Filho e netos de Gilberto Gil: como Gilsons se tornou acalanto em tempos de crise política e de saúde

Francisco Gil e João Gil falaram sobre o processo de criação do EP Várias Queixas, sonoridade e sensibilidade das músicas, e futuro do Gilsons, em entrevista à Rolling Stone Brasil

Isabela Guiduci Publicado em 03/08/2020, às 07h00

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Gilsons (Foto: Jessica Leal/Divulgação)

Em tempos de crise - seja política, econômica, de saúde e outras - a arte é refúgio e consolo. Assim também funciona com a música nacional, por exemplo, que é uma peça central para acalanto e identificação. É por isso que você deveria conhecer Gilsons.

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O trio de brasileiros provoca as mais diversas sensações e sentimentos por meio das cinco canções lançadas até agora no EP Várias Queixas. A partir dos elementos sonoros, musicalidade e mensagens intensas e pessoais, o trabalho dos artistas é incrivelmente sensível ao dialogar com as emoções dos ouvintes.

No som da percussão, do trompete e do violão, o grupo revisita as influências musicais brasileiras principalmente em relação à cultura afro-brasileira. Como o nome Gilsons sugere, o trio é formado pelo filho e pelos netos de Gilberto Gil - José Gil, Francisco Gil e João Gil, respectivamente.

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João Gil, José Gil e Francisco Gil, da esquerda para a direita. Foto: Jessica Leal/Divulgação Gilsons.

“Crescemos sob a influência dos ritmos afro-baianos, o ijexá, o afoxé, o axé, o forró, o baião, e os instrumentos percussivos, o atabaque, e o violão tocado com as levadas ligadas às claves dos instrumentos percussivos. É uma influência muito grande e muito natural para nós”, explicou Francisco em entrevista à Rolling Stone Brasil.

João Gil acrescentou: “Acredito que essa influência dos blocos afros sempre foi grande. A percussão sempre foi muito importante e no Gilsons não é diferente. Acredito que muito da nossa sonoridade vem dessa mistura, do tambor combinado com um beat um pouco mais moderno, mais pesado, mas também com o violão que é um instrumento característico brasileiro. O Gilsons é mistura, mas a influência negra é muito grande.” 

Francisco e João contaram que o projeto surgiu de uma apresentação ao vivo. O evento tinha a intenção de unir nomes da música em shows, então José foi convidado para a ocasião, e levou os dois com ele. Desse repertório, algumas músicas e ideias já surgiram, como é o caso de “Love Love”. 

Logo após, o trio passou a fazer mais shows. Depois optaram pelo nome Gilsons, o qual, João contou que foi uma sugestão de Preta Gil, mãe de Francisco. Só mais tarde veio o primeiro EP do grupo, Várias Queixas, lançado em 22 de novembro de 2019. 

Antes do projeto, os três formaram a banda Sinara ao lado de LuthuliAyodele e MagnoBrito. “[A minha carreira] começou junto com os meninos na banda [Sinara] que a gente tinha. Ali foi um grande laboratório para gente. José tocava bateria e eu e João éramos guitarristas. E ali fomos entendendo como que era esse universo da música, e serviu como uma escola para gente”, contou Francisco

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“Acredito que existe uma intimidade entre nós três, provavelmente porque crescemos juntos. Essa questão de banda, por exemplo, acredito que por termos formado o Sinara, já estávamos mais entendido sobre como funciona essa dinâmica de trabalhar em grupo”, afirmou João


Influência de Gilberto Gil e independência do Gilsons

José Gil, Francisco Gil e João Gil certamente cresceram rodeados de influências musicais por conta do pai e avô Gilberto Gil, um dos principais nomes do cenário artístico brasileiro. De fato, a figura dele é muito importante para a sonoridade do Gilsons, mas o grupo também busca a independência com o projeto. 

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José Gil, Francisco Gil e João Gil, da esquerda para a direita. Foto: Jessica Leal/Divulgação Gilsons

"Nossa musicalidade e nossa veia musical parte dele [Gilberto Gil], pelo acesso e por estar sempre perto ouvindo. É uma referência para gente. Para mim, posso dizer, é meu maior ídolo na música, sem dúvidas. É uma referência não só musical como humana também, comportamental dentro da música, a forma como entende a música e arte", explicou Francisco.

