para Los Angeles, em 1987, não nos largávamos, e mesmo depois que vim para cá estávamos muito próximos sempre. Aprendi muito com ele – no jornalismo, na música, na vida. Além dos meus pais, ele era a única pessoa que espontaneamente me chamava de ‘Aninha’. E ele era o meu Zequinha, meu guru, meu ídolo, uma espécie de pai adotivo, um pai muito louco e, sim, exagerado”.

Na revista Som Três, que foi criada pelo jornalista Mauricio Kubrusly e era mais focada em equipamentos de som, com um suplemento de reportagens e críticas, Ezequiel Neves criava histórias mirabolantes com personagens surreais como Angela Dust (brincadeira com droga mortal americana) e Lonita Renaux (inspiração para o nome artístico de Denise Barroso, irmã de Júlio Barroso, da Gang 90 & As Absurdettes). Ali também criou a banda fictícia de “som trincante” DNM (Devastation of the Nasal Membrain).

Um de seus colegas na revista era Paulo Ricardo, que conta: “Cresci lendo Ezequiel, Ana Maria Bahiana, Luiz Carlos Maciel, essa turma, em revistas. Eram meus ídolos no jornalismo”. Além de crítico de rock, ele teve, na revista, uma coluna chamada Via Aérea, na página ao lado da de Ezequiel Neves, onde atuava como correspondente em Londres, na Inglaterra, até retornar ao Brasil.

Ezequiel era uma figura, um vulcão em constante erupção. Muito culto, geração beat e MPB, Rolling Stones e Tropicália, e um jornalista influente na cena musical. Era o deboche em pessoa. Sem dúvida, minha maior influência como jornalista. Como era bem mais velho, todos nós queríamos impressioná-lo, mas Cazuza sempre levou a melhor”, garante.

Outro leitor assíduo de Ezequiel Neves era o jornalista e crítico musical Arthur Dapieve, autor de, entre outros livros, BRock – O rock brasileiro dos anos 80, que opina: “O Ezequiel Neves era uma das referências que buscava avidamente ler, mesmo antes de eu pensar em ser jornalista. Tanto no próprio nome como sob o de ‘Zeca Jagger’, o megafã dos Stones. Foi um dos nomes mais importantes do jornalismo musical carioca, logo, também do Brasil. É uma pena que não existam coletâneas de seus textos. Sempre divertidíssimo, ferino e inteligente”.

Rodrigo Pinto, autor da biografia do Barão Vermelho, Por Que a Gente é Assim, junto com Guto Goffi e Ezequiel Neves, e prepara um documentário a respeito de Ezequiel, comenta: “Ele foi o mais importante, influente e inovador crítico de música no Brasil, com todo o respeito a mestres como Nelson Motta, Tarik de Souza, José Ramos Tinhorão, Ana Maria Bahiana, Jamari França ou, mais recentemente, Pedro Alexandre Sanches e Leonardo Lichote”.

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Na sua opinião, Ezequiel criou um jeito próprio, muito baseado na literatura, que ele conhecia de ponta a ponta por ter sido bibliotecário e leitor assíduo. “Zeca fez Novo Jornalismo no Brasil, se apropriou do que era feito nos Estados Unidos para fazer aqui o jornalismo com qualidade literária. Inventou personagens, festas, shows, canções e discos para dar aos leitores a chance de mergulhar nas profundezas da criação artística. Era o sentimento daquele tempo sendo reportado através da ficção - e aí é que a realidade se revelava em sua forma mais essencial. É um lance muito sofisticado e corajoso. Ninguém fez isso tão bem, nem antes, nem depois”.

