Pânico, confusão e tristeza: O dia em que John Lennon foi assassinado

A morte do ex-Beatle deixou fãs ao redor do mundo em choque e lutando por respostas

Chet Flippo. Rollings Stone EUA | Tradução de Mariana Pastorello | @mari.pastorello (sob supervisão de Julia Harumi Morita) Publicado em 26/02/2021, às 14h12

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John Lennon em Imagine (Foto: Reprodução / Youtube)

“Homem baleado, One West Seventy-second (Rua 72 sentido oeste) ” foi a chamada no rádio da polícia um pouco antes das 23 horas. Os policiais Jim Moran e Bill Gamble estavam por perto e foram até o prédio de apartamentos Dakota, em Nova York.

O homem baleado não poderia esperar por uma ambulância. Eles o estenderam no banco de trás do carro e correram para o Hospital Roosevelt, na esquina da Rua 59 com a 9ª Avenida. Colocaram o corpo ensanguentado em uma maca e o levaram para a sala de emergência. Não havia nada que os médicos pudessem fazer. Declararam John Lennon morto às 23:07 horas. 

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Howard Cosell recebeu o parecer da WABC-TV News, de Nova York, e anunciou o tiroteio no programa Monday Night Football. A notícia se espalhou rapidamente e sem controle.

Em minutos, o pequeno pátio da ambulância com paredes de tijolo, que ficava fora da sala de emergência, estava cheio de pelo menos 200 pessoas que olhavam estupidamente para as portas duplas fechadas. As equipes de TV, sem alvos visíveis, apontavam luzes branquíssimas para um jovem solitário ajoelhado no pátio.  

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“ …E livra-nos do mal. Amém”, ele cantou. “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… John, como todos nós ouvimos, foi baleado. Eu torno isso público não por vontade própria. Estou aqui para orar… Sou apenas um fã de John… Junte-se a mim.” Até as equipes de TV se cansaram dele em poucos minutos.

Alguns dos taxistas, que despachavam dois ou três repórteres por minuto, juntaram-se à multidão. Um deles disse em voz alta que soube de uma boa fonte que John Lennon estava morto quando chegou. Uma jovem ficou sozinha no meio da 9ª Avenida e chorou. 

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A multidão continuou a crescer. Por volta da meia-noite, uma mulher, de maneira muito ríspida, marchou para fora. O crachá preto no jaleco branco dela informava que era A. Burton, diretora de relações públicas do hospital. Os repórteres lançaram perguntas a ela. “Prefiro que o médico diga a você”, disse ela. “Ele estará no saguão, virando a esquina, entre a 9ª e a 10ª ”. Ela se virou e marchou de volta. 

A imprensa disparou em uma corrida a pé e estava ofegante ao virar a esquina. Passou pelas portas do saguão e bateu contra uma escada enquanto lutava por um espaço. Um cinegrafista acima do peso estava reclamando: “Estava na cama assistindo ao noticiário do canal quatro e recebi uma ligação: ‘O canal dois diz que John Lennon foi baleado, vá até o Roosevelt.’” 

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“Isso vai te ensinar a assistir quatro”, disse uma mulher 

“Bem, sou ma recepcionado nos dois.” 

A.Burton reapareceu no topo da escada e ignorou as perguntas gritadas. “O médico está chegando”, ela anunciou em tom medido. “Ele é Stephan Lynn. Diretor do serviço de emergência.” Ela teve que soletrar o nome do médico cinco ou seis vezes. Alguns repórteres deram a entender em voz alta que essa poderia ser uma tática diversiva para manter a imprensa longe da sala de emergência enquanto algo importante acontecesse, mas nenhum dos jornalistas saiu. 

O Dr. Lynn enfrentou a imprensa cerca de dez minutos depois da meia-noite. “Um pouco mais perto, doutor”, gritou um fotógrafo, e os acionamentos motorizados da Nikon começaram a zumbir e luzes estroboscópicas começaram a disparar como dardos.

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O médico, em imaculado jaleco branco dele, estava nervoso. Ele disse: “John Lennon” e, então, parou por pelo menos vinte segundos. “John Lennon”, continuou, finalmente, “Foi levado à sala de emergência do Roosevelt, o Hospital St. Luke 's Roosevelt, esta noite, pouco antes das 23 horas. Ele estava morto na chegada.” Houve suspiros da imprensa. “Grandes esforços de ressuscitação foram feitos, mas apesar das transfusões e de muitos procedimentos, ele não pôde ser ressuscitado."

“Onde ele foi baleado, doutor, e quantas vezes?” a imprensa perguntou.

“Ele tinha vários ferimentos de bala no peito, no braço esquerdo e nas costas”, respondeu Lynn. “Tinha sete feridas no corpo. Não sei exatamente quantas balas havia. Houve uma lesão significativa dos principais vasos dentro do tórax, o que causou uma grande perda de sangue, a qual resultou na morte dele. Tenho certeza que ele estava morto no momento em que os primeiros tiros atingiram o corpo dele."

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“E a esposa dele?”

“A esposa estava com ele no momento do ferimento e, de fato, o acompanhou ao pronto-socorro.”

“Você disse à Yoko Ono que o Sr. Lennon estava morto? O que ela disse?”

“Eu disse à sua esposa que ele estava morto. Ela era… estava muito perturbada no momento e achou difícil aceitar. Ela não está mais no hospital.”

“O Sr. Lennon ainda está no hospital?”

“O corpo dele ainda está no hospital.”

