Sandman: tudo sobre uma das maiores histórias em quadrinhos de todos os tempos, assinada por Neil Gaiman

Na estreia do audibook sobre as desventuras de Morpheus, relembramos o legado e a importância da publicação de fantasia

Vinicius Santos Publicado em 15/07/2020, às 07h00

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Capa de Sandman (foto: reprodução/ DC Comics - Vertigo)

Em 13 de maio deste ano, Neil Gaiman, autor, roteirista e produtor de algumas séries/filmes que adaptam livros dele e que você provavelmente já viu (como Coraline e o Mundo Secreto, de 2009, Deuses Americanos, de 2017 e Good Omens, de 2019) anunciou pelo Twitter que a produção mais importante e premiada dele, a HQ Sandman, seria adaptada para um audiobook da plataforma audible, da Amazon, com um elenco de astros nunca antes visto na modalidade áudio-drama.

Nomes como James McAvoy(Fragmentado, de 2016) como o misterioso protagonista Morpheus, Kat Dennings (Thor, de 2011) como a versão mais adorável da Morte já feita, Michael Sheen (Frost/Nixon, de 2008) como Lúcifer, senhor do inferno, estão no elenco, além do próprio Gaiman que dessa vez saí dos bastidores para narrar a história, que estreia nesta quarta-feira (15).

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Assista ao teaser do audiobook abaixo:

Além do investimento massivo da Amazon para trazer a voz de estrelas do cinema para a produção, já é sabido há alguns anos que a Netflix fez um acordo milionário com a Warner Bros., proprietária da DC Comics, para adaptar a HQ em uma série.

Todo esse movimento da indústria para adaptar a obra levanta um questionamento honesto para aqueles que nunca leram Sandman: "Por que essa história com o mesmo nome dessa entidade folclórica chamada na língua portuguesa de João Pestana, que coloca areia nos olhos das pessoas que dormem, é tão valorizada até hoje? Ela importa tanto mesmo ou é só coisa de 'hipster'?"

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Serei honesto: ao primeiro contato, Sandman pode intimidar pelo volume. Com 75 revistas, publicadas de 1989 até 1996 e algumas histórias adicionais lançadas posteriormente, parece conteúdo demais para quem queria apenas entretenimento em quadrinhos.

Mas, garanto, é uma história belíssima, que pode ser consumida sem comprometimento (apesar da chance de se envolver e procurar tudo relacionado a obra ser alta), pois apela para o tipo mais puro de narrativas já contadas. Ler Sandman já foi descrito várias vezes como 'sentar-se a uma fogueira e ouvir lendas que entretém e explicam o mundo ao redor.'

Vamos, de forma breve, analisar a trajetória e o imenso legado das desventuras de Morpheus e repassar tudo que você precisa saber para sonhar sem medo, seja em HQ, série ou áudio-drama.


O despertar de um personagem adormecido

Wesley Dodds, a primeira versão do Sandman (foto: reprodução/ DC Comics)

Não é estritamente necessário conhecer as origens de Sandman para ler as HQs, mas com certeza é muito divertido e resume magnificamente a época da criação da história.

No final da década de 1980, marcada por grandes obras que contribuíram para elevar o status dos quadrinhos no mundo do entretenimento, como Watchmen(1986), V de Vingança (1982), ambos de Alan Moore e também Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller, os editores e administradores da DC tinham uma preocupação em comum: não deixar a fonte criativa de histórias mais maduras secar.

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Os criadores se reuniram numa biblioteca na cidade de Tarrytown, estado de Nova York, nos EUA, em meados de 1987, para propor estratégias de como manter as ideias novas fluindo. Uma sugestão foi empregar uma tática antiga do mundo das HQs, porém funcional: renovar personagens que caíram no esquecimento, entregando-os nas mãos de jovens e promissores escritores.

