2021 com o pé direito: Julico, do The Baggios, fala sobre novo selo de discos de vinil, Limaia [ENTREVISTA]

O músico lança Ikê Maré, sua estreia solo, em azul celeste - e começa uma nova fase analógica da carreira

Yolanda Reis | @_ysreis Publicado em 21/12/2020, às 18h15

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Julico fotografa oara Ike Maré (Foto: Victor Balde)

A última década foi um tanto diferente. A música viu surgir a maravilha do streaming, e viu sumir cada vez mais as cópias físicas. Em 2018, a venda digital foi maior que qualquer outra. De modo ironicamente paralelo, outro modo de ouvir música brilhou loucamente nesse mesmo ano: os discos de vinil venderam quase o dobro do que no ano anterior (que também havia sido ótimo para o formato vintage).

As vitrolas ficaram mais e mais populares depois disso. Em 2019, a cada quatro discos físicos vendidos nos EUA, um era vinil. Em 2020, tudo ficou ainda melhor: os discos venderam mais que CDs pela primeira vez em 40 anos!

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Então, esqueça o digital. O legal é ser analógico.

Julico, do The Baggios, sabe disso. Por isso começa 2021 dentro da tendência: prepara-se para lançar o selo Limaia Discos, especializado em discos de vinil. A inauguração das prensas é com Ikê Maré, a estreia solo dele - acostumado a tocar com The Baggios.

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Limaia já chega linda. O vinil e Ikê Maréé um 180g azul celeste. A pré-venda no site é de cópias autografadas - sai R$ 100. Também existem kits com bolsas, camisetas, pôsteres, tudo exaltando a brasilidade natural do disco de Julico. Os envios começam em 9 de fevereiro de 2021.

Em entrevista para Rolling Stone Brasil, Julico contou sobre a jornada para fazer um disco solo, estrear um selo novo, dar um passo no vinil, e até enfeitar as paredes da sua casa. Veja:

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Pode me contar como decidiu lançar seu disco em vinil?

A gestação de um álbum é algo que leva muito tempo, no caso do Ikê Maré foram dois anos, quando nasceu no formato virtual já foi uma emoção, mas confesso que minha maior expectativa é poder lançá-lo na mídia física, aí sim vou considerar um parto completo.

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Ele já foi pensado para vinil, tanto na sequência das músicas, quais iam ficar no lado A e quais iriam ficar no lado B...  É uma outra relação de como consumir música. Costumo mergulhar fundo na estética sonora e em toda amarração conceitual do álbum. Então, com isso, desejo que ele seja ouvido do começo ao fim, como um unidade, apesar das músicas terem suas independências.

Outra coisa que valorizo muito é o material gráfico, as pessoas já estão ficando habituadas a escutar música sem reparar nos detalhes da capa, na ficha técnica, e disso eu sinto falta demais. Venho comprando discos em vinil há dez anos e fico fascinado quando me deparo com discos com ótimos trabalhos gráficos, com uma mixagem decente, e masterização própria para vinil que é bem diferente da master para streaming e para CD.

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No caso do som do vinil, é algo que chega mais macio, com menos compreensão, os graves e agudos ganham mais dinâmica e destaques, é um som mais puro e sem muito processamento, e a finalização é puramente analógica. Todo esse conjunto de detalhes me encanta e me faz querer ter em LP meus discos favoritos , além de querer lançar todos os materiais que venho produzido.

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Foto de Victor Balde

Você inaugurou, com Ikê Maré, o selo Limaia Discos. Como tomou essa decisão de começar um selo para vinis?

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Era um sonho distante pra mim até o começo da pandemia. Prensar vinil hoje custa caro, é preciso estudar tudo com muito cuidado, e estar por dentro do público que segue a banda para saber se vamos ter pelo menos um número mínimo garantido de compradores.

Em agosto, The Baggios anunciou as últimas 110 cópias dos álbuns Vulcão e Brutown, e foi vendido em menos de um mês. Foi surreal! Viamos vendendo em shows algumas unidades, algumas outras na loja online, mas nunca tivemos uma demanda tão grande como essa.

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Isso com certeza me incentivou a tirar esse plano do selo do papel, já que minhas tentativas de possíveis parceiros para lançar o Ikê Maré foram frustradas. Dava pra entender também, o disco ainda não havia sido lançado, não tinha rolado uma resposta do público para ele, mas eu estava e estou confiante que é um disco que traz como foco uma linguagem musical muito presente nos consumidores de vinil, então entrei de cabeça nessa e fiz o investimento, tirando a grana que me rendia na poupança e investindo nesse projeto que, ainda bem, tem me deixado cada vez mais otimistas e rendido muitas alegrias.

