Atrações no MIMO Festival, Caio Prado entrevista Duda Brack, Duda Brack entrevista Caio Prado [ENTREVISTA]

Evento acontece nos dias 26, 27 e 28 de março de 2021

Redação Publicado em 26/03/2021, às 11h23

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Caio Prado (Foto: @marcoshermes) e Duda Brack (Foto: Divulgação)

Conhecido por trazer nomes da vanguarda musical de diversos lugares, MIMO Festival de 2021 começou nesta sexta, 26. Criado há 16 anos, ocupa espaços do patrimônio cultural de cidades históricas do Brasil e Europa. Agora, por conta da pandemia de coronavírus, ganhou edição especial online. Line-up conta com nomes como Duda Brack, Caio Prado, Luciane Dom e Natascha Falcão.

Em 2021, MIMO Festival priorizou artistas brasileiros. Porém, músicos não são a única atração: o evento também conta com Workshops e o Fórum de Ideias, responsável por debater temáticas atuais. O roteiro presencial é dividido em três dias e cidades: MIMO São Paulo em dia 26 de março (sexta), MIMO Rio de Janeiro em 27 de março (sábado) e MIMO Olinda em 28 de março (domingo).

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Quem abre o festival é o VJ e DJ Montano, com projeções de imagens e mistura de ritmos. Todos shows inéditos e exclusivos, filmes, palestras e workshops serão transmitidos no canal de YouTube do festival.

Abrindo line-up no primeiro dia, se apresentam Duda Brack, considerada pela crítica como artista revelação; Cida Moreira, cantora paulista responsável por lançar, em primeira mão, o disco Um copo de veneno; e Otto, quem deve revisitar mais de duas décadas de música.

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O segundo dia conta com Luciane Dom, cujo som mistura reggae e visão moderna do jazz; Caio Prado, cuja música dialoga com diversos públicos; Pedro Luís com homenagem a Luiz Melodia; Tuyo, banda escolhida pelo The New York Times como uma das melhores apresentações do SXSW 2021; e Luejdi Luna apresenta o novo álbum, intitulado Bom mesmo é estar debaixo d’água.

O último dia conta com Natascha Falcão, com performance de pré-lançamento do disco Ave Mulher; Almério, cuja carreira começou em bares de Caruaru; Zé Manoel com o álbum Do meu coração nu; e, por fim, MIMO Festival terá show exclusivo do coletivo francês NouvelleVague, gravado em Paris, França.

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À Rolling Stone Brasil, Duda Brack e Caio Prado, duas das atrações do MIMO Festival, entrevistaram um ao outro. Veja abaixo:


Duda entrevista Caio

Duda Brack: Todo corpo é político? Toda arte é política?

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Caio Prado: Sim, todo corpo é político, mas nem toda arte é. A política está nas nossas vidas teoricamente de modo a nos organizar socialmente para uns não terem muito enquanto outros morrem de fome; também para uns não enriquecerem numa pandemia enquanto outros são fuzilados nas favelas.

A arte é um fio condutor da sociedade. É reflexo social - e por isso acompanha a realidade. Porém, há frestas, respiros e silêncios na arte. Se “tudo é arte e tudo é política” (Ai WeiWei), preciso acreditar no além-arte: algo não apenas sob aparelhos ideológicos de filosofia, religião e qualquer outro viés politico, mas algo responsável por nos unir enquanto seres humanos capazes de produzir tempos e espaços.

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DB: Como a espiritualidade atravessa seu cantar? Como seu processo de autoconhecimento organiza e molda seus processos artísticos?

CP: Sempre procurei compreender a música como deusa, minha potência ativa capaz de transformar medo em coragem e força. Tenho uma playlist chamada “Cura," a qual coloco quando a angústia me aperta o peito de maneira inexplicável. Ouço música quando preciso chorar e desaguar emoções, ouço música quando preciso sentir meu corpo pulsar energia.

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Para mim, cantar é soprar alma sobre aquilo que precisa ser compreendido, vem de maneira intuitiva e o canto é dono da própria vontade. Por entender o meu canto e composição à capela é curioso como fugi por vezes de alguns pedidos aleatórios para cantar.

Cantar me exige âmago, fé, espírito. É como se fizesse um exercício profundo de meditação. Se faço sem vontade, tem um risco alto de ficar sem sentido.

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DB: Te conheço há quase 10 anos. Lembro do espanto quando ouvi sua voz pela primeira vez. Mas te vejo agora mais conciso, mais maciço, mais maduro, cada vez mais. Como você vê o passar do tempo modelando sua construção e o que podemos esperar de Griô? Pode dar algum spoiler sobre o show no MIMO?

CP: Nossa, a gente viveu uma efervescência de música muito grande no Rio de Janeiro. Estivemos juntos compreendendo as aspirações um do outro. Você esteve presente e me ajudou diretamente na construção do meu primeiro disco: Variável Eloquente. Estive na construção do seu [álbum] É.

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O tempo nos torna mais confiantes no caminho independente de fatores externos. Cada artista tem um processo, e o meu foi de me apoderar cada vez mais de todo o processo de criação e produção. Hoje entendo muito mais sobre os processos de arranjo, de mixagem, masterização. Tenho uma relação muito mais presente na produção musical.

Ao longo desses 10 anos quando “Não Recomendado” - minha música de maior alcance - foi colocada no mundo, recebi um retorno de muita gente se sentindo representada. Para uma bicha preta e efeminada do subúrbio do Rio de Janeiro, é difícil aceitar o seu valor, é uma construção diária de confiança no talento e propósito. A sociedade racista, machista e homofóbica, de fato nos impõe um “NÃO”.

