O coronavírus e as casas de show: Como sobreviver sem saber quando voltaremos a ouvir música juntos?

A Rolling Stone Brasil conversou com quatro casas de show de São Paulo para entender como a crise afetou o setor de produção de eventos musicais

Julia Harumi Morita Publicado em 05/06/2020, às 07h00

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Espaço das Américas (Foto: Reprodução / Instagram / Espaço das Américas)

A pandemia de coronavírus obrigou o setor cultural a interromper todas as atividades presenciais inesperadamente. As apresentações foram canceladas ou adiadas, as casas de show foram fechadas e a incerteza sobre o futuro dos negócios que dependem do calor humano das aglomerações se espalhou ao redor do mundo.

A cidade de São Paulo registrou o primeiro caso de covid-19 no Brasil logo após o fim do carnaval, no dia 26 de fevereiro. Poucos dias depois da capital se recuperar da ressaca dos bloquinhos de rua, a OMS - Organização Mundial da Saúde - declarou pandemia e o país precisou tomar medidas rígidas contra a transmissão da doença.

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No dia 18 de março, o governo do estado anunciou a suspensão das atividades de shoppings centers, academias, exposições e shows. Mas, antes mesmo da declaração oficial, muitos palcos da cidade já encaravam o silêncio inevitável das pistas vazias.

Depois de dois meses de quarentena, o governador João Doria anunciou o Plano São Paulo, o qual consolida estratégias para a reabertura das atividades não essenciais a partir do dia 15 de junho.

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No momento, a capital se encontra na fase laranja, ou seja, os espaços públicos permanecem fechados, mas atividades imobiliárias, concessionárias, escritórios, comércios e shoppings centers passam a ser permitidos com restrições de capacidade e horário.

Apesar das etapas de reabertura estarem delineadas e prontas para serem colocadas em prática, o plano ainda pode sofrer alterações, segundo informações do G1. As medidas serão reavaliadas a cada sete dias e poderão sofrer mudanças de flexibilização ou restrição a cada 15 dias.

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E, enquanto continuamos sem saber quando voltaremos a ouvir música juntos, as casas de show precisam reinventar o próprio negócio e adaptá-lo para a nova era de interações virtuais, com lives e serviços de delivery, ao mesmo tempo que pensam no futuro das apresentações presenciais.

A Rolling Stone Brasil conversou com quatro casas de show de São Paulo, Heavy House, Mundo Pensante, Cine Joia e Espaço das Américas, para entender como cada uma delas foi afetada pela crise do coronavírus e quais foram as alternativas encontradas para manter contato com o público. 

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Heavy House

A casa de show da Heavy Love localizada no bairro de Pinheiros fechou as portas no dia 13 de março, após a repercussão dos primeiros casos de covid-19. As apresentações que aconteciam de quarta-feira a domingo foram canceladas ao mesmo tempo que as colaborações com marcas e os pequenos produtores locais foram afetadas.

Arnaldo Karabachian Camorim, sócio da Heavy Love, contou que a casa ficou 40 dias sem receita até conseguir colocar em prática alternativas para gerar renda. Uma das soluções foi apostar no sistema de delivery da Heavy Sauce, que já vendia lanches e bebidas dentro do estabelecimento.

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O sócio também precisou negociar com os artistas que já tinham fechado a agenda de março para garantir apresentações quando a casa voltar a funcionar. Outra saída foi a criação das Love Sessions, lives que acontecem por meio do Instagram, Youtube e Twitch. Segundo Franco Frugiuele, outro sócio da casa, a ideia é levar um pouco da energia da Heavy House para o público. 

“A gente está tentando incrementar sem esquecer que a gente não é uma empresa de conteúdo. Então, assim, não vamos fazer conteúdo por si só. A ideia das Love Sessions é levar um pouco da energia da Heavy para a casa da galera. E a Heavy não é só DJ, a Heavy tem shows, tem conversas, bate-papos. A ideia é daqui a pouquinho fazer talks também.”

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Para Camorim, os colaboradores foram os mais atingidos. O empresário explicou que, apesar das flexibilizações dadas pelo governo para reduzir o salário e a carga horária, a casa decidiu manter os funcionários que não conseguem fazer home office com 50% a 70% do salário, além de registrar os freelancers.

“A gente decidiu ir meio na contramão do que as empresas estavam fazendo, continuar o projeto de contratação e registrá-los mesmo na pandemia para garantir um valor mínimo para eles durante a casa fechada”, disse Camorim.  

