Black Pumas: como um discípulo de Prince e um cantor desconhecido deram um novo ar para o soul psicodélico

Nomeados ao Grammy como Artista Revelação, Adrian Quesada e Eric Burton formam o duo autêntico norte-americano

Nicolle Cabral Publicado em 13/05/2020, às 07h00

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Adrian Quesada e Eric Burton formam o Black Pumas (Foto: Divulgação)

Adrian Quesada enviou uma solicitação para participar da chamada de vídeo”. A notificação apareceu do lado direito da tela do computador no Zoom, aplicativo de conferência remota. Foi por volta das 16h da tarde de uma terça-feira que o músico, produtor e metade do Black Pumas separou alguns minutos para conversar com a Rolling Stone Brasil.

Em vídeo, Quesada aparece no estúdio caseiro considerado o sonho de qualquer músico: instrumentos por toda parte - guitarras, violões e teclados. "Esse usamos bastante no Black Pumas", aponta para o órgão eletrônico posicionado à direita do artista. 

Quesada está em Austin, no Texas, com a esposa Celeste e a filha Amelie em isolamento social - medida preventiva para conter o novo coronavírus. A rotina de quarentena tem sido dividida entre passar mais tempo com a família para cozinhar, assistir a filmes e criar composições. “Tenho passado bastante tempo no meu estúdio fazendo músicas”.

O duo, formado por ele e Eric Burton, estava em turnê na América antes de os shows serem adiados por causa da pandemia. As datas do Brasil, inclusive, foram remarcadas para os dias 15 e 16 de janeiro de 2021 em São Paulo (SP) no Cine Joia e em Piracicaba (SP) no Teatro Erotides De Campos, respectivamente. A pausa na agenda de apresentações, portanto, o obrigou a buscar uma nova rotina. 

Entre o processo criativo e as receitas culinárias, o músico comenta sobre a diferença de produzir neste período e lamenta sobre a falta de pessoas ao redor. “É a minha parte favorita de fazer música: ter vários artistas criando algo no mesmo lugar. Agora tenho feito tudo sozinho. Algo que eu já fiz, mas há muito tempo”.

Quesada, antes de encontrar a própria metade, o parceiro Burton, no soul psicodélico contemporâneo, teve reviravoltas na carreira. Cresceu em Laredo, no Texas, tocou em uma banda de punk-jazz, a Blue Noise Band, e durante 15 anos esteve à frente do Grupo Fantasma. A banda de funk latino foi, inclusive, recrutada por Prince para uma série de shows na casa noturna Glam Slam na década de 1990. 

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Em Las Vegas, no Club 3121, em uma apresentação de abertura também liderada pelo cantor, o Grupo Fantasma esteve presente como banda residente para tocar todas às quintas-feiras - por indicação do próprio Prince - até 2007. 

A rotina com o grupo multi-facetado aconteceu, no entanto, até o momento em que o guitarrista precisou sair de cena para questionar as próprias ideias musicais. Durante esse período, chegou até a colaborar com outros músicos como Daniel Johnson, Kali Uchis e a banda My Morning Jacket.

Quando, em 2017, precisou buscar uma voz para o novo projeto autoral e voltado para o soul - gênero que sempre o influenciou musicalmente, mas não teve o próprio espaço no catálogo do artista. O contato com Burton aconteceu por meio de um amigo em comum. "Eu não sabia quem o Eric era e vice-versa". 

Antes de conhecer Quesada, Burton foi artista de rua no píer de Santa Mônica e no centro de Austin logo após se formar. A carreira musical do artista começou na igreja e no teatro no Vale de São Francisco. "Cresci protegido pela igreja", disse o músico em uma entrevista a Rolling StoneEUA quando citou as referências musicais e a criação da mãe bastante religiosa. 

O produtor, portanto, depois de assisti-lo em alguns vídeos antigos no YouTube ligou para o jovem músico. "'[Burton] é um cara genuinamente apaixonante'. Esse foi o primeiro pensamento que tive ao falar com ele no telefone - estava muito barulho, eu mal conseguia ouvi-lo. Mas a energia dele é algo incrível, muito inspiradora". 

Os primeiros encontros, é claro, foram no estúdio de Quesada - o mesmo que conheci virtualmente. "Falamos sobre música de imediato". Até uma noite em que eles foram em um bar beber algumas cervejas e conversar um pouco: "Percebi que tínhamos muitas coisas em comum, além da música, como jogar basquete e assistir a filmes muito bobos". Quesada conta que quando está com Burton, fora da rotina musical, eles adoram assistir Nacho Libre: Tudo pela Crianças, comédia estrelada porJack Black

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A conexão musical e a grande amizade, enfim, deu origem ao Black Pumas em 2018. Com o lançamento de "Black Moon Rising", o duo assinou um contrato para produzir um disco com a ATO Records (o selo co-fundado por Dave Matthews). 

Com o disco homônimo, Black Pumas soou como duas peças de LEGO se encaixando perfeitamente. A voz gentil e potente de Burton entregou a atmosfera sonora ideal buscada pelo produtor para complementar as faixas repletas de bateria, guitarra, baixo e órgão elétrico.

Ao longo das 10 músicas do álbum, o duo visita à década de 1960 e 1970 - de forma divertida e não pretensiosa - e volta autêntico, principalmente pelas faixas "Black Moon Rising", "Colors", "Fire" - grandiosa pelo saxofone -, "OCT 33" - com o solo de guitarra e violinos perfeitamente alinhados - e "Touch The Sky" (a atmosfera da cidade do Texas é incontestável nesta faixa). 

A indicação ao Grammy Awards 2020 na categoria de Artista Revelação evidenciou ainda mais a elegante sintonia de Burton e Quesada e colocou a dupla nos holofotes. No momento, com uma agenda de shows em espera, a dupla se mantém com mais de um milhão de ouvintes mensais no Spotify - e o single "Colors" liderando a lista com mais de 15 milhões de streams na plataforma.

Além disso, a dupla realizou uma live, em parceria com a Fender e a Toyota, no Facebook em abril. "Foi estranho", conta o artista sobre o novo formato de shows. Para ele, a experiência foi assustadora, mas engraçada. "Precisei tocar as primeiras músicas para me sentir um pouco mais relaxado. É estranho por não ter ninguém no local".

"Mas acho que teremos que consumir música assim por um tempo", ele completa. Para o futuro do Black Pumas os planos são otimistas - mesmo durante a pandemia. Segundo o produtor, um novo disco está a caminho. "Queremos gravar um novo álbum, tenho escrito bastante, assim que conseguirmos juntar tudo, vamos lançar. Eu não penso que temos o disco inteiro finalizado, mas temos músicas que estão quase prontas".  

Com apenas dois anos de formação e originado por duas realidades completamente diferentes, o Black Pumas se projeta surpreendentemente como uma das vozes representantes do soul psicodélico contemporâneo com coesão e excelência. O duo é o reflexo do exato momento em que almas gêmeas se encontram musicalmente.


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