“Zeca fez Novo Jornalismo no Brasil, se apropriou do
que era feito nos Estados Unidos para fazer aqui o
jornalismo com qualidade literária",
diz Rodrigo Pinto

Ezequiel Neves, desde o início, cumpriu um papel importantíssimo na divulgação do rock brasileiro e internacional. Não à toa, por exemplo, ele estava envolvido com a primeira coletânea de punk no país, Pop Apresenta o Punk Rock. “Ele fazia parte de um grupo de jornalistas que falava de rock and roll, quando ninguém falava. Ele abriu muitos caminhos, dando força, inclusive, para o grupo Made in Brazil, fazendo backing vocal. Ou seja, ele botou a mão na massa para realmente fazer do rock uma possibilidade no mercado”, garante o cantor e compositor Leoni.

“Mas ele conseguiu realmente realizar esse projeto com o Barão Vermelho, a quem meio que deu a cara. Quando eu conheci o Roberto Frejat, por exemplo, ele não tocava blues e rock and roll. Ele tinha uma banda com o George Israel que, em alguns momentos, tocava até chorinho. Então acho que o Ezequiel, por ser muito fã dos Rolling Stones, levou o Barão Vermelho para essa coisa mais Rolling Stones mesmo, mais bad boys e mais rock and roll. Ele ajudou a criar essa marca”, garante Leoni.

“Parafraseando o jornalista Jon Landau, a respeito de Bruce Springsteen, o Zeca viu o futuro do rock brasileiro, e ele se chamava Cazuza. Isso, de certa forma, deu um sentido maior à sua existência. Sem o aval do Zeca, talvez o Barão Vermelho simplesmente não tivesse existido, que dizer, gravado. Por sua vez, Cazuza era perfeitamente afinado com a maneira exagerada de ser do Zeca, que pode tê-lo visto como um Mick Jagger, como um deus Dionísio do Baixo Leblon”, acrescenta Dapieve.

"Zeca viu o futuro do rock brasileiro,
e ele se chamava Cazuza",

diz Dapieve

O nascimento e a consagração do Barão Vermelho

Quem deu força mesmo para Cazuza encontrar, na música, sua verdadeira vocação e profissão foi o grande amigo dele na época, o compositor e cantor Léo Jaime. Basta lembrar que o garoto já havia tentado ser fotógrafo, divulgador musical e ator, entre outras funções.

“Um dia, na casa do Cazuza, eu estava mostrando música nova minha para ele, quando ele pegou o violão e me mostrou uma música chamada ‘Down em Mim’, que tinha acabado de fazer. O fato é que eu não sabia que o Cazuza tocava violão e muito menos que ele pensava em escrever música. Ele me mostrava poesia. E me mostrou essa música que, a meu ver, já era muito madura, de um compositor pronto. A primeira canção dele já foi mortal e incrível”, recorda Leo Jaime, que tratou de incentivar o amigo, que fizera antes alguns backing vocals na banda dele, João Penca e seus Miquinhos Amestrados.

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“Mas ele não concordava com a ideia de cantar, mesmo adorando. Era um cara talentosíssimo e não tinha ainda encontrado um rumo. E eu convenci, num telefonema, que o Cazuza deveria ir a um ensaio do Barão Vermelho, para conhecer os garotos, que eram muito jovens, talentosos e barulhentos. Mas foi um problema convencê-lo, pois a mesma cautela que o João Araújo tinha, o Cazuza também tinha. Ele não achava que era uma ideia agradável aparecer cantando”, lembra.

O convencimento só veio quando Leo Jaime explicou para Cazuza que ele poderia dar uma carona para os rapazes até a garagem da casa de um dos integrantes, Mauricio Barros (tecladista), que ficava no Rio Cumprido. “Cazuza e Frejat se deram muito bem nessa carona, foram batendo papo, chegaram lá e começaram a levar som. Acho que, nesse primeiro dia, já escreveram alguma coisa. A parceria foi instantânea”, comemora.

