Político, desorientado e expansivo: The 1975 não busca o padrão, mas a excentricidade em Notes On A Conditional Form [REVIEW]

O disco da banda britânica lançado nesta sexta, 22, expõe a criatividade complexa de Matty Healy, George Daniel, Ross MacDonald e Adam Hann

Isabela Guiduci Publicado em 22/05/2020, às 07h00

None
Capa Notes On A Conditional Form, do The 1975 (Foto: Divulgação/Reprodução)

Expansivo é o melhor adjetivo para definir The 1975 - que não é pop, rock, ou alternativa, mas é tudo o que estiver disposta a experimentar. A banda britânica não segue o padrão ou o óbvio, mas o desconhecido e o excêntrico. A identidade do grupo, reflexo dos 18 anos de carreira, é sentir, saber, experienciar e testar em níveis viscerais a criatividade - e o disco Notes On A Conditional Form autentifica isso. 

+++LEIA MAIS: Matty Healy do The 1975 desafia lei anti-LGBTQ+ e beija rapaz em Dubai

Notes On A Conditional Form é o quarto disco de estúdio da banda. Após ser adiado algumas vezes, o novo trabalho foi lançado nesta sexta, 22, e a espera foi significativa. O álbum é uma viagem excêntrica e desconfortável que permeia 22 músicas e quase 80 minutos de produção. 

O lançamento segue o terceiro disco, A Brief Inquiry on Online Relationships, aclamado pela crítica e que apresenta um grupo mais maduro, direcionado e disposto a aperfeiçoar cada detalhe. Já o novo trabalho é mais desorientado e expansivo, embora se preocupe com a qualidade sonora. 

Não é surpresa, contudo, que o resultado é diferente do esperado - The 1975 não busca ser previsível ou agradável e se encaixar em gêneros musicais, mas sim explorar diversos estilos e sonoridades.

+++LEIA MAIS: Reviews de The New Abnormal, o novo disco do The Strokes: ‘Volta da velha magia’, ‘música de fundo’ e ‘os melhores criadores de riffs’

Como foi escrito e produzido durante a turnê de A Brief Inquiry on Online Relationshipsentre agosto de 2018 e fevereiro de 2020, o álbum foi gravado em uma ponte aérea entre Londres, Los Angeles, Brisbane, Sydney, Viena e incontáveis lugares pelos quais passaram em um ônibus-estúdio. 

O disco, portanto, faz jus às tantas viagens, se mostra sem fronteiras e explora os mais diversos sons - que vão desde o pop, rock, folk até o punk, o screamo e pequenas influências do country. Com tamanha experimentação e complexidade, o resultado comprova a genialidade de Matty Healy (vocais), George Daniel (bateria), Adam Hann (guitarra) e Ross MacDonald (baixo). 

As letras com muita poesia e palavras certeiras apresentam um Healy disposto a falar tudo o que ama ou incomoda - de política aos relacionamentos complexos. O vocalista não esconde os sentimentos e se entrega criativamente nas músicas a partir deles.

+++LEIA MAIS: Review: BTS é milimétrico com disco Map Of The Soul: 7 ao entregar uma declaração de amor ao Army

Em todas as composições, o vocalista contou com o apoio de George Daniel. Apenas em três, as canções foram escritas com ajuda externa, sendo "Tonight (I Wish I Was Your Boy)" que teve auxílio de No Rome, "The 1975" escrita com Greta Thunberg e "Don't Worry" que é uma faixa original de Tim Healy.

Mais uma vez, a parceria entre Matty Healy e George Daniel se mostrou bem-sucedida. Todas as faixas foram produzidas pela dupla. Em "People", "If You're Too Shy (Let Me Know)", "Me & You Together Song", "Guys" e "Roadkill", os músicos contaram com a colaboração de Jonathan Gilmore.

Ainda, diferente dos outros trabalhos, o The 1975 trouxe participações externas com Phoebe Bridgers em "Jesus Christ 2005 God Bless America", "Then Because She Goes", "Roadkill"e "Playing On My Mind"; FKA Twigs em "If You're Too Shy (Let Me Know)" e "What Should I Say"; Tim Healy em "Don't Worry"; e Cutty Ranks em "Shiny Collarbone".

