Estrelada por Liniker, Manhãs de Setembro reflete sobre a construção do afeto com visibilidade LGBTQ+ [ENTREVISTA]

A nova série brasileira do Amazon Prime Video também se destaca pela sonora sensível, a qual homenageia a cantora Vanusa

Julia Harumi Morita Publicado em 25/06/2021, às 09h00

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Liniker e Gustavo Coelho em Manhãs de Setembro (Foto: Divulgação /Amazon Prime Video)

Há dois anos, Liniker ficou aguçada com a história da motogirl e cantora Cassandra assim que viu a apresentação do roteiro da série Manhãs de Setembro, a qual estreou nesta sexta, 25, no Amazon Prime Video.

Cassandra também é uma mulher trans e preta, cujos os sonhos artísticos a levaram para a cidade de São Paulo. Aos 30 anos de idade, a entregadora de aplicativo conseguiu alugar pela primeira vez um apartamento próprio, um grande passo para a tão esperada independência.

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Os planos da protagonista mudam de direção quando Leide (Karine Teles) e Gersinho (Gustavo Coelho), fruto de um antigo e breve relacionamento entre as duas mulheres, aparecem na casa dela em busca de ajuda.

Antes de ganhar destaque nacional e internacional com a banda Liniker e os Caramelows, a artista natural de Araraquara deixou o interior paulista aos 18 anos para estudar e se formar em teatro.

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"A oportunidade de voltar e fazer essa grande série dentro dessa grande plataforma está sendo um grande recomeço para mim, uma grande oportunidade considerando que eu não tinha feito audiovisual como protagonista, tendo essa visibilidade para mais de 240 países. Então é muita coisa, mas estou muito feliz," disse Liniker para a Rolling Stone Brasil durante uma coletiva de imprensa virtual, realizada pela plataforma de streaming.

Ideias entrelaçadas

Manhãs de Setembro é uma ideia original do jornalista Miguel de Almeida, apresentada pela produtora Andrea Barata Ribeiro, da O2 Filmes, a qual chamou a atenção do diretor Luis Pinheiro no primeiro pitching do Amazon Prime Video.

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"Assim que li um parágrafo, eu me agarrei ao [projeto]. E estou agarrado nele até hoje. Estamos aqui por conta disso [e] também da sinergia do impulso desse projeto na gente," falou Pinheiro.

A produção contou uma equipe plural, formada pela roteirista-chefe Josefina Trotta, a roteirista e nome em ascensão do queernejo Alice Marcone, o roteirista Marcelo Montenegro, as produtoras Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck, a diretora Dainara Toffoli e a head de conteúdo original para o Brasil do Amazon Studios, Malu Miranda.

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Os cinco episódios do seriado, os quais possuem cerca de 30 minutos cada, foram escritos e reescritos diversas vezes até a chegada do elenco, o qual trouxe novos sentidos para cenas e os personagens.

"A Alice tinha uma Cassandra na cabeça, eu tinha uma Cassandra na minha, o Marcelo, o Luis, a Malu… todo mundo tinha uma Cassandra [ideal]. Aí, chegou a Liniker e foi como: 'Tá. Chegou! Chegou!' Ela é perfeita. O elenco, não existe melhor. Foi um prazer poder escrever e reescrever os últimos tratamentos dos roteiros com eles na cabeça, porque isso deixou a história muito mais rica, muito mais verdadeira," contou Trotta.

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Pinheiro completou a colega: "A vida da Liniker para série foi uma coisa incrível, porque a voz que ela traz para Cassandra, o tom que ela traz, o lugar que a gente coloca a Cassandra foi uma coisa primordial [...] em vários momentos o elenco se manifestou, ajudando no roteiro e na personagem. A gente topa, simples assim."

Admiração por trás das câmeras

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(Foto: Divulgação /Amazon Prime Video)

Liniker e Karina Teles se admiravam antes se conhecerem oficialmente durante o processo de preparação, realizado virtualmente por causa da pandemia de Covid-19. O primeiro encontro das atrizes aconteceu no set de filmagens, em 2020.

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"[A gente] teve um encontro muito bacana, rolou uma parceria. Fluiu muito. [É] uma alegria muito grande para mim poder ter trabalhado com a Liniker. O que eu imaginava, na minha cabeça, se confirmou: ela era uma grande atriz, uma artista muito sensível," disse Teles.