"O Cazuza é quem me pegava em casa e me levava até
a casa do Mauricio. Aí começamos a bater papo
e nos conhecer melhor”,
diz Roberto Frejat

“Eu conheci o Cazuza no primeiro ensaio em que ele foi participar do Barão. Eu já estava tocando com eles há umas duas semanas, no máximo, para um show que fomos todos convocados e que foi o motivo de criação da banda. O Guto (Goffi, baterista) me deu uma carona e a gente foi encontrar com o Cazuza para ele seguir a gente até a casa do Mauricio, onde eram os ensaios. Esse foi o primeiro dia em que a gente se viu. Depois disso, ele começou a me dar carona para ir aos ensaios", recorda Roberto Frejat, o maior parceiro de Cazuza.

A chegada de Ezequiel Neves foi fundamental e transformadora para todos da banda. Afinal, depois de ter lutado tanto para que ela fosse contratada por uma gravadora para realizar o primeiro álbum, chegou o momento de ele ser apresentado por Cazuza a todos os integrantes e anunciar a grande novidade. “Eu fiquei muito feliz com a coisa do contrato, porque a gente não estava nem pensando em gravadora nesse momento, e estava muito curioso de conhecer o Ezequiel, porque eu era leitor dele. Eu lia o Ezequiel há muito tempo. Então vários discos que eu fui comprar e ouvir pela primeira vez foram recomendações de matérias que o Zeca escrevia”, conta Frejat.

O mais jovem integrante da banda, o baixista Dé Palmeira, também se lembra desse dia: “Houve uma reunião da banda com Zeca na casa de João e Lucinha, onde Cazuza estava morando. Ezequiel tinha quarenta e seis anos de idade e para mim pareceu um velhinho (risos). Naquela tarde, ele conseguiu destruir todos os conceitos que eu tinha construído sobre música. Absolutamente tudo foi devastado por uma avalanche verborrágica de insultos e deboche. Tinha quinze anos de idade e nunca havia me divertido tanto. Zeca deu um show, contou histórias numa performance sensacional”.

"Ezequiel tinha quarenta e seis anos de idade e para mim
pareceu um velhinho. Naquela tarde, ele conseguiu
destruir todos os conceitos que eu tinha
construído sobre música",

diz Dé Palmeira

E acrescenta: “Ezequiel dizia que àquela altura da sua vida já não tinha o menor prazer em escrever (apesar de ainda o fazer maravilhosamente) e que o encontro com o Barão, e principalmente com Cazuza, lhe devolveu novamente a vontade de viver (exagero). Acho que a descoberta de um garoto de Ipanema, que escrevia letras que remetiam à tradição brasileira de compositores como Lupicínio Rodrigues, Dolores Duran, etc… e quatro meninos da classe média carioca, fazendo um som que remete à tradição da música negra americana o deixou completamente apaixonado. E ele fez o maior escândalo”.

O jornalista Rodrigo Pinto também comenta a respeito do importante papel exercido por Ezequiel Neves na carreira do Barão Vermelho: “Ezequiel fez o Barão acontecer. O talento estava ali, claro. Mas ele insistiu para que a Som Livre contratasse o grupo e mantivesse os lançamentos até o Barão de fato estourar, o que só aconteceu no terceiro disco. Mais tarde, na carreira solo do Cazuza, o Zeca foi parceiro em grandes sucessos, ‘Codinome Beija-Flor’, ‘Exagerado’… Zeca não deixava Cazuza ceder ao perfeccionismo, à assepsia. Queria atrito na música, nas letras. Então, os discos tinham de bossa nova a pós-punk no mesmo lado. Por sua vez, Cazuza consolidou a imagem do Zeca como o grande produtor do Rock Brasileiro ao lado do Liminha no início dos anos 1980. E deu ao Zeca, que era bem mais velho, propósito, vitalidade”.