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Além disso, a casa decidiu desengavetar projetos solidários para ajudar comunidades que precisam de auxílio e foram gravemente afetadas pela crise da covid-19. Em colaboração com a UNAS - União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região - o projeto Heavy Conecta arrecadou e doou R$50 mil em cestas básicas e kits de higiene, que beneficiaram 2 mil pessoas do bairro. 

Outro projeto bem-sucedido foi uma campanha de doação para a aldeia indígena de Santo André, na Bahia. Ação juntou R$ 15 mil e beneficiou 87 famílias pataxós da Aldeia Mata Medonha e mil famílias da Orla Norte de Santa Cruz Cabrália.

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Em relação ao futuro, os sócios disseram que acompanham as notícias sobre a doença e tentam compreender o avanço dela, mas que a saúde é a prioridade, por isso não especulam uma data para a retomadas das atividades. 

“Acho que fomos umas das  primeiras casas a fechar as portas para prevenir a propagação da doença e, se precisar, seremos a última a reabrir. Estamos acompanhando de perto o que está sendo falado pelos empresários e produtores deste mercado, assim como as possíveis medidas que estão em discussão para a retomada dos eventos, como o uso de máscaras, medição de temperatura na entrada, estações de higiene, limpeza redobrada. Mas tudo ainda é muito incipiente”. (Foto: Instagram / Reprodução)


Mundo Pensante 

Idealizado como um projeto cultural, o Mundo Pensante completa o círculo de arte urbana do Estúdio Bexiga e o Lab Mundo Pensante, todos localizados nas ruas do bairro da Bela Vista.

Com o coronavírus, a casa de show realizou os últimos eventos no dia 14 de março antes de anunciar o fechamento temporário. A crise atingiu as equipes de funcionários que não poderiam trabalhar de home office.

Segundo Paulo Papaleo, diretor de atividades do Mundo Pensante, a casa ainda não acertou uma agenda de lives, mas o negócio consegue se manter vivo por meio das outras áreas do projeto, que vão além de shows e investem em cursos ou debates para o público.

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“Por sorte, o Mundo Pensante sempre foi um projeto cultural. Ele nunca foi só uma balada”, disse o diretor. “A gente já produzia cursos online de algumas atividades culturais, então, já organizávamos cursos de filosofia, de produção cultural, ioga e todas essas coisas.”

Mesmo com datas irregulares, a casa investe nas transmissões ao vivo monetizadas para gerar renda, pois os cursos, podcast e bate-papos são gratuitos. Como as festas presenciais, os eventos possuem os primeiros lotes gratuitos e depois passam a custar de R$ 5,00 a  R$ 35,00.

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Papaleo confessa que esperava certa resistência do público em relação aos valores, contudo, ele foi surpreendido com o interesse dos festeiros nos eventos virtuais. Agora, ele vê as lives como um produto a ser consumido pelos espectadores interessados pela música ou conteúdo. 

“Achei que, no primeiro momento, a gente não ia conseguir. Porque sempre foi tudo tão grátis nesse mundo da internet. Eu duvidei que as pessoas pagariam para ver a live, mas, de uma maneira surpreendente, a gente está tendo pessoas que pagam.”

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Ele completou: “A gente já começou nesse esquema até para não cair nessa cilada de fazer só conteúdo grátis [...] Acho inevitável que, aos poucos, toda essa economia que girava fora do online comece a ser transferida para o online e que as pessoas realmente interessadas nesses conteúdos comecem a pagar valores menores, mas que voltem a pagar.”

O diretor também mencionou o serviço de delivery da casa, uma saída para esvaziar o estoque guardado. Para inovar no ramo, ele pensa em propor a entrega de bebidas e produtos de bandas, como discos de vinil, durante as lives para recriar o ambiente da casa. 

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“O delivery tem sido uma saída para nós. E a gente vai fazer os deliverys enquanto estão rolando as lives. A gente está querendo chegar nisso agora”, falou Papaleo. “Quer pedir uma ‘breja’ ? A gente entrega a ‘breja’.”

Com diversas alternativas, o Mundo Pensante não planeja ser o primeiro a abrir as portas novamente. O diretor afirmou que prefere observar e descobrir maneiras seguras de voltar com atividades presenciais. Além disso, ele pensa sobre a desigualdade que a crise do coronavírus pode gerar. 