Por conta da quarentena no país, a produção precisou se reorganizar para realizar a maior parte das filmagens entre os meses de outubro e dezembro do ano passado, no Uruguai. Para Miranda, a equipe "se beneficiou de um tempo grande de desenvolvimento" por causa da pandemia.

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"Todo o casting, o qual foi escalado em março, se manteve para a série ser feita em agosto. Então esse casting, conosco, junto com roteiro, ficou junto muito tempo virtualmente - a distância e tal -, mas ficou em volta dessa ideia por muito tempo e foi super importante para gente," completou Pinheiro.

Conversas com Vanusa

"Fui eu que se fechou no muro e se guardou lá fora /Fui eu que num esforço se guardou na indiferença /Fui eu que numa tarde se fez tarde de tristezas /Fui eu que consegui ficar e ir embora /E fui esquecida, fui eu," canta Vanusa em "Manhãs de Setembro", música que dá nome à série.

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(Foto: Divulgação /Amazon Prime Video)

Paulista criada em Uberaba (MG), Vanusa ganhou destaque após chegar em São Paulo. Na década de 1960, participou do programa Jovem Guarda, da TV Record e, nos próximos anos, fez parcerias notáveis com o futuro marido Antônio Marcos. No total, lançou quase 20 discos, nos quais explorou do pop ao rock.

A artista, que morreu em novembro de 2020, existia como personagem de Manhãs de Setembro desde a ideia original. "A gente gostou muito de ter ela como personagem, porque, na vida real, ela foi uma mulher que trabalhou muito para conquistar sua carreira de cantora. Isso se assemelha muito com a vida da Cassandra [e] o tipo de mulher que admira," explicou Trotta.

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Cassandra evita falar sobre a mãe ou o fato de ter sido abandonada por ela na infância, mas pendura com cuidado na parede de sua quitinete uma foto da progenitora ao lado de Vanusa, além de guardar como herança os discos de vinil da cantora e trabalhar como artista cover.

"Um pouco mãe, um pouco musa", Vanusa discute com os pensamentos de Cassandra nos momentos mais vulneráveis, e dá conselhos e broncas na motogirl, agora com a vida tomada pelos conflitos de Leide, Gersinho e o namorado Ivaldo (Thomás Aquino).

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"Eu era uma admiradora, mas eu não tinha tanto entendimento do trabalho [de Vanusa]," conta Liniker. "A identidade de Cassandra com essa cantora fez com que eu mergulhasse e fosse ouvir discografia, ver os vídeos e ler algumas entrevistas. É uma grande cantora e artista brasileira."

Além de "Manhãs de Setembro", "What To Do", "Sonhos De Um Palhaço", "Estou Fazendo Hora", "Retrato Na Parede" e a afável versão de "Paralelas", de Belchior, também compõem a trilha sonora da produção, a qual, hoje, soa como uma terna homenagem à vida de Vanusa.

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Uma história de afeto

"A série fala principalmente de afeto, da construção de afeto familiar, mas também tem esse pano de fundo social e político," diz Teles sobre a personagem Leide, que vive de subempregos e tenta fugir das noites debaixo dos viadutos.

"Ela é um espelho muito triste da nossa sociedade, o qual, infelizmente, está refletindo a realidade de cada vez mais pessoas no nosso país [...] Leide é uma representante dessa ferida exposta. Você sai na rua de qualquer grande cidade, a quantidade de pessoas que não tem onde morar aumentou absurdamente. É muito triste e é um problema de todo mundo."

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As grandiosas composições de Vanusa foram transformadas em nova potências na voz de Liniker, cuja performance expõe com delicadeza os conflitos internos da protagonista diante da possibilidade mais uma vez "acessar um lugar de família, o qual achou que nunca tivesse."

"Essa questão da família é uma coisa que mexe muito, sendo que a Cassandra é uma pessoa sozinha em São Paulo, sozinha na vida, mas com uma rede de afeto muito grande. Mas ela tá por ela… elas por elas, então é uma história muito grande [e] muito complexa, a qual reflete na vivência de muitas pessoas LGBTQIA+ e pretas no Brasil."

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Liniker também disse: "Espero que as pessoas vejam amor e a pluralidade que as nossas vivências, enquanto pessoas LGBTQIA+ e pretas podem ter."

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