Boca a Boca, a nova série brasileira da Netflix: 'Como ficam as relações físicas em um mundo cercado de telas?', diz Esmir Filho

A produção conta com uma composição original da Letrux e trilha sonora de Gui Amabis

Vinicius Santos Publicado em 17/07/2020, às 07h00

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Boca a Boca (foto: reprodução/ Netflix)

"Estamos em uma cidade onde a atividade principal é a pecuária", assim começa o diretor Esmir Filho a descrever o cenário do mais recente trabalho dele, a série Boca a Boca, da Netflix, que estreia nessa sexta-feira (17)." O nome dessa cidade é Progresso. Não é a toa que ela tem esse nome. Ela foi fundada por famílias de pais e mães conservadores, que valorizam bastante a tradição."

"A escola da cidade, responsável por orientar os filhos desses casais conservadores é a Escola Modelo. E essa fachada de cidade pacata e tradicional vai ser abalada por um surto epidêmico de uma doença transmitida pelo beijo."

Os paralelos com a realidade brasileira, principalmente nos tempos atuais, são intencionais e principal crítica que move a história dos adolescentes de Progresso, que expõem os segredos da cidade em busca da liberdade nas relações deles, coisa que Esmir Filho aborda com frequência desde longas como Saliva(2007) e Alguma Coisa Assim (2017).

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Esmir afirma que a coincidência dessa estreia no meio da maior pandemia da história, o surto da covid-19, também transmitida pelo contato físico entre pessoas infectadas foi surpreendente até para ele e a atriz Iza Moreira, que conversaram com a Rolling Stone Brasil sobre a série.

Mesmo assim, a criação da síndrome por Esmir emula uma realidade universal que pode ser identificada em todo e qualquer surto. "É claro que o 'vírus do beijo' foi algo que pensamos muito antes do coronavírus e mais como um recurso narrativo, uma força do antagonismo que vai mover os personagens, mas a reação da cidadezinha de Progresso ao surto é uma igual a várias pandemias da humanidade."

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"O comportamento das pessoas em outros surtos nos quais eu me embasei para a série é muito similar. Há uma atmosfera de pânico, medo, discriminação e eleição dos corpos, de quem tem acesso aos privilégios", completou.

Além dos paralelos entre ficção e realidade, Iza Moreira, que vive na série a protagonista Fran, contou como trabalhar em Boca a Boca deu a ela uma segunda família e uma compreensão maior sobre o momento atual:

"O contato meu com o Esmir e com o restante do elenco tem sido muito importante para mim nessa quarentena. Mesmo longe uns dos outros, nós nos conectamos de verdade e temos conversas online e trocas de experiências e apoio emocional que tem um valor enorme pessoal."

Vírus misterioso é transmitido pelo beijo em trailer da nova série ...
Iza Moreira como Fran em Boca a Boca (foto: reprodução/ Netflix)

 

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Dentro da história, a jornada de Fran e dos amigos Alex (Caio Horowicz) e Caio (Michel Joelsas) também é uma de conexão: O medo de os podres da cidade virem à tona após uma festa na qual o 'vírus do beijo' infectou vários jovens e a união deles para superar o preconceito e mudar paradigmas.

"A Fran e os amigos dela sentem a falta de uma conversa, uma troca com os pais sobre os problemas. A minha personagem sente isso não só quanto as questões sexuais e de identidade, mas também sobre a classe social dela", explica Iza Moreira.

"Ver ao redor da Fran e depois refletida em coisas que eu vivi o que eu chamo de 'nova senzala', os desafios atuais da periferia," completou.

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E não só aspectos da sociedade brasileira são usados para dar vida a série, mas também técnicas de filmagens atuais. Filmar conversas de WhatsApp, as lives de Instagram, para construir diálogos, criar drama com cenas inteiras de personagens apenas encarando telas. Nada mais adolescente em 2020 do que isso.

Outra parte autenticamente brasileira é a trilha sonora. "A série começou comigo pela música," conta Esmir Filho. "Minha vontade era fazer uma história sobre uma região rural, mas com eletrônico e pop tocando ao fundo. Gui Amabis foi vital para isso, compondo trilhas com sintetizadores, mas também com instrumentos nacionais, como cordas e até berrantes, já que estamos numa zona pecuarista."

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"Ainda temos músicas estrangeiras na tracklist para mostrar como os temas, apesar de locais, podem ser apreciados por qualquer um. Faixas como 'Is It Medicine Or Social Skill', do The Knife, 'Faceshopping', da SOPHIE e 'Come', de Mary Komasa dão internacionalmente a cara mais independente e moderna da série."

Artistas nacionais vem com força para terminar o mosaico musical de Boca a BocaTrupe Chá de BoldoBaco Exú Do Blues e uma composição 100% original da Letrux, exclusivamente para série, ou seja, não foi lançada em nenhuma outra plataforma da cantora, chamada "Vamos ter um causo".

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"Tudo que for ordem, vamos ser o caos / Se for pra andar pra trás, eu quero ser Progresso", são os versos de "Vamos ter um causo" que Esmir recita para materializar a saga dos adolescentes modernos e contra uma corrente conservadora de Boca a Boca. Todos os episódios da série brasileira estão disponíveis na Netflix.


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