Van Gogh: Artista vanguardista morreu sem sucesso, virou ícone e hoje está saturado? [ANÁLISE]

Há 130 anos, o pintor pós-impressionista se deitava no leito de morte e deixava um legado excepcional na história da arte

Julia Harumi Morita | @the_harumi Publicado em 27/07/2020, às 07h00

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Retrato de Van Gogh (Foto: Getty Images / Stuart C. Wilson / Correspondente)

Van Gogh é, definitivamente, um dos nomes mais populares da história da arte dos últimos tempos. As obras do pintor pós-impressionista podem ser facilmente vistas no dia a dia, seja nas estampas de capinhas de celulares, camisetas vendidas em lojas de shoppings ou memes da internet. 

Porém, a fama do artista veio tarde. Van Gogh teve uma vida pessoal e profissional conturbada, marcada por inúmeras polêmicas e rejeições. Antes de morrer, o pintor já não tinha forças para admirar o próprio trabalho, mesmo quando os quadros dele começaram a ganhar elogios de críticos especializados. 

Mas como um artista vanguardista rejeitado se tornou um ícone tão prestigiado na cultura pop ao ponto de ser tornar saturado? Para entender essa transição, a Rolling Stone Brasil separou os principais momentos da vida do autor e do legado artístico dele.

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Origens e início da carreira 

Vincent Willem Van Gogh nasceu na cidade de Groot Zundert, no sul da Holanda, no dia 30 de março de 1853. O nome do primogênito de Theodorus Van Gogh e Anna Cornelia Carbentus seguiu a tradição dos Vincents da família e homenageou o filho natimorto do casal, que receberia o mesmo nome. 

De acordo com a biografia homônima do artista, escrita por David Haziot, o vanguardista teve várias ocupações antes de iniciar a carreira artística, como vendedor de arte, professor e pregador. 

Aos 26 anos, Vincent decidiu investir na pintura após fracassar nos estudos de teologia para ser tornar padre como o pai. Com os contatos da família, principalmente do irmão Theo, o entusiasta conheceu grandes nomes do mundo artístico, entre eles Paul Gauguin, que ocuparia o lugar de mestre na vida do pintor.

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Crises, conflitos e arte  

Vincent tinha finalmente descoberto a profissão que iria acompanhá-lo para o resto da vida. Mas, como as outras tentativas, a carreira artística foi marcada por poucos pontos altos e muitos pontos baixos. 

O artista tentou aprender a pintar com aquarela, a técnica mais comercial da época, e estudar na Academia de Belas-Artes. Porém, os estudos duraram pouco tempo, porque, além de ser julgado inapto, Vincent sabia que a arte dele não deveria seguir antigos moldes e técnicas rebuscadas. 

Entre crises de depressão, criações e pequenas exposições, o pintor se sentia cada vez mais incompetente, sentimento que se agravou com as críticas do ídolo Gauguin. Após uma briga com o artista francês, Vincent cortou a própria orelha e a entregou para uma prostituta, segundo Haziot.

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Morte: O início da consagração 

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A Noite Estrelada de Van Gogh (Foto: Getty Images / Sean Gallup / Equipe)

Um ano e meio antes da morte, Vincent passou a ter episódios de agressão e alucinação cada vez mais graves, os quais resultaram em internações. No asilo Saint-Paul-de-Mausole, o pintor criou uma da obras mais conhecidas da carreira, A Noite Estrelada

Quando deixou a instituição, o artista não via mais potencial nas próprias criações e ficou profundamente abalado ao saber que o irmão mais novo, que o sustentava financeiramente há 10 anos, teria um filho e passava por dificuldades. 

Curiosamente, enquanto Vincent sentia que estava destinado a um final trágico, o nome Van Gogh começou a ganhar elogios e espaço em salões de prestígio. O crítico Albert Aurier escreveu um artigo inteiro dedicado ao pintor e declarou: “[Van Gogh] nunca será plenamente compreendido senão por seus irmãos, os artistas muito artistas…”.

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Theo viu o início de uma carreira promissora, mas o irmão mais velho enxergou uma trajetória sem sucesso. No dia 27 de julho de 1890, Vincent foi até um campo, na França, e deu um tiro no próprio peito. Ele morreu 48 horas depois, no dia 29. 

