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Rolling Stones: Por que disco Let It Bleed se relaciona tanto com os tempos atuais?

Clássico dos Rolling Stones, Let It Bleed continua sendo o disco mais sombrio da banda, e soa perfeitamente nos dias de hoje

Rob Sheffield / Rolling Stone EUA Publicado em 17/04/2022, às 13h00

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Ronnie Wood, Mick Jagger, Charlie Watts e Keith Richards, dos Rolling Stones, em show realizado em 2019 (Foto: Rich Fury/Getty Images)
Ronnie Wood, Mick Jagger, Charlie Watts e Keith Richards, dos Rolling Stones, em show realizado em 2019 (Foto: Rich Fury/Getty Images)

Dezembro de 1969: Os Rolling Stones fecham a triunfante década com um novo disco. Chamado Let It Bleed, as canções exalam morte, escuridão, desgraça e destruição. Logo no início, é repleto de más notícias, com acordes arrepiantes na abertura de “Gimme Shelter.”

“É uma espécie de música de fim do mundo, na verdade. É um apocalipse; todo disco é assim,” compartilha Mick Jagger à Rolling Stone, em 1995. “É uma era muito difícil e violenta. Guerra do Vietnã, violência nas telas, pilhagem e destruição.”

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50 anos após o lançamento, Let It Bleed é extremamente atual. Em meio a todo o caos, os Stones fizeram uma obra-prima digna do título de melhor disco rock&roll para os tempos sombrios. Mais tenebroso, mas também mais engraçado — isso sem mencionar o melhor.

O disco Let It Bleedfoi lançado nos dias finais de uma década inesperada para a banda ou qualquer outra pessoa. “You Can’t Always Get What You Want,” “Monkey Man,” “Midnight Rambler” — são avisos de como os sonhos dos anos 1960 estão prestes a explodir na piscina de Brian Jones, para nunca mais voltar com vida.

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Os Stones passaram o verão de 1969 fazendo sucesso com o produtor Jimmy Miller, começando em Londres, mas terminando em Los Angeles. É o momento retratado por Quentin Tarantino em Era uma vez... em Hollywood, com almas perdidas vagando pelas ruas.

Ouça o disco Let It Bleed:

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Os Stones captaram o desespero sórdido no ar como ninguém. No álbum, como no filme, nunca sabe quando o cigarro impregnado de ácido irá explodir em uma violenta orgia noturna.

Os Stones transformaram Let It Bleed em uma nuvem de más vibrações - em outras palavras, uma zona de conforto. É o álbum do Keith, no qual toca quase todas as guitarras. As drogas ficavam mais mortais. (Como Keith disse à Rolling Stone em 1971: “Não siga meu exemplo. Veja Jimi Hendrix. Ou não.”) As guerras. Os motins. Os assassinatos. Tudo apenas a um tiro de distância.

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A Edição Deluxe Limitada do 50º Aniversário conta toda a história do disco, com remixes estéreo e mono com novas nuances da música. A versão realça os detalhes, desde os gritos gospel de Merry Clayton em “Gimme Shelter” até a harpa automática de Bill Wyman no início de “Let It Bleed.”

Há também uma reprodução do single original “Honky Tonk Women,” além de um livro de 80 páginas com ensaio de David Fricke e fotos inéditas de Ethan Russell. Mas não importa a maneira,Let It Bleed nunca para de ocasionar novos arrepios e surpresas.

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Ouça a edição de luxo dos 50 anos do disco Let It Bleed:

Os Stones não o planejaram para ser a lápide da década. Estavam apenas tentando quebrar um recorde antes das apresentações nos Estados Unidos. Para o clímax da turnê, anunciaram um show gratuito no Golden Gate Park, em São Francisco, EUA.