Ainda, João complementou: “Acredito que o Gil é uma grande força para todos nós. Nossa grande inspiração. Nosso grande ídolo, e referência maior dentro de casa. Incrível isso. Mas também nos preocupamos do Gilsons ter uma sonoridade própria e de não ser uma extensão do Gil, uma coisa que seja rapidamente associada. Queremos ter a nossa cara e é uma coisa que é muito importante que cada vez mais a gente tem conseguido.”


Várias Queixas

EP Várias Queixas. Foto: Divulgação
EP Várias Queixas. Foto: Divulgação

A criação e produção do EP Várias Queixas foi dividida em dois momentos, como contou João Gil. Inicialmente, o trio produziu, ao lado de Sérgio Santos, “Love Love” e “Várias Queixas”. As faixas foram lançadas sem estarem atreladas a um projeto específico, mas como o músico explicou, foram as músicas responsáveis por trazer essa “roupagem do que seria a sonoridade”. 

“Já trouxemos o atabaque, e a música do Olodum em “Várias queixas” e em "Love Love" uma coisa um pouco mais R&B e meio reggae. Nelas, trouxemos o trompete que está presente nas duas músicas e é um elemento que é muito do Gilsons”, afirmou João

Francisco completou sobre o processo de criação da música-título “Várias Queixas”: “É uma música que sempre esteve presente na nossa vida, no carnaval de Salvador. O Olodum como todos os blocos afro-baianos eram presentes. José me mostrou essa música e ela ficou reverberando muito forte na minha cabeça.”

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Gilsons. Foto: Thathy Aguiar/Divulgação.

“Ela não tinha harmonia, e eu ficava tocando ela de várias formas diferentes. A gente já tinha pensado em criá-la em outro projeto. Mas só depois do nosso primeiro show tive a ideia de fazer essa música. Com incentivo de Andrea Franco, fomos para o estúdio. E nele, acompanhados de Sérgio Santos, concebemos essa música”, concluiu. 

Em um segundo momento, o trio gravou as outras três músicas "A Voz", "Cores e Nomes", e "Vento Alecrim", que somadas à “Love Love” e à faixa-título formam o EP Várias Queixas, lançado em 22 de novembro de 2019. 

O EP é um projeto sensível, que explora as diferentes sonoridades e complexas maneiras ao falar dos sentimentos, principalmente do amor. “É um projeto de imersão e introspecção. Composição é um processo de introspecção”, afirmou Francisco.

João acrescentou: “As canções são bem pessoais, cada um na sua particularidade. Isso é uma coisa muito boa do Gilsons, porque ele é esse espaço democrático, então tem música de todo mundo. O Gilsons é como uma plataforma para colocarmos as nossas músicas, nossos pensamentos e nossas angústias.”

“Sempre tivemos uma característica muito bonita que é a de agregar, por exemplo. A Julia Mestre é uma compositora que participou em "Love, Love" e "Cores e Nomes". Temos composição com outros parceiros e penso que isso reverbera, porque agreamos um entendimento de valor de canção e composição o qual levamos para o projeto”, complementou Francisco.

A originalidade e autenticidade são, para João, um destaque nas composições do Gilsons: “Elas não são compostas, porque pensamos: 'vou fazer uma música porque eu sei que ela vai bombar', ou 'eu vou fazer uma música com o estilo x'. Elas são expressões que nascem e traduzem nossos sentimentos em determinados momentos.”

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A música-título “Várias Queixas” foi muito bem recebida pelo público e gerou uma conexão orgânica e original com os ouvintes. “Antes dela lançar, ela tinha se espalhado pelo nosso meio de amigos e ela tinha ganhado uma força muito grande. Era muito legal ver pessoas que nos viram crescer, amigos dos nossos pais, chegando junto para dizer que a música tinha batido um sentimento forte em cada um deles. A gente já tinha um sentimento de que ali havia algo mais profundo para ser passado”, contou Francisco.

