A Mulher na Janela criou expectativa para destruí-la - resultado é decepcionante, confuso e desperdiça grandes atrizes [REVIEW]

Produção com Amy Adams estreou na Netflix em 14 de maio, e não entregou promessa de um grande suspense psicológico

Camilla Millan Publicado em 18/05/2021, às 10h00

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Amy Adams em A Mulher na Janela (Foto: Divulgação / Netflix)

[Atenção: Pode conter spoilers de A Mulher na Janela]

Desde o início da divulgação, A Mulher na Janela alimentou as expectativas do público e da crítica com uma junção de elementos de grande qualidade. Astros como Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman e Anthony Mackie, roteiro de Tracy Letts (responsável por Killer Joe - Matador de Aluguel), e o diretor Joe Wright (Orgulho e Preconceito). No entanto, diferente do esperado, o resultado é decepcionante.

Baseado no romance homônimo de A. J. Finn, pseudônimo de Dan Mallory, o filme estrearia em outubro de 2019, mas foram três anos - em meio às refilmagens e reações negativas em exibições teste - para a produção ficar disponível no catálogo da Netflix na sexta, 14 de maio. A história, relacionável à realidade reclusa da pandemia de Covid-19, acompanha Anna Fox (Adams), mulher agorafóbica que não sai de casa e enfrente os demônios internos e a solidão.

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Na obra, a protagonista passa os dias vigiando os vizinhos até testemulhar um crime pela janela. As semelhanças com Janela Indiscreta (1954), clássico de Alfred Hitchcock, não são apenas coincidências - o diretor foi uma grande inspiração para a obra.

Mesmo em um ambiente limitado de uma casa, a história se propõe a abordar a complexidade desse local, a partir, principalmente, do suspense psicológico pelo qual a protagonista está envolvida. Contudo, a produção erra em não se aprofundar na personagem principal.

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Em momentos, Amy Adams traz o expectador de volta à obra, e adentra na complexidade da protagonista por meio de uma atuação potente e envolvente. No entanto, o talento da atriz não é suficiente para dar totalidade à narrativa.

Apesar da proposta interessante, o resultado é uma mistura confusa de cenas desconexas, trilha sonora exagerada e montagem descontínua - resultado, provavelmente, da junção de diversas ideias e refilmagens ao longo dos anos.

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Um ponto positivo, porém, é a fotografia do francês Bruno Delbonnel. Com cores frias e enquadramentos certeiros, as imagens se tornam realmente deslumbrantes e conseguem ser um destaque do longa-metragem.

O uso das cores e da ambientação da casa da protagonista consegue captar a atenção do espectador. A maneira na qual é retratada a penumbra e o espaço contribui para a atmosfera onírica e, também, de suspense - mas o diálogo com a montagem confusa estraga uma narrativa que tinha potencial, principalmente ao pensar na pandemia.

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Uma mulher com medo de sair de casa, pânico em estar em ambientes públicos e paralisada combina com a quarentena devido à pandemia de Covid-19. A reclusão, as possibilidades do espaço e até a curiosidade com os vizinhos e barulhos formam algum desses elementos presentes na atualidade pandêmica. Portanto, é uma situação relacionável, mas o que se destaca é o o mal-uso desse suspense individual da protagonista.

A intenção de dar ênfase ao suspense psicológico de Anna Fox é legítima, e não é inédita. Com um elenco desse tamanho, certamente seria um sucesso, contudo, torna-se um exagero ao juntar com uma trilha sonora extrema em situações mal exploradas pela trama. Afinal, a protagonista gosta de espionar os vizinhos, mas toda vez que tenta é descoberta? Tem uma câmera profissional e não tira fotos do que vê?

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A Mulher na Janela oferece vários elementos ao espectador, mas o filme não se aprofunda, de fato, em nenhum. Nos primeiros momentos, a produção mostra o trauma, saúde mental, remédios, problema com bebida e a espionagem dos vizinhos. Contudo, quando transforma as informações iniciais em cena, modifica-se em uma obra sem sentido e com muitos cortes que dificultam o entendimento.

Ainda, o uso de áudios de telefonemas sobrepostos às diversas cenas desconexas é uma das bizarrices desta produção. Além de não contribuir para a continuidade da história ou atmosfera da narrativa, dá a sensação de amadorismo, como se tapasse certos buracos do filme.

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O uso do som, inclusive, é um exagero. A produção se transforma quase em uma obra ASMR (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em português) - prática que virou febre no YouTube. Trata-se de vídeos sonoros cujo objetivo é causar uma sensação agradável no corpo - como por meio de barulhos de mastigação, sussurros ou plástico bolha.

No filme, cada elemento é explorando enquanto som: remédios, relógio, gotas da pia, gato, respiração, clique de câmera e tecla de computador são apenas alguns. Para alguém que não sai de casa, o barulho pode, de fato, ganhar evidência, mas há um grande estranhamento quando relacionado ao suspense desajeitado da trama.

