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Festival Forró da Lua Cheia contrapõe a força de Elza Soares e Ilú Obá de Min ao rock "escroto" do Camisa de Vênus

A 29ª edição do festival realizado em Altinópolis, no interior de São Paulo, também reunirá Planet Hemp, Ney Matogrosso, Djonga, Xênia França e Chico César

Igor Brunaldi, de Altinópolis* Publicado em 21/06/2019, às 17h42

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Elza Soares participou do show do coletivo Ilú Obá de Min (Foto: Indie Click / Divulgação)

Seria muito mais poético e profundo dizer que o Festival Forró da Lua Cheia, iniciado nesta quinta-feira, 20, ocorreu debaixo do olhar espantado da lua em sua fase cheia. Não foi o que se viu no céu sobre Altinópolis, no norte do estado de São Paulo, mas a culpa não era da lua, das estrelas ou de qualquer outra ironia astronômica. Foi bastante simples, na verdade: a data do festival foi marcada para coincidir com o feriadão de Corpus Christi e a lua, independente, chegou à sua fase cheia poucos dias antes.

Então, de forma minguante e ainda lindíssima (celebrada a todo momento, inclusive com uivos esporádicos por parte do público), ela recebeu o primeiro dos quatro dias do Festival Forró da Lua Cheia em sua 29ª edição (idade suficiente para torná-lo merecedor do título de tradicional) com nomes como Elza Soares, que fez uma apresentação junto com o coletivo Ilú Obá de Min, Camisa de Vênus, Braza e Carne Doce, atrações da primeira noite

Com esse cenário, o grupo Ilú Obá de Min, formado em 2004, subiu ao palco. Ou melhor, foi assim que o grupo de mãos femininas que tocam tambores para o Rei Xangô (significado do nome) tomaram para si o Palco Vale e fizeram uma performance que se eu classificasse apenas como “show” seria diminuir em inúmeros aspectos o que elas fizeram com o espaço e o tempo que lhes foi cedido.

Quem chegou ali às 21h30 presenciou um espetáculo sensorial que dificilmente será esquecido tão cedo. As integrantes ocuparam cada centímetro do palco principal do evento com cantos, gritos, louvores, palmas, agogôs, djembês, alfaias, xequerês, vestimentas tradicionais da cultura africana e uma força espiritual que foi claramente absorvida pela plateia e transformada em energia corporal que, por sua vez, virou uma coreografia quase sincronizada entre público e artistas.

Com o clima mais adequado possível, Elza Soares emergiu em meio ao grupo para somar ainda mais resistência a um ambiente que já carregava uma importância histórica sem igual. A cantora lendária se juntou ao batuque e apresentou faixas escolhidas a dedo para complementar a áurea exalada pelo coletivo, como as músicas “Dentro de Cada Um”, “O Que se Cala”, “Banho” e “Exu Nas Escolas”, do seu disco mais recente Deus É Mulher (2018), além de “A Carne”, do álbum Do Cóccix Até o Pescoço (2002).

Juntas e abençoadas pela lua, Elza Soares e as integrantes do Ilú Obá de Min homenagearam, com uma potência singular, a luta de todas as gerações passadas de mulheres negras, e deixaram claro não faltar força e união para as gerações atuais e para aquelas que estão por vir.

Em um certo momento, todas cantaram: “Mulheres guerreiras unidas / Esse mundo vamos dominar”. Se essa dominação ainda não tinha começado, ela certamente teve início na noite desta quinta, 20 de junho, no Forró da Lua Cheia.

A temperatura amena se foi com o fim da apresentação delas, e o frio se instaurou sem dó no começo da madrugada que introduzia a sexta-feira. Essa mudança do clima pode ser entendida tanto de forma literal quanto figurativa.

O grupo seguinte a subir ao Palco Vale foi o Camisa de Vênus, que logo no início deixou clara sua atitude: “Depois de 39 anos, essa é uma banda que continua escrota”, afirmou com orgulho o vocalista Marcelo Nova. E foi exatamente assim que eles seguiram, com um “show de rock” que aposta em uma fórmula sonora congelada há anos, com uma postura de “ser escroto” que se comunica mais (e talvez nem tanto) com um público mais velho e pouquíssimo com as cabeças atuais.

Sem qualquer indício de busca por uma atualização aos tempos modernos, a banda fez seu repertório baseado em supostos clássicos imortais como “Rock das Aranha”, que carrega a letra “Vem cá mulher, deixa de manha / Minha cobra quer comer sua aranha / Mas eu soltei a cobra e ela foi direto / Foi pro meio das aranha para mostrar como é que é certo”.

Apesar dos dois pólos criados pelas atrações mencionadas, o clima que predominou no primeiro dia do Festival Forró da Lua Cheia foi de tranquilidade, como uma enorme festa junina na qual o único gênero musical que conseguiu unir o público de diferentes estilos foi o que aparece em destaque no próprio nome do evento.

Espalhados pela enorme fazenda, alguns palcos menores reuniram grandes plateias dispostas a dançar forró juntinho e se aquecer, independente de dreadlocks, jaquetas de couro ou camisas xadrez.

O Forró da Lua Cheia continua nesta sexta, sábado e domingo, e terá show do Planet Hemp, Ney Matogrosso, Djonga, Xênia França e Chico César. Fiquem ligados aqui e também no Instagram para acompanhar a nossa cobertura completa.

* A reportagem viajou a convite do festival

 

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