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Qual melhor lugar para superar Woodstock e resumir as esperanças e os ideais dos anos 1960 — na mesma rua de Haight-Ashbury? Mas o sonho acabou. No último minuto, o show foi realocado para Altamont Speedway e se transformou no banho de sangue dos Hells Angels visto no filme Gimme Shelter. Os Stones lançaram Let It Bleed um dia antes de Altamont.

Brian Jones não estava mais presente para intervir no som de Keith com dulcimers ou marimbas — toca apenas algumas músicas, adicionando uma percussão quase inaudível. Tragicamente, Brian desmoronava após constantes embates policiais em Londres.

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Em uma das típicas apreensões, alegaram encontrar haxixe no apartamento de Brian, escondido em uma bola de lã azul. A defesa do músico no tribunal foi clássica: “Nunca tive um novelo de lã na minha vida. Não tricoto meias.”

Mas o britânico já não funcionava musicalmente. Brian não tocou “You Can't Always Get What You Want” - apareceu no estúdio, mas não se deu ao trabalho de levantar e ligar o instrumento. Como organista Al Kooper disse à Rolling Stone: “Estava apenas deitado de bruços, lendo um artigo sobre botânica.”

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Enquanto faziam “Honky Tonk Women,” Jagger, Richards e Charlie Watts dirigiram direto do estúdio para a casa de Brian e oficialmente o despediram. Na semana em que “Honky Tonk Women” conquistou primeiro lugar, Brian morreu na piscina de casa. Como Pete Townshend compartilhou à Rolling Stone na época: “Oh, um dia normal para Brian.”

Honky Tonk Women” tornou-se hit do verão iniciado tão alegremente com “Aquarius (Let the Sunshine in).” O falecido e grande Nick Tosches descreveu o choque de ouvi-lo pela primeira vez, em uma jukebox de bar: "Exibia a indolência, como alguém que cochila enquanto transa."

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Brian está na capa do álbum, sorrindo, embora já estivesse morto. Também está presente o substituto de 20 anos, Mick Taylor, na plataforma giratória alguns centímetros abaixo de Brian. Os Stones estrearam oficialmente com Taylor no show gratuito do dia 6 de julho em Hyde Park, Londres.

A performance foi um memorial para Brian - borboletas foram lançadas no ar enquanto Mick lia o poema Adonais de Shelley para a multidão. Perceberam a possibilidade de realizar o mesmo show gratuito na Costa Oeste alguns meses depois. Mas a Califórnia não era Londres, os Hell's Angels não eram borboletas e dezembro não era julho. Por Altamont, a Era de Aquário foi enterrada ao lado de Brian.

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Let It Bleed continua a comédia sexual mais engraçada dos Stones: Mick faz piada com seus suspiros de colegial devido ao som na guitarra de Keith. As músicas atingem todos os extremos emocionais: o vocal áspero de Keith em "You Got the Silver," o blues solitário de Mick em "Love in Vain" de Robert Johnson, o aristocrata burlesco de "Live With Me." Mas se algo resume o clima, é o show de terror “Midnight Rambler” - o épico blues na qual Mick fala sobre todas as más notícias de dezembro.

Hoje em dia, Let It Bleed pode não ter o mesmo valor do disco Exile ou Sticky Fingers, mas está pronto para ser redescoberto. Como Greil Marcus escreveu na crítica original da Rolling Stone, é sobre "esta era e o colapso de sua liberação brilhante e frágil". De certa forma, os Stones guardam o momento mais assustador para o final: “You Can’t Always Get What You Want.”

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Mas assistir os Stones tocar no palco atualmente, em uma versão simplificada para quatro homens, é um lembrete do espírito hardcore da música. É o mesmo apocalipse de “Gimme Shelter,” mas com toque eterno no fim da música, constantemente se esforçando e falhando para conseguir o desejado, enfrentando compromissos e traições da vida cotidiana.

Cinquenta anos depois, é como uma história que nunca envelhece. E é por isso que Let It Bleed teimosamente se recusa a desaparecer da história - como os próprios Stones.