Ele completou: “É um retorno que move muita coisa, devemos muito a essa canção, porque ela abriu muitas portas. Tem muitas pessoas que nos conhece através dessa música. E isso tem um valor inestimável para gente. Somos gratos a Afro Jhow, Germano Meneghel e Narcisinho Santos, que são os compositores originais dessa música.” 

Juntamente ao EP, o grupo lançou o videoclipe para “Várias Queixas”, que traduz a mensagem da música com uma linguagem corporal muito bem-construída, interpretada por Jeniffer Dias e Hiltinho Fantástico.

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Na produção, o clipe é uma parceria de Francisco Gil, Pedro Alvarenga, Rafael Di Celio, e do Victor Vidigal. Francisco explicou que ele, Pedro e Rafael já tinham feito outros trabalhos de audiovisual em conjunto. Ao pensar no vídeo, os três tinham voltado de uma recente viagem à África, repletos de inspiração e referências artísticas, e acompanhados de José e João, desenvolveram o videoclipe.

“O vídeo reflete toda a verdade da canção, que é uma música negra, periférica, do Pelourinho. Com a ideia do Pedro, que escreveu o roteiro, quisemos através do corpo, da linguagem corporal, passar o sentido profundo dessa música. E penso que casou muito bem, o clipe teve uma vida bem bacana, e reverberou muito bem nas pessoas”, contou Francisco

Assista ao videoclipe:


Recepção do público

Várias Queixas é, de fato, um projeto com sonoridades originais e que transforma o ouvir música em acalanto - principalmente neste momento de crise política e da pandemia de coronavírus. Embora tenha sido lançado há quase um ano, é extremamente atual e necessário para dar um respiro aos brasileiros. 

“Isso tem sido um relato que as pessoas têm feito para a gente sim. Bastante. Que tem escutado o nosso EP como companheiro de quarentena. Muita gente manda mensagem agradecendo por a gente ter levantado o astral e por estar ajudando em momentos difíceis. Isso para gente é sagrado”, afirmou Francisco

Ainda, falou: “Na música, essa questão mais pessoal é o que traz para perto, porque identifica o público. Acredito que quando falamos de sentimento, e de amor, essa sensibilidade à palavra, a melodia é o que traz o público para perto e identifica.” 

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Francisco contou que é a pessoa responsável por acompanhar o alcance do Gilsons nas plataformas e redes sociais. De acordo com o músico, os números dobraram na quarentena: “Foi uma alegria para nós. Quando começou a quarentena, ficamos muito frustrados, porque estávamos no nosso melhor momento de shows e de repente parou tudo. Mas, as pessoas não pararam de ouvir e dobrou todos os números, o que foi incrível.” 

No Spotify, o Gilsons alcança quase 500 mil ouvintes mensais, com “Várias Queixas” sendo a faixa mais ouvida com 7 milhões de streams. O videoclipe da canção no YouTube utralpassa 2,9 milhões de visualizações. 


Futuro do Gilsons 

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João Gil, José Gil e Francisco Gil, da esquerda para direita. Foto: Jessica Leal/Divulgação Gilsons

O processo de criação de músicas na quarentena pode até ser mais complexo para alguns artistas. “No início da quarentena, falando pessoalmente, foi bem difícil. Eu estava bem frustrado com a pausa absoluta da música e fiquei um bom tempo sem compor e ter muita inspiração”, contou Francisco

“Depois de um mês assim, ali em maio, começou a surgir esse impulso e vieram algumas canções. Logo, abriu a porteira e já surgiram várias canções nessa quarentena. Os meninos também que eu sei e a gente troca algumas figurinhas e está dando para tirar um proveito bacana disso”, concluiu. 

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Francisco e João garantiram que há muitas novidades para serem lançadas, inclusive criação de quarentena. João afirmou: “Nessa quarentena, gravamos um single com a Mariana Volker e vamos lançar junto com o clipe. Uma gravação dentro da segurança e das recomendações da OMS.”

“Já temos várias músicas engavetadas, e vamos executar nesse segundo semestre para lançar ano que vem. Não queremos ficar parados, e cada vez mais fazer com que os Gilsons atinja mais gente e seja essa plataforma de criação”, complementou. 


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