The Strokes podem estar velhos, mas eles têm tudo para serem eternos [ANÁLISE]

Pais e mães velhos o suficiente para testemunhar a primeira leva da Strokes-mania estavam ao lado de seus filhos, ainda cantando histórias de amassos no banheiro, farras regadas a álcool e sexo por uma noite

Charles Holmes, Rolling Stone EUA Publicado em 06/08/2019, às 13h41

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Julian Casablancas, vocalista dos Strokes (Foto: Amy Harris/Invision/AP)

Lil Baby se apresentava do outro lado do campo. Apenas dois anos depois que a música “My Dawg” alçou o rapper de Atlanta para além de sua marca de maconha para líder da próxima geração de artistas de sua cidade, ele fechava a primeira noite de Lollapalooza Chicago.

Ele é um dos artistas mais populares na ativa, mas, curiosamente, dois garotos de 12 anos não se importaram em ir para o palco American Eagle para ver o ícone do trap moderno. Ao invés disso, eles esperavam pacientemente para 5 roqueiros (discutivelmente) entrarem no palco.

“Se eles não vierem logo isso pode virar um Woodstock ‘99,” disse seriamente um dos pré-adolescentes ao outro, 10 minutos após o tempo da apresentação da banda começar e sem nenhum dos Strokes à vista. Seu amigo concordou e logo depois uma das mães os importunou para tirar uma foto.

Então, para felicidade dos garotos, Julian Casablancas chegou no palco ao som de “Heart on a Cage”, de 2006, fazendo as preocupações de festivais passados fracassados evaporar.

The Strokes tem quase 20 anos; é muito tempo para uma banda existir, e eles se mantiveram tenazmente sua posição como porta-bandeiras da cena de rock de Nova York, que decididamente chegou ao seu crepúsculo por mais tempo do que qualquer observador poderia ter previsto.

Assistindo a Julian, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti tocando juntos era notável perceber como eles mantiveram o ar de indiferênça (marca registrada deles) intacto. Havia uma sensação de obrigatoriedade que era algo igualmente marcante e pesaroso de se ver.

Já não são os homens de reputação de indiferentes, desanimados e intoxicados (salvo por Julian). Em seu lugar havia um amontoado de piadas de pai,reclamações sobre o "monstro tecno" tocando à distância, e política.

Em dado momento, Julian comentou que havia um clima bom entre os integrantes naquele palco. A resposta mais alta foi um "Yeah, bitch" no meio da multidão.

Mesmo com vários jovens na multidão, a passagem do tempo pairava sobre toda a perfomance. “Você sabe o que é legal sobre os Strokes?” uma mulher que parecia estar nos seus trinta anos gritou para seus amigos.“Eles são velhos. Eu baixei o disco deles, droga!”

Pais e mães velhos o suficiente para testemunhar a primeira leva da Strokes-mania estavam ao lado de seus filhos, ainda cantando histórias de amassos no banheiro, farras regadas a álcool e sexo por uma noite apenas. 

Não há nada mais esquisito que Casablancas cantando letras como “Yeah, we were just two friends in lust / And baby, that just don’t mean much”(em tradução livre: Nós éramos apenas dois amigos na luxúria/ E baby, isso não significa muito) para uma platéia repleta de pais que geraram filhos em circunstâncias parecidas.

Em contraste, todos aqueles com menos de 30 anos foram apenas capazes de reunir um fiapo de animação quando uma música como “Reptilia”, que marcou presença na franquia de jogos Guitar Hero, tocava no show.

Is This It e Room on Fire, os primeiros discos dos Strokes, ainda definem e confinam a banda, quase duas décadas depois. Havia uma correlação direta durante a noite entre quando no catálogo da banda a música foi lançada e a resposta da platéia - quanto mais antigo, melhor.

A estrutura simplista da música, solos de guitarra agressivos e ganchos niilistas que remoldaram o rock do início dos anos 2000 foram tão eficazes em incitar a pequena e apaixonada multidão da noite de quinta-feira. Mas também ilustrou a escassez de sucessos do mundo real que a cena criou. Os solos de guitarra de Albert Hammond Jr. obtiveram mais sucesso durante o show do que os reais refrãos das músicas, contudo.

A única coisa que não mostrou sinais de envelhecimento foi a voz de Casablancas. Seus característicos gemidos apáticos se espalharam pela multidão; seus companheiros de banda pareciam contentes ao ver que tudo funcionava muito bem ainda.

Na hora que “Someday” fechou o show, todas as fichas da nostalgia tinha sido usadas. Tudo o que foi deixado em seu rastro foi admiração - nesta banda que durou através de inúmeras implosões, nesta forma de rock que dura por tanto tempo e em quão longe a prolífica carreira da banda os levou.

“Você tem que ser um pouco mais sutil quando se puxar o saco” disse Julian durante o set. Ele estava se referindo a tendência de músicos de outros lugares dos Estados Unidos que, quando se apresentam pela primeira vez em Nova York, dizem que aquele é um momento "mitológico" para as suas carreiras. 

O Lollapalooza Chicago 2019 não contribuiu para o legado dos Strokes, mas provou que ninguém está pronto para desistir deles ainda.

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