+++LEIA MAIS: Calm, do 5SOS, tem a missão de trazer guitarras de volta ao pop - e construir a identidade geracional da banda [REVIEW]

Certamente 22 músicas é uma escolha arriscada que acarreta erros, porque com tanto conteúdo, as canções podem tornar-se desconexas. Por conta da excentricidade, este descuido pode causar um desconforto. Além disso, reafirma a desorientação e o desinteresse em construir uma linha sonora racional ou comercial, e dá espaço, portanto para a criatividade.  

Há um diálogo visível, mesmo que distante, entre as 22 músicas - seja em melodia, letra ou sons experimentais. Como de costume, o disco abre com o self-titled da banda, "The 1975". Dessa vez, contou com a participação da ativista ambiental sueca de 17 anos, Greta Thunberg. Logo no início, ela discursa: “Estamos agora no começo de uma crise climática e ecológica. E precisamos chamar o que é: uma emergência. Devemos reconhecer que não temos a situação sob controle”. 

Os posicionamentos políticos da banda sempre foram claros. No novo disco, gritam isso na segunda música, "People"  - que explora um lado punk, incluindo um screamo inusitado do vocalista. "A economia é um caso perdido. A república foi para o saco", canta Healy

+++LEIA MAIS: As reviews de Gigaton, disco do Pearl Jam: ‘Pessimismo de Eddie Vedder’ e ‘o melhor em 20 anos

Em seguida, o interlúdio que encerra a Music For Cars, projeto do grupo presente nos discos anteriores, "The End Music For Cars" soa como a abertura magistral de um trabalho que será desconfortável e aconchegante - um convite para uma viagem sem forma e desorientada. "Frail State of Mind" complementa essa sensação. 

"Streaming" tem uma ligação direta com "The Birthday Party". A última, "Jesus Christ 2005 God Bless America" e "Playing On My Mind" contemplam uma melodia suave e lenta sem sintetizadores e beats eletrônicos que dão lugar ao violão. As três exploram elementos sonoros vistos com frequência no segundo disco, I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It em músicas como "She Lays Down". 

Acompanhado de beats e sons computadorizados, o lado pop dialogou com influências oitentistas em "Then Because She Goes", "If You’re Too Shy (Let Me Know)" e "What Should I Say". "Me & You Together Song" revive elementos do pop dos anos 2000 e flerta com o gênero comercial da época. 

+++LEIA MAIS: Todos os discos do Slipknot, do pior ao melhor [LISTA]

Mesmo com novas experimentações em Notes On A Conditional Form, "I Think There’s Something You Should Know" resgata elementos do The 1975 apresentado no álbum auto-intitulado lançado em 2013. 

A décima música, "Roadkill", soa como uma viagem - com uma leve inclinação ao country, principalmente no refrão, a canção explora uma direção até então desconhecida pela banda e o resultado é, de fato, curioso. 

Outra faixa que também apresenta a criatividade complexa e interessante de The 1975 é "Shiny Collarbone" - com beats eletrônicos, reggae, e hip hop, a canção só comprova o inesperado, o expansivo e o desconfortável. 

+++LEIA MAIS: 6 discos essenciais para entender o metal dos anos 1970: De Deep Purple a Black Sabbath

Como não é possível esperar nada e você pode se surpreender a qualquer momento ao longo do disco, "Nothing Revealed/Everything Denied" é diferente do som costumeiro do grupo e traz um arranjo instrumental combinado à performance do Coral Gospel Comunitário de Londres.

Para fechar o disco, uma ode à amizade dos quatro integrantes foi a escolhida, "Guys". Com a melodia lenta, Matty Healy agradece aos companheiros pelos anos de banda e diz que eles são “a melhor coisa que já aconteceu” na vida dele.


+++ VITOR KLEY | A TAL CANÇÃO PRA LUA | SESSION ROLLING STONE