'Quer que desenhe?' O novo papel das charges e como elas ganharam sobrevida nas redes sociais

Conversamos com Laerte Coutinho e Nando Motta sobre a importância do desenho crítico

Camilla Millan Publicado em 22/07/2020, às 07h00

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Charge de Laerte Coutinho (Foto: Reprodução/Instagram)

As charges não são uma novidade no Brasil. O estilo de ilustração repleto de sátira e ironia é um grande conhecido em território nacional, principalmente quando se trata de criticar acontecimentos, políticos e governos - e no caso de 2020, não é diferente.

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As críticas fizeram - e ainda fazem - das charges grandes odiadas por políticos, e com as mídias sociais elas ganham um alcance ainda maior. Recentemente, esse desgosto pelos desenhos pode ser percebido por parte de Jair Bolsonaro, que se incomodou com uma ilustração do artista Renato Aroeira.

Após o presidente pedir para os apoiadores dele invadirem hospitais, Aroeira criticou a postura do governo por meio de uma charge. Na ilustração, Bolsonaro estava associado à uma suástica nazista. Segundo o jornal Metrópoles, o presidente acionou órgãos nacionais para intimidar o artista e tentou enquadrá-lo como ameaça à Lei de Segurança Nacional, que lista crimes contra a “ordem política e social”, “terrorismo” e “inconformismo político”. 

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As ilustrações sempre ocuparam um lugar de ataque aos governos. Na época da Ditadura Civil-Militar, os chargistas conseguiam desviar da censura justamente pelas mensagens de duplo sentido e o humor - e o incômodo de governantes é uma das maneiras de perceber que a charge está, de fato, no caminho certo.

A importância de juntar humor e crítica 

A charge surgiu na Europa no século 19 por críticos políticos que viram na ilustração uma possibilidade de expressão. Os desenhos alcançaram popularidade, principalmente por conseguirem informar sem exigir, necessariamente, leitura ou conhecimento em determinados assuntos - para compreender a ilustração, basta saber o que acontece ao redor. Por esses e outros motivos, a importância da charge é indiscutível.

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, a cartunista e chargista Laerte Coutinho, considerada uma das maiores artistas do país, falou sobre: “As charges têm uma função única, porque não é onde se encontram notícias, nem onde se leem os argumentos com que colunistas defendem pontos de vista. Nela está um comentário de humor, sobre o momento político que se vive. Um comentário de ataque, em geral”.

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Repleta de diversos elementos, como linguagem verbal, não-verbal, ironia, humor, metáforas, alegorias e outros, a charge consegue criticar situações de forma única. Os recursos dela  “têm um efeito que não se acha em outro lugar do jornal, revista ou mídia eletrônica”, explicou Laerte

 
 
 
 
 
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Nando Motta também vê no desenho uma maneira de transmitir mensagens para o maior número de pessoas. Ele é ilustrador, músico e ator, e ganhou popularidade no Instagram com a publicação das artes críticas no perfil "Desenhos do Nando".

“Elas [charges] conseguem transmitir informações complexas de uma maneira mais sintética e bem humorada ou, às vezes, mais reflexiva. De todo modo, é a aquela máxima: 'Quer que eu desenhe?' Essa linguagem do desenho e da ilustração se conecta com o inconsciente coletivo de uma maneira muito potente”, disse o artista.

No entanto, essa relevância da charge como uma forma de crítica humorada ganha ainda mais importância no momento atual. Devido à pandemia de coronavírus, crise política e mobilizações antirracistas, as ilustrações ocupam um lugar ainda maior de transmitir informação.

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Para Laerte, neste momento é importante que a ilustração não perca as próprias características: “[O papel dela] é ser charge, em qualquer contexto. É praticar sua abordagem característica, em relação a qualquer assunto. O que vai definir o conteúdo desse trabalho é o modo como o chargista pensa e elabora a realidade; quer dizer - suas ideias”.

Nando Motta também falou sobre as principais características da charge na atualidade: “O papel dela é mostrar, escancarar, sabe? Botar o dedo na ferida, fazer refletirem. Às vezes, é fazer uma arte tão representativa que pode virar o slogan de uma ideia, sabe?”, explicou.

 
 
 
 
 
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João Pedro, 14 anos, mais uma vítima da necropolítica. Até quando?

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Segundo o artista, a informação transmitida pela ilustração é essencial: “O chargista é quase como um jornalista. Ele tem esse papel. Percebo isso muito com as charges que faço. Às vezes as pessoas vão ali comentar e não sabem nem o que aconteceu, e a partir disso elas vão entender e procurar qual notícia gerou aquele desenho? Acho isso bem interessante”.

Censura, ditadura e transformações

Na Ditadura Civil-Militar, as ilustrações burlavam a censura por meio de diversos recursos. Assim, conseguiam utilizar mensagens de duplo sentido, serem aprovadas para publicação e, ainda, criticar o governo autoritário. 