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Hoje me sinto mais livre para ser múltiplo. Dentro desta multiplicidade, quero ser entendido. No show do MIMO vocês poderão ouvir o experimento de “Reconciliar,” uma música feita com todo carinho para o segundo semestre e é um dos abre alas de Griô. Fala sobre afeto e luta. Está neste caminho do pagode e afro R&B.

DB: MIMO é um festival responsável por presar pela diversidade. Qual a relevância desse espaço na construção de carreira do artista independente hoje? Você sente falta de mais espaços como esse disponíveis onde podemos ocupar no mercado? Esse mercado (curadores de festivais, plataformas digitais, mídia, imprensa, etc.) - num geral - está mais horizontal ou permanece privilegiando um grupo restrito de artistas?

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CP: Lembro do MIMO quando estudava na Escola de Música Villa Lobos, no centro do Rio, e ia para algum show em algum lugar inusitado para mim na época, tipo um mosteiro ou igreja. Relembrei aquele brilho nos olhos desde aquele tempo como estudante.

Quem dá cabo de toda a diversidade da música brasileira é a música independente, porque é um espaço de liberdade e experimentação no qual muita das vezes não é encontrado nas gravadoras.

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Tocar num festival de alcance internacional com a credibilidade do MIMO é abrir portas fechadas por conta dessa manutenção de certos privilégios do mercado. Infelizmente, no Brasil, as pessoas não prestam atenção no novo.

A rainha Elza Soares, silenciada por anos pelo mercado racista e machista, precisou cantar “Não Recomendado” para me verem como compositor promissor. É preciso de mais arte e menos ego, assim amadureceremos enquanto democracia, tornando-a mais horizontal.

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Caio entrevista Duda

Caio Prado: Qual sua motivação para continuar fazendo lives? O que você vai levar como virtude da experiência das lives?

Duda Brack: O setor cultural movimenta uma parcela muito importante da economia nacional, embora seja tão desvalorizado e negligenciado no contexto das estruturas sociopolíticas vigentes.

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Música é nosso trabalho, onde investimos nosso tempo, empenhamos nosso conhecimento e entregamos toda nossa energia vital. Obviamente, queremos remuneração por isso, sobreviver disso, como toda e qualquer profissão.

Fazer música para mim também é comunicação. É uma forma de estar menos sozinha no mundo. É uma das minhas formas mais genuínas de amar, expandir minha energia, me encontrar comigo mesma, de dar sentido a minha existência.

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CP: Fazer shows e eventos movimenta toda uma cadeia produtiva de casas de shows, técnicos e profissionais em torno do evento; esses profissionais são afetados pela falta de trabalho pelos serviços não serem considerados essenciais durante pandemia. Como você avalia o caráter essencial da cultura na sociedade?

DB: No documentário El Pepe, uma vida suprema (Netflix), Mujica fala lindamente sobre o quanto a única transformação social possível é a cultural.

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Enquanto não entronarmos a cultura no Brasil, reconhecermos a grande responsabilidade dela na construção desse Brasil, cairemos nos mesmos buracos negros, clamando por vacinas, clamando por impeachments e respeito.

CP: Festivais gratuitos como o MIMO, em diferentes lugares da cidade, mostram como a cultura pode refletir o espaço urbano. Qual experiência de show no festival foi responsável por te completar enquanto público e artista?

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DB: Amo MIMO e vivi muitas coisas lindas naquelas gramas da Praça Paris, nas Igrejas do Centro, no Parque das Ruínas e sonho em morar em Olinda, enfim.

Alguns exemplos: Macalé com participação do Otto, Ney Matogrosso com Atento aos Sinais numa chuvarada danada, João Bosco e Hamilton de Holanda, Guinga, Leila Pinheiro e Monica Salmaso, Simone Mazzer com Alice Caymmi, entre outros.

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CP: Em “A Casa não cairá”, gravada no disco “É”, os versos “se todo artista for p*** de esquina e se meu cachê for dez real, a casa não caiu...” sugerem resistência mesmo diante das dificuldades da sobrevivência de artistas e casas de show de pequeno e médio porte no Brasil. Quais caminhos para fomentar a valorização e consumo de música nova e independente assim como espaços para divulgação? Qual importância de festivais como o MIMO para artistas independentes?

DB: Hoje, vivemos o Império dos Números, né?! Gerenciado pelo tal do algoritmo. Viramos cálculo de máquinas.

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Não sei os caminhos. Sempre fui uma artista muito mais do offline. Em 2021, estive mais ativa na internet, e de fato "meus números" cresceram, de forma bem orgânica, cada dia um pouquinho. Mas quando me dou por conta, em 2015 não tinha tudo isso funcionando bem ainda e a gente lotava a choperia do Sesc Pompéia

O MIMO é sem dúvidas um festival responsável por manter a chama acesa - e não deixa o nosso desejo virar poeira. Sempre com uma curadoria muito diversa, ousando, inovando, abrindo espaços para quem chega no mercado.

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Enfim. MIMO protege e defende a cultura brasileira até o fim. Precisamos ocupar esses espaços, dialogar com o máximo de pessoas possível, deixar nosso rastro, contar nossa história, adentrar a selva com uma peixeira na mão direita, uma faca no dente e ir-se embora. Fizemos um pouco disso, né?! Acreditar.


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