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Entrevista: Tecladista do Queen revela vício de Freddie Mercury em jogos de tabuleiro

Longe dos holofotes, Spike Edney compartilha os 35 anos de história do Queen

Andy Greene, Rolling Stone EUA Publicado em 29/08/2019, às 12h35

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Spike Edney (Foto: Xavi Torrent/Redferns/Getty Images)

É quase impossível encontrar Spike Edney no vídeo da lendária apresentação do Queen no Live Aid, mas se você pausar aos 12 minutos e 22 segundos, quando "Hammer to Fall" está chegando ao fim, você consegue vê-lo no segundo plano. 

Queen o contratou um ano antes desse show para contribuir com os teclados, piano, backing vocals e guitarras. Desde então, Edney completa a icônica banda de rock. Para ser mais exato, ele participa das apresetanções desde o show do Freddie Mercury em 1992 no Wembley Stadium, o musical West End We Will Rock You e a turnê em andamento com Adam Lambert

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Edney desempenhou um papel vital no Queen nos últimos 35 anos, mas muitos fãs nem sabem o nome dele. E assim que o grupo encerrou a parte norte-americana da turnê Rhapsody, a Rolling Stone EUA ligou para ele para falar sobre a longa trajetória na banda, a experiência do Live Aid, a chegada de Lambert e o que será do Queen no futuro. 

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Como está indo a turnê?

Eu diria que "fantástica" é a palavra. As duas turnês anteriores nos mostrou que estamos em uma curva ascendente mas o Bohemian Rhapsody nos levou a outro nível. Acho que o público de ontem a noite [em Nova Orleans] cantou um dos coros mais altos que eu já ouvi. Todo mundo parece estar gostando. 

Quais são as suas primeiras lembranças do Queen? 

Estava lendo sobre eles no Melody Maker no início dos anos 1970. Fiquei, em primeiro lugar, indignado com o nome [risos]. "Como eles se atrevem a se alinhar com a família real?" A primeira música que ouvi foi "Now I’m Here". E eu sou fã de soul. Meus heróis são o Stevie WonderSly and the Family Stone

Naquela época, eu era viciado em música americana por música britânica. O cabelo grande e as camisas acetinadas do mundo do glam rock não eram para mim. Eu preferia Earth, Wind and Fire, que também usavam camisas acetinadas, suponho.

Eu então ouvi o Queen em um show especial na rádio e inicialmente achei uma banda pesada e com arranjos complexos. Mas gostei de "Now I'm Here" porque não seguia um padrão de composição habitual. Não foi escrita como uma música pop óbvia, como o que todo mundo estava fazendo naquela época. Mas eu não era fã. Eu era um observador interessado.

Sinto que Freddie se tornou mais  um mito do que um humano de carne e osso para as pessoas. Como era o verdadeiro Freddie? 

As pessoas que realmente o conheciam eram Jim Beach e Mary Austin. Eles eram os mais próximos dele e estavam com ele na transição de ser um astro. Como ele era? Muito engraçado e mas também muito reservado e tímido. Ele soltava sua "diva do rock" interior no palco e nos bastidores ele preferia viver a vida tranquila. Este é o Freddie que eu conhecia.

Além disso, ele era tão famoso que era muito difícil para ele sair em público. Sua vida pessoal era mais reservada e ele permitia que apenas algumas pessoas fizessem parte. Por um tempo, eu fui nas festas na casa dele. Quando estávamos em turnê e ele não podia sair, ficávamos no hotel, íamos até a suíte e jogavávamos Trivial Pursuit.

Ele era bom? 

Sim. Ele era muito competitivo em jogos de tabuleiro. Scrabble era o seu grande talento e ainda é o do Roger. Eles costumavam ter grandes competições de Scrabble. 

Você lembra da primeira vez em que ouviu a possibilidade de tocar no Live Aid?

Eu lembro de fazer uma turnê com Bob Geldof e The Boomtown Rats quando comecei a trabalhar com o Queen. No final da European Works, o single do Band Aid [Do They Know It’s Christmas?] saiu no Natal de 1984 e fez um grande sucesso. Então eu voltei para o Queen para participar do Rock in Rio. Depois disso, houve um espaço na agenda e eu fiz algumas datas com os The Boomtown Rats. Em março ou abril de 1985. 

