Do One Direction a cogumelos: o crescimento de Harry Styles como um astro do rock

Dirigindo por aí com o ex-herói de boy band enquanto ele fala de sexo, psicodelia, e se tornar um astro do rock do século XXI

Rob Sheffield / Rolling Stone EUA Publicado em 26/08/2019, às 15h40

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Harry Styles (Foto: Reprodução / Ryan McGinley para Rolling Stone EUA)

Harry Styles não está exatamente vestido para negócio. Usa um chapéu branco bem grande que Diana Ross poderia ter ganhado do Elton John em um jogo de pôquer na casa de Cher em 1974, mais óculos escuros da Gucci, um suéter de caxemira, e calças bocas de sino de jeans azul claro. Seu esmalte é rosa e verde-menta. Também carrega uma bolsa - não há outra palavra para isso - grande, amarela, com o logo “Chateau Marmont.” E parece que as senhorinhas que trabalham nesse delicatessen de Beverly Hills o conhecem bem. Gloria e Raisa o mimam e o chamam de “meu amor” e trazem o seu pedido de sempre, uma salada de atum e café gelado. Ele faz cabeças virarem, por dizer assim, mas ninguém se aproxima porque as garçonetes ficam em volta dele de modo protetor. 

Há pouco ele era apenas um menino inglês de 16 anos nascido em cidade pequena, e então virou o ícone pop de sua geração com oOne Direction. Quando o grupo entrou em hiato, ele continuou sozinho com o seu ousado lançamento solo em 2017, cujo single principal foi a magnífica balada de seis minutos embalada por piano, “Sign of the Times.” E ao ouvir, mesmo aquelas pessoas que sentiam falta do One Direction ficaram chocadas em descobrir a verdade: esse pin up boy sempre foi um rockstar no fundo. 

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Harry foi o It Boy do mundo por quase uma década agora. O mais estranho disso? Ele ama. Nesse estilo de pista-expressa de celebridade que coloca pedágios na personalidade, criatividade e sanidade do artista, Harry  parece assustadoramente à vontade. Ele conseguiu crescer em público com todo seu entusiasmo infantil intacto, isso sem falar das boas maneiras. Namorou algumas garotas de renome - mas nunca foi pego sujando seus nomes em público, quem dirá envergonhando alguma delas. No lugar de seguir a típica estrada dos popstar - produtores em alta conta, duetos de celebridades, batidas dançantes - ele seguiu o próprio caminho e ficou mais popular do que nunca. Ele termina agora seu novo disco cheio de pensamentos e com as músicas mais cheias de alma que escreveu até hoje. Como ele explica: “é tudo sobre transar e se sentir triste.”

Saímos do restaurante e passamos uma tarde de sábado passeando em Los Angeles no Jaguar E-type prateado de 1972 dele. O rádio não funciona, então ele canta “Old Town Road.” Fica maravilhado; “bull riding and boobies’ - essa é a melhor letra de música que já existiu.” Harry costumava ser o menino-mistério do pop, tão diplomático e discreto. Mas conforme o tempo passa, ele se abre, conta sua história, e chega ao ponto de estar montando possíveis títulos para este perfil. O melhor deles: “Sopa, Sexo e Saudações Solares.”

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Como ele chegou nesse novo lugar? Parece que a jornada envolveu um pouco de corações partidos. Um pouco de ajuda de David Bowie. Um pouco de meditação transcendental. E mais um punhado de cogumelos mágicos. Mas, mais que tudo, é sobre um menino curioso que não conseguia decidir se queria ser o astro pop mais adorado do mundo ou um artista esquisitão. Então decidiu ser ambos. 

Estávamos a caminho do estúdio Shangri-La em Malibu. Foi onde Harry gravou um pouco de seu próximo álbum, e enquanto passava, mergulha em memórias. “Ah, sim,” diz. “Usei muito cogumelo aí dentro.”

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O psicodélico começou a ser peça chave no processo criativo de Harry. “Usávamos os cogumelos, deitávamos na grama para ouvir Ram do Paul McCartneysob o sol,” ele diz. “Ligávamos as caixas de som no jardim.” Os chocolates com maconha ficavam na geladeira do estúdio, perto do liquidificador. “Você ouvia o liquidificador e pensava ‘então, hoje vamos tomar frozen margaritas às 10h, ok.” Ele aponta para um canto: “eu estava ali quando usei os cogumelos e mordi feio a ponta da língua. Eu tentava cantar com todo esse sangue escorrendo. Tantas boas memórias…”

E isso não é só lenga-lenga e rockstar - é emblemático na sua nova mentalidade. Você entende que é por isso que ele ama tanto estúdios. Depois de vários anos fazendo discos para o One Direction em turnê, sempre com pressa, ele finalmente pode ter um tempo para si e abraçar a insanidade de tudo. “Ficamos aqui em Malibu por seis semanas, sem ir até o centro da cidade,” diz. “As pessoas traziam seus cachorros e seus filhos, fazíamos pausas para brincar as vezes. Valores familiares!” Mas também o lugar em que ele orgulhosamente sangrou pela sua arte. “Mushrooms and Blood [Cogumelos e Sangue]. Agora esse é um bom nome para um disco.”

Com o One Direction, fez três dos melhores e maiores discos de pop deste século apressadamente - Midnight Memories, Foure Made in the A.M. Fizeram os álbuns com pressa, parando no estúdio mais próximo quando dava tempo. 1D era uma mistura inusitada de cinco diferentes personalidades musicais: Harry, Niall Horan, Louis Tomlinson, Zayn Malik e Liam Payne. Mas deram um tropeção. Malik saiu no meio de uma turnê logo depois de um show em Hong Kong, e a banda anunciou um hiato em 2015. 

É tradicional para vocalistas de boyband, quando voam solo e crescem, renunciar seu passado pop. Todo o mundo lembra quando George Michael colocou fogo em sua jaqueta de couro, ou Sting saiu do Police para fazer jazz. Mas Harry Styles não pensa assim: “sei que sempre acontece, quando alguém sai de uma banda ficam ‘aquilo não era eu, estavam me controlando,’ mas era eu, sim. E não sinto que me controlavam de jeito nenhum. Foi muito divertido. Se eu não gostasse nunca teria feito; não era como se estivesse amarrado.”

Sempre que Harry fala do One Direction - nunca pelo nome, sempre “a banda” ou “a banda que eu fazia parte” - fala no passado. E é meu dever incômodo perguntar: ele vê o 1D como terminado? “Não sei,” responde. “Acho que nunca diria ‘não farei mais isso’ porque não me sinto assim. Se existir um dia em que todos nós queiramos fazer isso de novo, de verdade, só nesse momento poderemos fazer, porque não acho que deveríamos voltar por nenhum motivo além de todos nós estarmos tipo ‘hey, isso foi muito divertido, deveríamos voltar.' Mas até lá, sinto que estou gostando muito de fazer música e experimentar. Gosto demais de fazer música desse jeito para me ver mudando completamente e voltar a fazer aquilo. Porque também acho que se voltássemos a fazer as mesmas coisas do mesmo jeito, ainda não seria a mesma coisa, de qualquer maneira.”

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