"Ezequiel fez o Barão acontecer. O talento estava ali, claro.
Mas ele insistiu para que a Som Livre contratasse
o grupo e mantivesse os lançamentos até o Barão
de fato estourar, o que só aconteceu no terceiro disco",

diz Rodrigo Pinto

“Exagerado”, a canção

A canção “Exagerado”, que virou uma marca importante tanto de Cazuza, quanto de Ezequiel Neves, nasceu num apartamento que Leoni dividia com Leo Jaime no Jardim Botânico, na zona sul do Rio de Janeiro.

Como conta Leoni: “Lembro-me deles indo na minha casa, com um poema longo, chamado ‘Exagerado’, e o Cazuza sugeriu que fosse um bolero, porque ele achava que o exagero era uma coisa mais latina do que do rock. Pode até fazer algum sentido, mas eu não sabia fazer bolero e não concordo muito que o rock não seja exagerado”. Ele ficou, então, com o poema, selecionou alguns trechos, inventou uma música para eles e decidiu a estrutura da música, com as diferentes partes e o refrão.

Leoni também se recorda de ter ido a um ensaio do Barão Vermelho e de ter falado dessa canção, que, quando o Cazuza deixou a banda e dividiu o repertório do que seria o próximo álbum dela, ele resolveu levar para o trabalho solo.

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“O que eu entendi quando ele me deu a letra é que a parceria se deu porque ele pegou frases que o Ezequiel falava na vida cotidiana e que eram muito exageradas, como ‘mil rosas roubadas’ e ‘para mim é tudo ou nunca mais’. Então que seria, na verdade, uma canção que falava desse espírito exagerado, mas muito inspirado no Ezequiel. Mas é claro que o Cazuza também tinha esse lado exagerado, que depois virou quase como se fosse um apelido dele”, acrescenta Leoni, para quem exagerado era algo em comum entre os dois.

"O que eu entendi quando ele me deu a letra é que
a parceria se deu porque ele pegou frases que
o Ezequiel falava na vida cotidiana e que
eram muito exageradas",

diz Leoni

Leoni lembra que, na mitologia do rock and roll brasileiro, existe a noite em que Ezequiel Neves saiu com Iggy Pop e este, uma das maiores lendas mundiais na arte de aprontar e das loucuras, pediu para Zeca segurar a onda porque estava passando dos limites.

Por sua vez, Leo Jaime se recorda de ter tentado incluir um verso para entrar na parceria e que “eu nunca mais vou respirar se você não me notar” foi inspirado num personagem da história em quadrinhos “Asterix”. “Era um menino espanhol, se não me engano, que, quando ficava emburrado e alguém não fazia o que ele queria, parava de respirar até ficar roxo e aí as pessoas faziam o que ele queria”, conta.

Já a cantora e compositora Angela Ro Ro acredita que a exagerada era ela e que Cazuza gostava de dizer que tinha criado o verso “mil rosas roubadas” inspirado num episódio vivido por ela.

“Naquela época, todos nós éramos exagerados (risos), mas a letra do Cazuza foi feita pensando num fato que aconteceu comigo. Eu peguei dois amigos maravilhosos, gays, e roubamos, para levar de presente para a minha namorada da época, doze dúzias de rosas amarelas da loja em frente à Pizzaria Guanabara. Ou seja, “com mil rosas roubadas” é exatamente a respeito deste fato”, explica.

"Naquela época, todos nós éramos exagerados (risos),
mas a letra do Cazuza foi feita pensando
num fato que aconteceu comigo", 

diz Angela Ro Ro 

Por sua vez, Lucinha Araújo remete ao cantor e compositor Caetano Veloso: “Cazuza escreveu a música ‘Exagerado’ para o Zeca, mas ela se tornou seu cartão de visita e ele passou a ser conhecido como o Exagerado. Mas Caetano Veloso diz que a verdadeira exagerada sou eu e que Cazuza me imitava”.