Durante a turnê, sentei no ônibus e Geldof me disse: "Vamos fazer um show e ter todas essas bandas perto, Led Zeppelin e etc". "E como está isso vai funcionar?", questionei. "Nós vamos ter isso em Londres e na América." "Isso nunca vai acontecer. É algo muito grande de montar", enfatizei, mas ele insistiu. 

"Quero que você peça para o Queen fazer isso por mim". Perguntei a ele: "Por que você não pergunta a eles?" e Geldof me respondeu: "Se eu telefonar para eles e fizer um grande caso com isso e eles disserem não, só vai me irritar."

E então eu perguntei para o Queen em nome dele. Estávamos indo para a Nova Zelândia em uma turnê e, no jantar, eu disse: "Geldof me perguntou se vocês estão interessados nessa sugestão ridícula de tocar no Estádio de Wembley e na América ao mesmo tempo". Acho que John Deacon quem disse: "Por que ele não nos pergunta?”, e eu disse que assim que ele dissesse qual era a resposta, ele perguntará. E tudo aconteceu.

Como foi a turnê de 1986?

Foi um resultado do Live Aid. A popularidade estava crescendo e passamos a fazer shows em arenas, em 1984, e depois fomos para estádios. Foi o último show de Freddie e a última apresentação adequada do Queen e não foi filmada. 

Você esteve muito envolvido no show de tributo ao Freddie em 1992, certo?

Sim. Eu estive muito envolvido nisso. Em algum lugar, tenho um pedaço de papel com todos os nomes originais. Colocamos uma lista de desejos de todos os nomes daqueles que achamos que deveriam tocar e o que eles deveriam cantar. Foi alterado, mas não tanto. Lembro de estar em um estúdio no norte de Londres, olhei para baixo como se fosse uma sala de espera de médico e estava lá David Bowie, Annie Lennox, Elton John e Robert Plant. Todos ficaram ali, esperando a sua vez. Foi muito engraçado e surreal!

A primeira turnê americana [com a nova formação, que inclui Adam Lambert] foi um pouco desconhecida. E a banda não fazia turnês nos Estados Unidos efetivamente desde 1982. Eu imagino que os promotores estavam em dúvida. 

Nós tínhamos fé, mas havia essa coisa na platéia. Alguns diziam: "Isso não é o Freddie. O que eles pensam que estão fazendo?". Algo como "Se Freddie não está no Queen, qual o sentido de vê-los?". Essa foi a recepção que tivemos dos fãs mais antigos. Mas uma vez que eles viram o que Adam trouxe para o palco e quanta vida ele colocou no material, ele os conquistou. E olha só onde estamos hoje. 

Como você se sentiu quando viu a possibilidade de ter um filme sobre o Queen? Você ouviu falar sobre isso antes?

Hmmm, incialmente, suspeito. Mas para ser sincero, eu acho que Rami Malek fantástico e merece o Oscar. Ele fez um trabalho maravilhoso. Mas o que Hollywood faz com esse tipo de história é que eles movem a história para atender às suas necessidades dramáticas. E então penso que é uma versão da verdade. Vamos dizer assim. 

Foi estranho assistir como fã e ficar tipo, "Espere um minuto. Eles não escreveram "We Will Rock You" nos anos 1980. E eles não se separaram antes do Live Aid.

Sim, todas essas coisas. É assim que o entretenimento moderno funciona. Ele vem na TV e isso se torna a verdade.

Tenho certeza de que foi estranho assistir aos eventos em que você foi apresentado dessa forma

Eu tenho que morder minha língua, eu admito, mas é assim que o entretenimento popular é. Vamos encarar. Filmes são feitos e os fatos são o que eles querem que eles sejam.

O lado bom é que o filme apresentou a música de Queen a um público totalmente novo. 

Sim! Já estávamos em alta desde a turnê anterior. Mas a capacidade de comercialização e o poder dessa atração foi crescendo à medida que as pessoas entendiam o impacto de Adam e diziam: "Ele é um bom homem para fazer isso".

Mas o filme ampliou totalmente isso. Eu acho que eles provavelmente poderiam fazer turnê pelo resto da vida. Essa jornada poderia durar para sempre. Não vai, no entanto. Mas é interessante observar e ver as pessoas cantando animadamente junto a todas as músicas que estavam no filme e todas as que não estavam ficarem um pouco inexpressivas. 

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