Tanto o álbum, que vem sido muito bem citado pela crítica e pelos fãs, e também com os vinis (que ainda estão em fase de pré-venda e já venderam quase um terço da tiragem). Acredito que, quando começar a distribuição com os lojistas e o disco chegar mais forte nas pessoas, eu consiga ter um bom número vendido antes do disco sair da fábrica.

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Quais são seus planos para Limaia? Vai lançar mais discos, seus, de outras pessoas…?

Tem sido um laboratório pra mim ter meu disco como o primeiro lançamento, já tive uma pequena experiência com os discos da Baggios, mas não me envolvi com a distribuição em lojas, vendíamos para um outro lojista. O primeiro passo foi dado, e já tenho um segundo lançamento para o primeiro semestre 2021, que será a edição do primeiro álbum da The Baggios que completará dez anos e será lançado em vinil pela primeira vez com nova masterização e um material gráfico especial para o formato.

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O selo está ainda sendo gerado, chegando nas manhas, dando um passo de cada vez  e entendendo o mercado, conhecendo a distribuição em lojas e vendedores virtuais, montando uma cadeia de contatos. Sobre ter outros nomes no selo, é algo possível, vou adorar construir um catálogo, mas ainda é cedo para pensar nisso.

Hoje em dia esgotar trezentas cópias de disco não é tarefa fácil, ainda mais sem shows acontecendo. Então, minha ideia é ter no máximo três lançamentos no ano, nessa primeira fase. Estou sempre conversando com quem atua a mais tempo na área, pegando dicas, conselhos e assim vou ganhando segurança. Vamos ver o que o futuro me apronta.

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Nos últimos anos, principalmente a partir de 2017, o mercado de vinil cresceu no mundo inteiro. O que acha que está por trás desse retorno ao consumo?

Creio que tem algo com ressignificar a relação das pessoas com a música. Nem todos curtem esse novo mercado dos singles, de ouvir música somente em playlist, então acredito que essa volta mais forte nos últimos tempos está alinhada a busca de novas/velhas maneiras de ouvir música.

Eu escuto música pra valer desde o final dos anos noventa, e minha relação lá era outra, tinha pouquissimo acesso aos discos que conhecia em revistas e TVs, CDs importados eram caros e raros na minha cidade, então quando eu conseguia um, eu dissecada ele todo, lia todas as letras, ficha técnica, cada detalhe do encarte, música por música, talvez as pessoas estejam sentindo falta disso.

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Claro que tem o lado do som analogico, da estética sonora, arte gráfica grandona, tudo isso é um grande atrativo pra quem ama música, e isso ainda vai render algumas outras gerações, porque a tecnologia para fabricação dos discos não parou, então a tendência é ter ainda mais qualidade no som do LP.

O que significa Ikê Maré?

A palavra me foi dada no processo de composição da música tema do álbum.  A música fala sobre as pelejas da vida, e eu precisava dar nome àquela força que me resgatara em vários momentos trevosos, e como boa parte da composição surgiu na beira do mar a palavra "maré" martelava na minha cabeça.

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Esse nome inventado em um momento de inspiração também representa para mim uma força da natureza que rege o tempo, uma espécie de orixá  que vive nos mangues sancristovenses e que acabou sendo peça central do disco. As idas e vindas, as cheias e as secas das marés tem muito a ver com nosso ciclo da vida, com o nascer e morrer todos os dias, sobre recomeçar ou começar do zero. Vejo nessa simbologia uma ligação forte com o que buscava dando início a um trabalho novo paralelo a The Baggios.

Contudo, o tempo é responsável por reforçar nossas armaduras, essas que nos protegem do que nos faz mal e ajuda a lidar com mais clareza com os momentos desarmoniosos da vida.  tudo que foi ainda é, mas em forma de ensinamento,  maturidade e amplitude nas visões dos infinitos caminhos que podemos seguir.

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Qual foi, pra você, a maior diferença em fazer um projeto solo? Qual sua parte favorita dessa jornada - e o que mais faz falta em relação a um grupo?

Senti-me muito animado em criar algo do zero, sem cobranças em relação a qualidade de gravação, estética sonora, sem preocupação com a hora no estúdio, já que gravei quase tudo no meu quarto. Era o que eu queria, ter total liberdade para criar algo diferente da The Baggios, e justificar ter um projeto paralelo.