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A cada mínimo sinal de distúrbio da realidade limitada da protagonista, o filme ganha uma trilha sonora tão exagerada que dissolve, ainda mais, a potência do elemento surpresa do suspense. Dessa forma, os acontecimentos perdem força e se tornam previsíveis.

E quando se trata do desfecho? Ainda mais decepção. Ao final, um terror slasher faz o espectador perguntar se a obra é, de fato, uma brincadeira. A conclusão acaba de vez com as expectativas de uma produção com tantos nomes talentosos e aclamados na indústria cinematográfica.

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Em resumo, AMulher na Janela é um filme confuso, exagerado, bizarro e decepcionante - e nem a potência de Amy Adams é capaz de salvar a narrativa.


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Nascido em Londres em 1899, Alfred Hitchcock cresceu para se tornar um dos maiores cineastas da história. O menino, educado num sistema rígido e cheio de punições, acostumou-se a ter medo de muita gente - e transformou todos esses anseios em cenas para as telonas.

Engenheiro por formação, Alfred Hitchcock traçou, durante 50 anos, seu caminho no cinema - até tornar-se o Mestre do Suspense. No decorrer da carreira, apostou na inovação de movimentos de câmeras, jogos de sombras e histórias elaboradas - e tensas.

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Muitos de seus filmes são considerados, hoje, algumas das melhores obras da história. Além, influenciaram diversas produções audiovisuais, e criou alusões inesquecíveis (como o assassinato à facadas de Psicose, repetido dezenas, talvez centenas, de vezes na televisão).

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Rebecca (1940)

Uma mulher, sem nome, casa-se com um renomado homem da sociedade. Mas não imagina o tormento que a espera, pois o espírito de Rebecca, esposa falecida do senhor, parece não esmorecer. Ganhador de Oscar e pioneiro de Hitchcock  em Hollywood e na crítica. 

Sr. e Sra. Smith (1941)

Se você descobrisse que, na verdade, não é casado… Voltaria atrás no relacionamento? Tentaria reatar, ou aproveitaria a "oportunidade"? A comédia romântica mostra a diversidade de assuntos do diretor, que nos anos 1940, fugiu do suspense para explorar vários estilos.

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Festim Diabólico (1948)

Foi a porta de entrada para a melhor fase de Hitchcock, explorada na década seguinte. O primeiro do diretor em cores - e usa uma impressionante tomada contínua. Mostra a história de dois homens cometendo o assassinato perfeito, e esfregando na cara de outros.

Disque M para Matar (1953)

Um esposo vingativo tenta encomendar o assassinato da esposa infiel. Tudo vira um nó quando ela descobre - e ele resolve armar para ela ir para a prisão. O uso da luz e ângulos de câmera confusos (mas inovadores), marcas de Hitchcock, ficam evidentes e começam a virar padrão reconhecível.

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Janela Indiscreta (1954)

Um fotógrafo em quarentena por causa de um pé quebrado começa a observar os vizinhos pela janela, e acredita ter testemunhado um feminicídio. Passa a tentar provar para os amigos, mas ninguém crê nele. Considerado por muitos a obra-prima e ápice do suspense de Hitchcock (e talvez de todo o cinema). Outro a ganhar "reinvenções" audiovisuais, incluindo em Os Simpsons

Um Corpo que Cai (1958)

Um detetive vê um colega cair do telhado e desenvolve medo de altura e vertigem. Aposentado, um amigo pede ajuda para uma investigação. Hitchcock criou diversos efeitos de câmera para acompanhar a vertigem do personagem - como o dolly zoom (muito chamado de "efeito vertigo"). Para o Instituto Britânico de Cinema, é o melhor filme da história.

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Psicose (1960)

Uma ladra se esconde no Bates Motel - sem saber da loucura de Norman, o dono do local. Quase não saiu do papel, pois Paramount não acreditava no potencial e não queriam bancar. Hitchcock insistiu muito, e até sugeriu ele mesmo bancar.

Psicose foi feito com um orçamento baixíssimo. A equipe não era de cinema; era de televisão, e trabalhava no programa de Hitchcock. Depois de décadas, foi o primeiro filme preto e branco do diretor. Por tudo isso, foi considerado praticamente hediondo.

Psicose, porém, envelheceu como o mais clássico de Hitchcock. Diversas cenas tornaram-se icônica (assim como enredo), principalmente o esfaqueamento no chuveiro e a música que o acompanha.

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Os Pássaros (1963)

Os pássaros de uma cidade ficam enlouquecidamente violentos. Hitchcock explora uma narrativa lenta para criar tensão - e opta por enfatizar mais ângulos de câmera do que diálogos. Talvez, o último clássico da carreira do diretor.