Um desses escritores era o inglês Neil Gaiman e o personagem que ele quis renovar chamava-se Sandman. Originalmente, em 1939, a publicação centrava-se em Wesley Dodds, um bilionário que combatia o crime de forma bem similar ao Batman, trajando um terno, máscara de gás (símbolo que Gaiman usaria no futuro) e uma pistola tranquilizante. Como ele botava os inimigos para dormir, assim veio a alcunha do ser folclórico.

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Porém, Wesley Dodds já havia sofrido uma reformulação nos anos 1970, pelo autor Joe Simon e o lendário ilustrador Jack Kirby. O segundo Sandman já seria um indivíduo capaz de navegar pelos sonhos das pessoas e combater pesadelos, coisa mais adequada ao mito. O personagem não deu certo. Apesar da proposta ambiciosa, ele era genérico e parecido demais com o super-herói clássico, de capa e collant:

Sandman de Simon e Kirby (foto: DC Comics)

Os fracassos na tentativa de modernizar a lenda urbana não desmotivaram Gaiman, pelo contrário, pareciam encorajar ainda mais o autor a dar vida a visão dele, como conta a editora da DC Karen Berger e criadora do ilustre selo Vertigo, destinado a histórias adultas.

Neil pedia a Berger constantemente para renovar Sandman, coisa que ele conseguiu em 1987, mediante uma condição: apenas manter o nome do personagem. Todo o resto poderia ser feito do jeito que ele quisesse. E assim fomos presenteados com Morpheus, o Sonho:

Sandman (foto: reprodução/ DC Comics)

Pele completamente branca, um manto escuro e simples, quase com uma impressão maltrapilha, cabelos caóticos que curiosamente lembram o penteado de Robert Smith, vocalista do The Cure e olhos negros como a noite com íris que, quando aparecem, são brilhantes como estrelas gêmeas. 

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Não é só esteticamente que o personagem se destaca, pois o Sonho é de longe o protagonista menos convencional de um quadrinho. Ele é um ser imortal, chamado de Perpétuo, uma personificação e guardião dos sonhos. Morpheus passou a existir desde um passado imemorial, quando a primeira criatura que era capaz de sonhar surgiu.

O avatar dos sonhos é um entre 7 irmãos, todos igualmente representações de aspectos comuns a todos os seres vivos: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (sim, todos os nomes deles em inglês começam com D). Os 7 perpétuos não são deuses, mas sim entidades além da divindade, responsáveis pelo ordenamento da realidade conhecida. Só a existência deles mantém coeso o universo físico e toda a vida.

Percebe-se logo com a descrição do protagonista que Gaiman queria criar um mito moderno, para explicar o mundo com fantasia. Mas, como esse personagem, maior que a vida e quase maior que o tempo, chega até o leitor na primeira revista? Ele é capturado nos anos 1910 por ocultistas que, na verdade, queriam aprisionar a Morte:

Neil Gaiman — For people who want to start reading Neil Gaiman's...

Mopheus permaneceu aprisionado numa redoma de vidro durante cerca de setenta anos antes de conseguir se libertar e, enquanto isso, o mundo humano é afetado por sonhos intranquilos, duas guerras mundiais e uma guerra fria. Após escapar, ele deve recuperar seus objetos de poder: a algibeira de areia dos sonhos, seu elmo e o rubi dos sonhos.

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E é nesse momento que o leitor, já fascinado pelo protagonista 'diferentão', parte junto com ele para conhecer um mundo onde os sonhos são mais reais que nunca, mesmo que continuem sem ser feitos de matéria ou partículas. 

Combine essa premissa extraordinária para dar o pontapé inicial numa história com o trabalho de artistas incríveis, como o ilustrador Mike Dringenberg e o lendário capista e colaborador de longa data de Gaiman, Dave McKean, e temos o seguinte resultado:

Visions Of Horror] Dave McKean's Cover For 'The Sandman' #1 ...

Estar numa banca nos anos 1990 e encontrar uma revista com essa capa entre tantas dos X-Men, Liga da Justiça e Homem-Aranha era uma descoberta intrigante para o fã. O sucesso da terceira vinda do Sandman foi imediato. Tanto que é a única HQ que entrou para a lista de 100 melhores best-sellers literários do The New York Times. O mesmo jornal descreveu a revista como "quadrinhos para intelectuais".

