Nicky Hornby, Murakami e mais: 7 escritores com livros repletos de referências musicais

Como a música inspirou a narrativa de grandes nomes da literatura mundial

Julia Harumi Morita Publicado em 01/09/2019, às 13h00

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Beatles, Haruki Murakami e Beethoven (Arte: Julia Harumi Morita)

A música é inevitável. A mistura de sons, ritmos e melodias deu origem a uma das mais antigas artes conhecida pelo homem, presente nas culturas de todo o mundo, segundo uma pesquisa de Harvard. A humanidade canta para comunicar sentimentos, dançar de alegria, curar doenças e colocar seus bebês para dormirem.

A arte foi feita para expressar o mais complexo grau de criatividade do ser humano e por isso é comum que as obras transcendam as áreas categoricamente nomeadas - artes plásticas, arquitetura, cinema, pintura, e todos os outros nomes que definem esses campos abstratos.

A literatura, a arte de criar textos, frequentemente flerta com outros campos artísticos ou matérias de estudo para alcançar novos formatos de escrita e descrição. Aldous Huxleyescreveu no livro Música na Noite: "Quando o inexpressável tinha que ser expressado, Shakespeare abaixava sua caneta e chamava pela música".

E Shakespeare não foi o único autor que compreendeu o poder da música nos textos e a utilizou para inspirar personagens e cenários ou para reger o ritmo das ações dentro de uma narrativa.

Confira aqui 7 grandes nomes da literatura mundial que produziram obras repletas de referências musicais:

Haruki Murakami

Uma noite em Tokyo, sentado em uma mesa de bar, bebendo cerveja e ouvindo The Beach Boys em uma jukebox. É assim que Haruki Murakami convida o leitor para seu universo de realismo mágico, onde tudo pode ser banal ou excepcional.

O escritor japonês aficionado por música já confessou ter uma vasta coleção com cerca de 10 mil discos, em entrevista ao The New York Times. Partindo desse fato, não é nenhuma surpresa que um dos elementos comum entre suas obras seja a música.

Do rock clássico à música erudita, o autor cita diversas canções ao longo de suas narrativas, tanto para criar uma ambientação precisa, como no livro Norwegian Wood (1987) que dedica sua trilha sonora silenciosa aos Beatles; quanto para criar um símbolo, como em O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação (2014).

Para os fãs do autor: Em seu site oficial estão disponíveis a relação de suas principais obras e as músicas citadas nelas. Confira aqui.


James Joyce

Filho de um cantor entusiasta, James Joyce herdou a paixão do pai pela música e estudou canto e piano quando ainda era criança. Seu vasto conhecimento musical foi essencial para definir estilo de escrita que oscilava entre o lirismo e o simbolismo. 

O autor escreveu romances e poemas idealizados para serem músicas, que já foram compilados no CD Music From The Works of James Joyce, interpretadas pelo cantor Kevin McDermott e o pianista Ralph Richey. Elas também podem ser facilmente encontradas no Spotify.

A pequena aldeia na Irlanda em que nasceu é o local onde Joyce cria suas histórias. O autor utiliza o fluxo de consciência e letras de música, escritas por ele mesmo, como guia dos enredos. 

Suas principais obras são: Música de Câmara (1907), Dublinenses (1914), Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (19922) e FinnegansWake (1939), que recebe o nome de uma balada tradicional irlandesa.


Mário de Andrade

Um dos grandes nomes da literatura brasileira moderna, Mário de Andrade foi, entre suas diversas ocupações, professor de música e um dos pioneiros no estudo da etnomusicologia, ciência que estuda a influência da música em um espaço cultural.

Um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, Andrade afirmava que “a língua brasileira é das mais ricas e sonoras”. Nas suas obras é perceptível a influência da música para criar uma nova estrutura de texto e personagens com uma estética autêntica e representativa na cultura brasileira.

Na poesia, o autor foi inovador na vanguarda futurista ao trazer conceitos musicais, melodia, harmonia e polifonia, para suas obras. Andrade dividia seus versos em três tipos: melódicos, harmoniosos e polifônicos, além de escrever indicações sonoras para eles. São alguns exemplos dessa fase poética: As Juvenilidades Auriverdes, Os Sandapilários Indiferentes e Minha Loucura.


Milan Kundera

Milan Kundera é outro artista que se aventurou no mundo da música e da escrita. Quando ainda era criança, ele aprendeu a tocar piano com seu pai, que era um dos grandes pianistas da Tchecoslováquia, e mais tarde estudou musicologia. 

O autor já analisou o trabalho dos músicos  Ludwig van Beethoven e Arnold Schoenberg, e até mesmo colocou partes de partitura entre seus textos, como no ensaio intitulado de Um Encontro (2009). 

Em sua obra mais famosa, A Insustentável Leveza do Ser (1984), Kundera compara a vida humana com a música. “Elas são compostas como a música. Guiado por seu senso de beleza, o indivíduo transforma uma ocorrência fortuita (música de Beethoven, morte em um trem) em um motivo, que assume um lugar permanente na composição da vida do indivíduo”.


Nick Hornby

Homens na casa dos 30 anos enfrentando problemas emocionais são frequentemente os protagonistas das histórias do autor inglês Nick Hornby. Considerado uma das pessoas mais influentes na cultura britânica, sua carreira se destaca com os trabalhos cinematográficos, literários, musicais. 

Na primeira obra, Alta Fidelidade (1995), a música está presente como uma obsessão do personagem principal, que tem que superar seus vícios emocionais para conseguir criar relações estáveis com as pessoas ao seu redor. 

Fora do âmbito literário, Hornby colaborou com a banda Marah, com que se apresentou em alguns shows lendo textos de suas obras; e com o cantor Ben Folds, para quem escreveu as músicas do álbum Lonely Avenue.


Thomas Pynchon

Com citações de músicas no meio da narrativa, Thomas Pynchon, desenvolve uma linguagem própria dentro de uma escrita pós-moderna poética e picaresca, com personagens que se aventuram em suas  próprias paranóias. 

Em O Arco-Íris da Gravidade (1973), uma das maiores obras de ficção literatura inglesa, mais de 100 músicas são escritas por Pynchon em quase 800 páginas que contam a história de Tyrone Slothrop, que se encontra  no meio de uma Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial. Inspirada no livro, a banda The Thomas Pynchon Fake Book compôs músicas para as letras do autor.  

Vício Inerente (2009) é o último livro publicado do autor e já faz parte de seus trabalhos notáveis. As referências musicais no enredo são das variadas, indo desde Chopin até The Beach Boys.  E claro, também conta com canções originais.


Liev Tolstói 

O romancista Liev Tolstói,mundialmente conhecido por Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877), era um grande admirador da música erudita e dos artistas do seu tempo como Beethoven, Chopin, Haydn e Weber. O escritor russo, como a maioria dos membros de uma família nobre, estudou piano e chegou a escrever a valsa, chamada "Waltz in F". 

Tolstói define a música como “um meio de despertar sentimentos sólidos familiares ou transmiti-los”.  O escritor cita diversas vezes as sonatas de Beethoven, como por exemplo no livro A Sonata a Kreutzer (1890), em que aborda o tema do casamento e da sexualidade através do personagem Pozdnyshev que assassina sua esposa, uma amante da música clássica.

Outra obra que faz referência ao músico clássico é a A Felicidade Conjugal (1859), onde a heroína da narrativa cita a música "Quasi una fantasia" e proclama que Beethoven a "eleva a uma altura radiante".

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