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“Eu não quero estar na frente dessa corrida de quem abre primeiro [...] E eu acredito que a gente vai continuar a fazer todo o sistema online, não vai voltar mais o que era antes”, falou Papaleo

Ele continuou: “A gente não tem pretensão nenhuma de ficar fazendo eventos só para pessoas privilegiadas, só para pessoas que puderam fazer o isolamento [...] Eu espero que não seja uma questão de privilégio de classe poder sair de casa para ir em uma festa”. (Foto: Instagram / Reprodução)


Cine Joia

O tradicional cinema de rua do bairro da Liberdade transformado em uma casa de show também anunciou que fecharia as portas para ajudar na contenção da doença no dia 13 de março. Como o Cine Joia depende exclusivamente dos shows e não possui outras alternativas de renda, os negócios foram gravemente afetados.  

“[A crise] foi devastadora. Nós só dependemos de shows, e não temos uma operação forte de alimentos e bebidas para fazer delivery, por exemplo, como podem fazer os restaurantes e bares. Zeramos tudo”, disse Facundo Guerra, sócio do estabelecimento. 

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Guerra ainda falou que a equipe está “encurralada” e ainda não criou uma estratégia para recuperar o negócio. Em relação ao público, a casa mantém as redes sociais atualizadas com fotos que relembram os tempos de aglomeração, além de usar as plataformas para divulgar projetos de artistas. 

Ao olhar para o futuro, o sócio não consegue ser otimista, seja por causa dos negócios ou por causa das mudanças que transformarão a relação das pessoas com a cultura quando tudo voltar ao normal.

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“Quando voltarmos, e se voltarmos, a quarentena já terá feito um estrago na psique do público. A cultura e como essas pessoas  a consomem terá mudado. Pode ser que elas tenham se acostumado com as lives e já não procurem tanto a experiência ao vivo. Pode ser que elas estejam completamente quebradas e não consigam pagar o preço de um ingresso. Pode ser que elas não queiram mais se arriscar ouvir artistas independentes ao vivo.”

Por outro lado, o sócio enxerga um cenário em que os artistas brasileiros voltarão para o foco dos holofotes, por causa das restrições de viagens e turnês pelo mundo. Além disso, ele acredita que as plataformas digitais não deixarão de ser usadas com a retomadas dos shows presenciais. 

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“De qualquer maneira, uma coisa tenho certeza: Por muitos anos ouviremos e veremos somente artistas brasileiros no palco. Vai ser muito difícil um ‘gringo’ pisar no Brasil no horizonte de médio prazo.”

Ele completou: “Também tenho certeza que as casas que ficarem, terão que fundir o físico e o digital nas experiências de palco delas. Quando o próximo show acontecer, ele será transmitido ao vivo pela casa de show, tanto para as redes sociais dela quanto para as redes sociais do artista. A estética da live veio para ficar”. (Foto: Instagram / Pedro Margherito)


Espaço das Américas 

As grandes casas de show também enfrentaram problemas com a crise do coronavírus. O Espaço das Américas, que possui capacidade de reunir oito mil pessoas de uma única vez, interrompeu as atividades no dia 14 de março, como a maioria dos estabelecimentos de cultura e entretenimento.  

Marco Antonio Tobal Junior, sócio e diretor do Grupo São Paulo Eventos, o qual inclui o Espaço das Américas, Expo Barra Funda e Villa Country, conta que o impacto foi devastador para a operação da casa. 

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“A pandemia afetou de maneira devastadora e sem precedentes a nossa atividade, uma vez que estamos totalmente parados e inoperantes. Para a operação de casa de show e evento, não há fórmula mágica [...] Cabe agora segurar os custos e todas as despesas para esse período, sem data definida, que estaremos hibernando.”

Para o sócio e diretor, não existem shows sem aglomerações e os eventos musicais vivem uma incerteza por dependerem de uma medida de proteção definitiva, como uma vacina ou protocolo de segurança. 

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“Os shows dependem das aglomerações. Se não há aglomeração do público, não existe o show. Passa a ser uma live, uma gravação, um pocket show”, disse Tobal Junior.

Apesar de não ter uma data para retomada dos negócios, o representante do Espaço das Américas acredita que a casa poderá reabrir ainda no final deste ano. “Dependemos de uma liberação e uma solução macro para retomarmos”, ele disse. “A retomada da atividade de shows não tem data prevista. Na minha opinião, algo próximo do fim de outubro ou  novembro seria uma previsão plausível.” (Foto: Instagram / Ricardo Cardoso)


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