Caso você ainda não tenha se convencido da qualidade dessa história, vamos analisar trechos do primeiro arco de revistas de Sandman, intitulado "Prelúdios e Noturnos" para constatar o grande sucesso e poder de Gaiman em criar um mito, mesmo no mundo moderno.


O poder de um mito

In Which Dream Arrives At The Gates Of Hell, in Rob C.'s X - The ...
Morpheus nos portões do inferno (arte: Jill Thompson)

Como dito anteriormente, após se libertar, Morpheus precisa recuperar objetos de poder perdidos no momento em que fora capturado. O elmo dele (curiosamente muito parecido a máscara de gás do Sandman original) foi parar no inferno, em posse do demônio Choronzon.

Mesmo enfraquecido, o perpétuo confronta as hordas de criaturas horrendas sem perder a postura calma e soturna. É aí que, numa decisão para se divertir de maneira sádica com o senhor dos sonhos, Choronzon propõe apostar o elmo dele em um fascinante jogo de imitação da realidade:

mayoi-boshi: Sandman

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Ao comando de Lúcifer, todos os demônios se acomodam no club de jazz montado dentro do inferno para observar a disputa do Sonho e Choronzon. A batalha consiste do demônio apresentar um conceito da realidade que o protagonista deve derrotar com uma resposta a altura. 

Choronzon se anuncia como um lobo selvagem que devora a presa. Sandman responde que é um caçador montado a cavalo que mata o lobo. Assim segue um confronto intelectual que mostra como os mitos, as figuras que transcendem as eras através das histórias, tem grande poder. 

Quando percebe que Morpheus tem uma reação para cada ataque dele, Choronzon apela e diz: "Eu sou a anti-vida, a besta do julgamento. Eu sou a escuridão no fim de tudo. O fim dos universos, deuses, mundos... te tudo! E o que você é, mestre dos sonhos?" 

Sandman responde calmamente: "Eu sou a esperança." Uma vitória incontestável.

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Esse é apenas um dos diversos momentos que a HQ une mitos antigos, como demônios e batalhas que parecem saídas de contos de fadas, para renovar na imaginação do leitor a importância desses elementos na vida, além de contar uma boa história.


Então... Por onde começar?

Sonho de uma noite de verão

Essa é sem mistério. "Prelúdios e Noturnos" é o começo ideal para quem quer mergulhar em Sandman. O primeiro arco pode ser encontrado em inglês nas plataformas digitais e foi republicado no Brasil recentemente pela editora Panini Comics. Também se encontra no primeiro volume das famosas edições definitivas, que dividem as 75 revistas em 5 livros.

Porém, logo depois de ler "Prelúdios e Noturnos" é bem seguro dizer que o céu é o limite. As revistas de Sandman viajam quase que descompromissadamente pelos milênios de aventuras de Morpheus, então não existe uma ordem necessária para ler e entender as histórias.

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Quer conhecer os outros perpétuos? Eles aparecem mais notavelmente nos arcos "Estação das Brumas" (#21 - #28) e "Vidas Breves" (#41 - #49). Alías, conhecer os irmãos de sonho é altamente recomendável para quem deseja iniciar pelo audiobook da Amazon.

Por exemplo, é vital saber que Desejo é um ser andrógeno, com aspectos de ambos homem e mulher, o que torna a escolha de Justin Vivian Bond, cantor e ator não-binário, mais do que apropriada e indicativo do investimento e fidelidade da produção.

Ou, talvez esteja curioso para ver as histórias na qual William Shakespeare aparece (que renderam a premiação da publicação no World Fantasy Awards), o que no caso leva para o arco "Terra dos Sonhos" (#17 - #20) e para a revista de número 75.

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De qualquer forma, uma vez habituado a Sandman após o brusco primeiro contato, a história torna-se uma das mais inclusivas e compreensivas obras da história da literatura, com um potencial único de fascinar, educar e, claro, fazer o leitor sonhar.


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