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Apesar de não estarmos mais em uma ditadura, as práticas de ataque à imprensa e ameaças a jornalistas são recorrentes, como no caso de Renato Aroeira, explicado no início desta reportagem. 

Atualmente, os desenhos podem circular com mensagens críticas mais diretas. Na opinião de Laerte, nos dias atuais há uma liberdade de expressão que possibilita uma diferente transmissão de conteúdo - e isso se reflete nas ilustrações.

“Se voltar uma censura, como boa parte do governo vem tentando, as mensagens cifradas voltarão a circular. Por enquanto não acho que isso esteja acontecendo. Em alguns casos, há certos significados ou mensagens que podem estar incluídos de forma secundária, mas não acho que se trate de camuflagem”, disse a artista.

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#Laerte 💊

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Apesar de não haver uma censura institucionalizada no Brasil, os conflitos ideológicos e discurso de ódio alteram a dinâmica das charges, uma vez que a intolerância ainda se faz presente das mais diversas formas. 

Nando Motta refletiu sobre uma liberdade com ressalvas: “O humor de duplo sentido na ditadura é genial. Tinham que se virar nos trinta lá, a gente que tem essa “liberdade” conquistada, não tem muito mais pudor, sabe? Evidente, hoje tenho um pouco mais de cuidado com algumas coisas, principalmente porque estamos vivendo um período de um certo obscurantismo ideológico”.

Segundo ele, o momento atual também conta com “uma perseguição, uma coisa meio assustadora”: “Você vê, para o Aroeira, que é um chargista, acionaram a Lei de Segurança Nacional sabe? Colocaram o Ministério da Justiça em cima de um desenhista e de um jornalista também, o Noblat”.

Segundo o Brasil de Fato, a ilustração de Roberto Aroeira, alvo de ataques e críticas por parte do governo, foi replicada pelo blog do jornalista Ricardo Noblat, que também foi processado pelo Ministro da Justiça, André Mendonça.

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Para Motta, essa atitude do governo faz com que ele “às vezes sinta medo”: “Sei que ainda tenho uma certa censura minha, mas tem uma galera que senta, larga o verbo, pesa mesmo. Às vezes eu dou uma pesada na caneta também, acredito ser necessário”.

Devido à perseguição dos colegas cartunistas, Motta "pesou a caneta" em ilustração divulgada em julho: “Fiz essa charge, que o New York Times citou, acerca do que tava acontecendo com Aroeira. Falava sobre isso. Era um boneco em vodu do Bolsonaro com várias canetas e lápis espetados nele. Embaixo, escrevi: “Incomoda, né?”.

 
 
 
 
 
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Incomoda né? #chargistascontracensura #somostodosaroeira

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Mídias sociais e sobrevida das charges

A charge pode, inicialmente, ter ganhado popularidade apoiada no meio físico, mas isso mudou. A publicações no papel, como revistas e jornais, continuam, mas as mídias sociais dão um maior alcance à ilustração.

Segundo Laerte, as redes sociais foram responsáveis pelas artes críticas alcançarem “um público maior e de forma mais rápida”. A cartunista também explicou que as plataformas online possibilitaram o surgimento de memes, “que não deixam de ser uma forma de charge”.

A única forma de publicação experienciada por Nando Motta foi pelas redes sociais: “Comecei lá atrás fazendo charge e postando no meu Facebook, no Instagram e eventualmente eu mandava para o site Brasil 247”. Atualmente, o artista faz ilustrações diariamente para o portal.

“Garanto que a penetração das charges via redes sociais é infinitamente maior [do que no meio físico], porque elas vão por todas as mídias. É Facebook, WhatsApp, Instagram… Então, isso facilita muito (...), às vezes fazemos charges que ganham o mundo, literalmente. É uma abrangência que a mídia impressa não consegue ter”, explicou.

 
 
 
 
 
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A Elite do Atraso!

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Diante dessa possibilidade de alcance das mídias sociais, as charges se tornam, mais do que nunca, um importante meio de informação diante das discussões atuais. Como reflexo dos acontecimentos na sociedade, as ilustrações mudam - tanto em relação ao conteúdo quanto em relação a quem as desenha.

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“O país é outro, as pessoas têm formações diferentes, as influências são diversas, há mais mulheres trabalhando, mais negros.... As motivações também são diferentes”, refletiu Laerte.

Segundo a artista, o momento atual de produção de charges se modifica devido ao cenário político: "Sinto que há uma questão central, embora a crise e os problemas se desdobrem em muitas áreas. Para mim, essa questão central é o governo desastroso e claramente ameaçador que elegemos em 2018".

Nando Motta também explicou sobre a relevância do conteúdo das ilustrações, principalmente no momento atual de reivindicações: “Tem coisas que a gente precisa falar. Precisamos falar sobre racismo estrutural. homofobia, LGBTfobia, desigualdade... É tanta coisa, e como se não bastasse, ainda temos um um governo que nos envergonha e nos faz perder a esperança no país”.

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