“Eu acho que os dois eram exagerados e, quando estavam juntos, eram exagerados ao quadrado, porque os dois combinavam muito. A única diferença entre eles era a idade (havia uma diferença de 23 anos entre eles). A única, porque eles eram iguais mesmo. Eu acho muito impressionante que, no fim, o Ezequiel realmente estava muito debilitado e o Guto Goffi diz que tem certeza que o Cazuza veio, no dia do aniversário da morte dele, buscá-lo”, acrescenta Luiz Felipe Carneiro.

"Caetano Veloso diz que a verdadeira exagerada
sou eu e que Cazuza me imitava",

diz Lucinha Araújo

E ele cita a canção “Porque a gente é assim?”, de Cazuza, Ezequiel e Frejat, que nasceu na Pizzaria Guanabara, quando Zeca disse o refrão “Mais uma dose? É claro que eu estou a fim. Se a noite nunca tem fim porque a gente é assim?”.

E Frejat destaca a outra parceria dele com os dois, “Não amo ninguém”, cujo título foi dado por Ezequiel e a letra toda desenvolvida a partir dele por Cazuza.

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“O Cazuza, de uma certa maneira, articulou em letras muito do que o Ezequiel gostaria de dizer. Zeca também deu muitas sugestões de frases para o Cazuza. Ele era um ótimo frasista. Então eles tinham muita coisa em comum, principalmente gostar de viver intensamente e serem pessoas realmente inteligentes, que gostavam de ler e ouvir música. Portanto, não tem ninguém mais importante dentro da carreira do Cazuza do que o Ezequiel”.

"Não tem ninguém mais importante dentro da
carreira do Cazuza do que o Ezequiel",

diz Frejat

“Cazuza, O Tempo Não Para”

Em 2004, a vida de Cazuza foi retratada no filme “Cazuza, O Tempo Não Para”, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, e no qual, claro, Ezequiel Neves tinha um papel de destaque, interpretado por Emílio de Mello.

Como conta Daniel de Oliveira, que interpretou Cazuza de modo magistral: “Realizar esse filme foi como viver um sonho real. Foi uma entrega absoluta. Eu me preparei durante um ano para que pudesse chegar o mais próximo possível desse personagem/personalidade Cazuza. Aluguei um apartamento no Leblon e embarquei nos discos e livros que impulsionaram o Cazuza em sua criatividade. Então foi fundamental para o meu crescimento pessoal. Não foi apenas importante na minha carreira, mas fundamental na minha vida”.

"[Cazuza] foi fundamental para o meu crescimento pessoal.
Não foi apenas importante na minha carreira,
mas fundamental na minha vida",

diz Daniel de Oliveira

Daniel se recorda dos muitos encontros com Ezequiel Neves, que gostava de dizer que Cazuza era uma ausência muito presente, uma vez que era sempre interpelado a respeito do parceiro e amigo falecido: “Com o jeito dele, me embarcava para os anos 1980. O papo fluía muito bem e sempre acabava contando muitas histórias que viveu com Cazuza, de que tinha muita saudade. Durante as filmagens, de vez em quando, ele aparecia para nos encher de inspiração e era a garantia de muitas gargalhadas. Irreverente, ácido no humor e doce por natureza. A dica primária do Ezequiel em relação a viver o Cazuza nas telas era: Viva com liberdade”.

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O legado

Daniel de Oliveira é direto quanto ao que acredita ter sido a herança deixada por Cazuza e Ezequiel Neves: “Os dois são emblemáticos nessa geração. Desenvolveram uma amizade que instigava o desejo de desbravar a existência. Vivendo o Agora. Deixaram músicas que fazem total sentido hoje em dia. Num governo com ideias ultrapassadas e que além de tudo flerta abertamente com o regime ditatorial, ouvir Cazuza e Ezequiel é fundamental. Neste dia 7, passarei escutando e aprendendo um pouco mais com eles. Quem sabe algum jovem que está lendo esta matéria não faz o mesmo neste exato momento? Aumente o som e escute de coração aberto. A poesia é a fonte mais pura de beleza e libertação”.