A primeira vez que pensei nisso foi quando notei que sobravam muitas músicas que nunca foram aproveitadas em trabalhos posteriores, então como componho muito, vi que cabia um outro projeto para poder lançar outras músicas que não cabiam na banda.

Falando da estrutura da canção, nesse projeto eu foquei mais em refrões, num formato mais simples na escrita e também deixando a guitarra como coadjuvante em vários momentos. Quis explorar mais o groove do soul, funk e do samba rock, algo que já aparece na Baggios de uma maneira mais tímida e nesse disco eu pude explorar com mais força.

A parte favorita foi poder acordar no meu home estúdio todos os dias com guitarras ,violão e pedais espalhado pra tudo que é lado e saber que eu tinha tempo de sobra para poder experimentar cada um deles nas composições do álbum. A parte do grupo que eu sinto falta principalmente é da convivência, das trocas de ideias entre as músicas, explorar a experiência e visão de cada um. Os caras são meus irmãos, sinto saudades deles, apesar de morarmos próximos não nos encontrando pessoalmente para tocar .

Pode contar como foi a produção de música deste trabalho solo? Escrita, gravação, composição etc

Comecei compondo rascunhos no violão e gravando no celular. Algumas outras eu já comecei a compor gravando no computador e experimentando montar batidas com loops de percussão ou bateria. Na maioria das vezes eu começo com um riff, ou um groove, para assim colocar uma melodia e só depois escrever as letras. Tem letras que surgem mais rápido, mas é a parte que mais acho difícil de finalizar.

Teve músicas, como "outrora," que surgiram de uma maneira inusitada: após uma sessão de meditação, cochilei e me acordei com a melodia dela na cabeça, gravei ainda grogue no celular e só no outro dia gerei uma demo mais audível e comecei a criar a letra.

Quando acumulei umas 15 músicas legais eu quis começar a ensaiar com banda, dai chamei meus amigos Luno Torres, Leo Airplaine e Ravy Bezerra para ensaiar as músicas e tentar gravar algo em conjunto, mas só tivemos três ensaios, e voltei a fazer turnê com a Baggios até o fim do ano de 2019. Como queria lançar algo esse ano, mudei os planos e acabei fazendo uma pré-produção com Ravy na bateria no meu estúdio mesmo, para que ele já fosse gravar a bateria com a estrutura da música já fechada.

Chegou em fevereiro de 2020 e eu fui na casa de um amigo no povoado Caipe Velho (nome de uma das faixas), na minha cidade natal, para gravar as baterias e acabei gravando alguns baixos e violões também. Era uma casa na beira do rio Vaza-Barris (nome de outra das faixas). Não tinha tratamento acústico então improvisamos com colchões, dica do engenheiro de som Dudu Prudente, responsável por colher o som da bateria.

Com bateria gravada, voltei para casa para seguir gravando guitarras, violões, vocais, teclados que ate então nunca havia gravado, entre março e junho. As participações dos discos, cada um gravou da sua casa também.

Até agora, Ikê Maré se mostra um trabalho bastante visual, com clipes bem montados (e bastante bonitos). Qual seu processo criativo para desenvolver, além da musicalidade, uma narrativa visual?

Vejo essa parte visual como um grande aliado e potencializador para música. Não porque vai trazer números no YouTube, mas porque é algo a mais para mergulhar na canção, de ter mais detalhes daquele universo proposto em cada música.

Quando componho um álbum busco criar um universo consistente para as canções, as letras acabam se completando e narrando algo conectado entre si, então quando nasce uma canção carrego junto cenários, elementos, cores, e naturalmente me vão surgindo alguns insights para possíveis videos. As ideias podem ser aplicadas por completo ou fazer uma versão reduzida e mais objetiva, depende muito do que se tem disponível para investir.

Tive muitas ideias que nunca pude colocar em prática por questão de planejamento e  financeira também. O filme demanda uma logística monstra e sempre contamos com grandes amigos parceiros para fazer acontecer. Hoje, para lançar um disco, é um prato cheio para exercitar as criações visuais, seja por meio de clipes, capas, posters, itens de merchandising, e por aí vai.

O primeiro clipe da The Baggios que eu gravei foi em 2007 com um celular emprestado de um amigo que filmava em 3gp e foi também um motivo para aprender mexer em programas de edição. De lá pra cá nunca mais parei de pesquisar e aprender.

Mais algo que queira acrescentar?  
Que meu disco está em pré-venda no site do selo onde também já tem disponível camisas e em breve terá prints e ecobags com  ilustrações que fiz inspirado no álbum Ikê Maré: https://www.limaiadiscos.com.br