Existem teorias conspiratórias sobre a morte do artista. O filme No Portal da Eternidade, estrelado por Willem Dafoe, aponta que o artista foi vítima de dois garotos, a mesma hipótese apresentada no livro Van Gogh: A vida, dos ganhadores do prêmio Pulitzer Steven Naifeh e Gregory White Smith

O longa-metragem também retrata como as obras do pintor passaram a ser procuradas por consumidores após a morte. Com o mínimo de sucesso no fim da vida ou não, o fato é que a consagração de Van Gogh realmente seria póstuma.


O nascimento de um legado artístico 

Durante o século XX, as obras de Van Gogh começaram a viajar o mundo por meio de coleções e exposições temporárias ou fixas em museus renomados, entre eles o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. 

Nos anos 1940 e 50, Hollywood homenageou o pintor com um documentário homônimo, que venceu o Oscar de Melhor Curta-Metragem, e o filme Sede de Viver, protagonizado por Kirk Douglas.

Já em 1973, o Vincent Van Gogh Museum foi inaugurado, segundo informações do The New York Times. E, na década de 1980, foram criados o Fondation Vincent Van Gogh Arles e o The Institut Van Gogh, que visam dar visibilidade às pesquisas e obras do artista. 

A partir dos anos 2000, o nome do vanguardista apareceu de tempos em tempos em notícias e matérias jornalísticas que buscavam revisitar a trajetória dele, além de informar sobre a compra e venda de obras. 

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Em 2015, o quadro "L'Allée des Alyscamps" foi vendido por mais de U$$ 66 milhões e bateu o recorde de valor mais alto pago por uma obra do pintor desde 1998, segundo informações do G1.

Nos últimos cinco anos, os quadros de Van Gogh não só tiveram exposições originais, mas começaram a ser reproduzidos e exibidos em novos formatos. O Atelier des Lumières, na França, criou um espaço único de imersão no qual as obras do artista holandês eram projetadas no chão e nas paredes, permitindo que o visitante literalmente entrasse nas pinturas.

Formatos similares da exposição chegaram no Brasil e, durante a pandemia de coronavírus, a experiência imersiva realizada em Toronto, no Canadá, foi adaptada para receber os visitantes em carros, no estilo drive-in, segundo a BBC

Além disso, o corpo do pintor também foi reconstruído. De acordo com o Aventuras na História, do Uol, a artista Diemut Strebe criou, junto com um grupo de cientistas, e expôs uma réplica da orelha esquerda que foi cortada pelo artista, em 1888.

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Um ícone saturado?

Então, o pintor holandês saiu das galerias e dos debates especializados para se tornar um símbolo pop. Van Gogh se tornou nome de plano de banco, bares e um dos hits de Baco Exu do Blues.

A Noite Estrelada, O Quarto de Van Gogh em Arles, Doze Girassóis numa Jarra passaram a estampar camisetas, canecas, capinhas de celulares, meias, cadernos e até mesmo os tênis da Vans.

Mesmo quem não assistiu nenhuma temporada de Doctor Who já deve ter visto pela web um trecho emocionante do seriado em que os protagonistas viajam no tempo e mostram para o pintor como as obras dele se tornaram amplamente apreciadas pelas pessoas no futuro. 

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Favoritos dos amantes ou simpatizantes das artes plásticas, o pintor conquistou um lugar de destaque não só nas lojas de departamento dos shoppings, mas também nas postagens do usuários das redes sociais. 

A imagem de Van Gogh, principalmente com a orelha cortada, gerou inúmeros memes na web, seja para fazer piadas com músicas consideradas ruins ou para apenas rir da cena hipotética do artista tentando usar uma máscara durante a pandemia.

 

A arte de Van Gogh virou uma tendência, uma referência indispensável, um ícone pop. E, realmente, a imagem dele se tornou saturada. Contudo, a presença demasiada do artista holandês na internet revela o impacto cultural da existência dele na história da arte.

Foram precisos 130 anos para Van Gogh ser extraordinariamente enaltecido. Hoje, nos identificamos com os traços bruscos, o excesso de tinta, a paisagem distorcida com luzes ofuscantes. Além das obras - e apesar de algumas piadas insensíveis sobre saúde mental dele, entendemos melhor as dificuldades do artista de conviver com distúrbios psicológicos. 

A repercussão saturada dos quadros e da história do pintor pós-impressionista foi, de fato, uma reação exagerada e tardia, mas, talvez, necessária para absorver a grandiosidade do legado de Van Gogh

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