"[Cazuza e Ezequiel] deixaram músicas que fazem total sentido
hoje em dia. Num governo com ideias ultrapassadas
e que além de tudo flerta abertamente com
o regime ditatorial, ouvir Cazuza e Ezequiel
é fundamental",

diz Daniel de Oliveira

Ele também fez questão de deixar registrada a admiração por Lucinha Araújo, uma mãe que transformou a perda do filho em generosidade para tantas crianças, por meio da Sociedade Viva Cazuza. Esta também opina: “O legado que Cazuza deixou não foi só de belas canções, mas também de coragem de ter enfrentado uma doença que, na época, sofria grande preconceito. Ele incentivou muitas pessoas a mostrarem suas caras”.

"Cazuza está no topo dos letristas
com Vinicius (de Moraes)",

diz Paulo Ricardo

Para Paulo Ricardo, o legado deixado por Cazuza e Ezequiel Neves é imensurável. “Cazuza está no topo dos letristas com Vinicius (de Moraes). E foi um desses poucos artistas que a vida é tão interessante quanto a obra. Ele realmente vivia aquilo tudo. Ele era aquele personagem e, além de sua obra, há a imensa lição de vida que ele nos deixou em sua luta contra a AIDS. Filmes, livros, musicais, exposições, tributos e shows. Sua força só aumenta com o passar do tempo. E pode-se dizer que Ezequiel descobriu Cazuza e Cazuza descobriu Ezequiel, de quem o melhor estava nas bobagens brilhantes que dizia nas noites de loucura que apenas os privilegiados que conviviam com ele desfrutaram. E, claro, os primeiros álbuns do Barão”.

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Leoni destaca o lado poeta de Cazuza, um dos mais importantes da geração dos anos 1980, por ele não ser apenas letrista. “Ele deixou vários poemas não musicados e ele não partia de canções para escrever. Era difícil às vezes musicar as coisas do Cazuza, porque ele não pensava em formato de letra de música. O parceiro é que tinha que meio que colocar nesse formato. E o Ezequiel foi um produtor importante e um defensor do rock and roll. Acho que eles estariam horrorizados com o que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo. Então eu gostaria que eles fossem lembrados como um norte para a gente desencaretar um pouco”.

"São veneno antimonotonia, anticaretice. Eu adoraria que
eles pudessem ser lembrados como merecem", 

diz Arthur Dapieve

Para Arthur Dapieve, a arte e a vida foram os maiores legados deixados pelos dois. “São veneno antimonotonia, anticaretice. Eu adoraria que eles pudessem ser lembrados como merecem: com um grande porre coletivo em todos os ‘baixos’ do Brasil, mas a merda da pandemia irá impedir isso. Então, brindemos solitariamente e façamos três minutos e meio de barulho”.

Já Frejat assegura: “O Zeca foi muito importante na minha vida. Muito importante mesmo. Uma pessoa fundamental. Eu acho que a minha vida teria sido totalmente diferente se eu não tivesse conhecido o Ezequiel. Ele e o Cazuza estavam sempre instigando as pessoas a pensar e ver sua maneira de se comportar, de falar e de se colocar na vida. Eles viviam a vida deles com muita verdade, sinceridade e transparência, e, com isso, traziam coisas muito poderosas e bonitas para perto deles. Qualquer pessoa que conheceu os dois com certeza não tem como negar que eles passaram pela vida e mexeram com elas. De alguma forma eles as afetaram, como pessoas intensas, verdadeiras, transparentes, criativas e inteligentes que foram”.

"Qualquer pessoa que conheceu os dois com certeza não
tem como negar que eles passaram pela vida
e mexeram com elas",

diz Frejat

Leo Jaime recorda-se de outro Cazuza, que ficou menos conhecido pelo grande público: “O Cazuza alternava entre duas personalidades. Uma, que era quando ele estava sóbrio, que era muito contido, educado, gentil, suave, bem-humorado. E quando ele estava bêbado, que virava um cara muito destrambelhado. No estado normal, o Cazuza era um cara muito elegante. A casa muito arrumada. Foi ficando uma pessoa muito sofisticada e culta. Eu fiquei mais amigo desse outro Cazuza caseiro. E assim foi até quando ele morreu. O Cazuza foi celebrado, depois da sua obra curta, muito intensa, poderosa, valiosa e eterna evidentemente, e foi homenageado com uma pracinha que não é nem praça, no final do Leblon, perto do Baixo”, analisa.

"O Cazuza alternava entre duas personalidades.
Uma, que era quando ele estava sóbrio, que era
muito contido, educado, gentil, suave, bem-humorado.
E quando ele estava bêbado, que virava um cara muito
destrambelhado",

diz Leo Jaime

Para Luiz Felipe Carneiro, a importância de Cazuza para a música é incontestável: “Ele fez parte de uma das bandas mais importantes do Brasil. Talvez seja a banda de rock, stricto sensu, mais importante do BRock. O primeiro disco do Barão é muito melhor do que o dos Rolling Stones. Se fosse uma banda gringa, seria do tamanho dos Rolling Stones. Ia ser uma coisa absurda. E o Cazuza misturou o rock com a dor de cotovelo do Lupicínio Rodrigues. Ele acabou fazendo uma coisa absolutamente inédita”.

Carneiro cita a canção “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, composta por Cazuza e Frejat, e que era um rock, até meio new wave, no primeiro disco do Barão Vermelho, e depois, no álbum ao vivo solo “O Tempo Não Pára”, virou uma baladinha.

Também recorda “Faz Parte do Meu Show”, uma bossa nova, e o fato de Cazuza, após descobrir ser portador do HIV, parar de olhar para o próprio umbigo e virar mais político, no álbum “Ideologia”, que, de acordo com ele, é um retrato do final do governo do então presidente José Sarney.

De acordo com Carneiro, Cazuza, pouco antes de morrer, tinha até planos de fazer um show solo dele com o nome A Volta do Barão, algo mais intimista na casa de shows carioca Jazzmania e de lançar o álbum “Burguesia” com uma apresentação no Maracanãzinho.

Neste álbum, estava a única parceria composta por Cazuza e Angela Ro Ro, que conta: “O Cazuza me deu mais do que influência musical. Ele me deu uma ternura muito grande por ele, dedicou um disco da pesada a mim e a última gracinha, já em estado bem terminal, me ligou e, com a vozinha fraca, convidou para fazermos uma música, que ele enviou a letra por carta registrada e demorou quase 15 dias para chegar. Eu dei uma mexidinha, porque, na realidade, ele escreveu uma carta para mim. ‘Se você quer saber como eu me sinto, vá ao laboratório, num labirinto’. E fiz um flamenco no violão. Logo depois, infelizmente, ele faleceu, mas conseguiu gravar, mesmo deitadinho na maca, no estúdio da Polygram, com balão de oxigênio”.

No próximo sábado, 11 de julho, as 21h30, Angela Ro Ro fará uma live pelo Cultura em Casa, em que dedicará a Cazuza a canção que ele mais gostava dela, “Cheirando a Amor”.

“Ele era exatamente o que canta no último verso da última música, do último lado, do último disco, que é ‘Quando eu estiver cantando’: ‘O meu canto é o que me mantém vivo’. Então eu acho que realmente esse é o grande legado, a força de vontade e a esperança. Cazuza e Ezequiel podem ser lembrados como duas pessoas do Brasil que deu certo”, finaliza Luiz Felipe Carneiro.


*Guilherme Bryan é professor do Centro Universitário Belas Artes e autor dos livros Quem Tem um Sonho Não Dança - Cultura Jovem Brasileira dos Anos 80, e Teletema - Uma História da Música Popular pela Teledramaturgia (com Vincent Villari).