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A imprensa voltou para a entrada do pronto-socorro. O santo ajoelhado continuava: “Em momentos de crise como este, já rezei à Nossa Senhora do Rosário. Ficarei até o sol nascer para orar pela alma de nosso amado amigo e irmão em espírito, John Lennon. Vou agora rezar o rosário e convidar todos a ficarem o tempo que quiserem e se juntarem a mim.” Algumas pessoas se juntaram a ele. 

A.Burton marchou novamente e disse a todos para darem o fora. Um cara da TV tentou argumentar com ela: “Olha, senhora, se eu não conseguir colocar mais dois minutos no ar eu estou desempregado”. Ela o encarou e disse: “Bem, você certamente vai sair desse pátio.”

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A imprensa saiu correndo atrás do assassino. Algumas centenas de fãs dos Beatles permaneceram quietos na 9ª Avenida. A maioria estava com os olhos secos. Se havia uma expressão facial comum, era perplexidade. Dwayne Thomas, um jovem negro, estava com os braços cruzados e encarava as portas do pronto-socorro.

Ele estava por perto quando ouviu a notícia e sentiu que precisava fazer algo. Ficou lá na 9ª Avenida e balançou a cabeça lentamente. "Você não sabe o que fazer", ele disse finalmente. “Essa é a situação. Apenas anda e fica de pé e olha, você sabe. Você se pergunta por que. De todas as pessoas, por que ele conseguiu isso? Ele levou uma vida tranquila nos últimos cinco anos, e agora ele lança um álbum e é atingido.”

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“Não haverá nenhum Jack Ruby aqui”, disse um policial com cara dura, quase com naturalidade, enquanto o suspeito era levado para a Vigésima delegacia, na Rua 82, sentido oeste. O suposto assassino estava completamente cercado por policiais, um rosto pálido balançando em um mar de uniformes azuis. Ele desapareceu no elevador. 

A delegacia foi invadida pela imprensa, que colocou vigias na calçada, agrupou-se ao redor dos dois telefones públicos e esvaziou as máquinas de cigarro e refrigerantes, marcadas ‘SOMENTE PARA USO DA POLÍCIA’ com cartazes escritos à mão.

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Outros cercaram o tenente John Schick na mesa de serviço. O corte militar prateado de Schick estava em total atenção. “Ele [o suposto assassino] está falando com as pessoas no andar de cima”, disse Schick.

“Quais pessoas?” 

“Basicamente, os oficiais que o trouxeram.” 

“Ele chamou um advogado?”

“Ele tem direito a três ligações dentro da cidade Qualquer fora da cidade, ele precisa pagar.”

“Estão arranjando um advogado?”

“Provavelmente, mas isso será na acusação.” 

“Ele fez alguma ligação?” 

“Não sei. Como eu disse, ele está no quarto andar com um detetive.”

“Ele não está falando com mais ninguém?”

“Pelo o que eu sei, não.” 

“E isso é porque ele se recusa a fazer isso [a ligação]?”

“Acredito que sim.”

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Houve uma breve agitação quando o oficial de prisão, Peter Cullen, entrou se recusou a responder quaisquer perguntas. Microfones foram colocados no pódio na sala de reuniões onde - geralmente presumia-se - alguém faria uma entrevista coletiva. Um colaborador do Shukan Post (Japão) voltou do telefone para os escritórios da revista no Japão; eles ainda não tinham ouvido falar do tiroteio.

Às duas da manhã, o chefe dos detetives, James T Sullivan, subiu ao pódio para enfrentar as luzes da TV e aproximadamente cem integrantes da imprensa. Ele vestia um terno de sarja azul imaculado, camisa listrada e gravata escura. O brasão dourado no peito dele brilhou nas luzes da TV.  Ele manteve a mão esquerda no bolso da calça. 

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“Pedimos para virem até aqui para que pudéssemos dar-lhe um resumo do que sabemos até o momento do homicídio de John Lennon”, disse ele, com um leve tom de nervosismo na voz. “Prendemos Mark David Chapman, de 55 South Kukui - que é Rua Kukui, Havaí - pelo homicídio de John Lennon.

Ele é um homem branco, pele bronzeada, 1,70 metro, 77 quilos, cabelo castanho, olhos azuis e tem 25 anos. Nascido em 10 de maio de 1955, aparentemente está na cidade de Nova York há cerca de uma semana, e esteve brevemente no YMCA - não tenho certeza de qual. Recentemente está hospedado no Sheraton Center.

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O Sr. Chapman esteve no Dakota nos últimos dias. Foi capaz de obter um autógrafo em um álbum do Sr. Lennon quando partiu para o estúdio de gravação. Ele permaneceu no Dakota a noite toda esperando o Sr. Lennon voltar. Pouco antes das 23 horas, John Lennon e sua esposa chegaram de volta ao Dakota em uma limusine.

Estacionaram a limusine em frente ao Dakota. Tem um caminho de acesso, mas eles não usaram nesta ocasião… Este indivíduo, Sr. Chapman, veio por trás dele e chamou-o: ‘Sr. Lennon!’ Então, em posição de combate, ele atirou. Esvaziou a arma Charter Arms, calibre 38, que trazia consigo e atirou em John Lennon.” 

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Sullivan ganhou uma gota solitária de suor no lábio inferior e contou mais sobre a prisão de Chapman, que “se comportou com muita calma”. Sullivan respondeu a algumas dúzias de perguntas, desde “Chapman fez uma confissão completa?” (“Eu não posso falar disso”) até “O que o Sr. Lennon disse?” (“Ele disse ‘levei um tiro’ quando entrou”) ou “Ele estava fumando?” - esta última pergunta não foi respondida.

Sullivan respondeu a última pergunta às 02h24. 

Agora, tudo tinha acabado, mas estava apenas começando. A morte de John Lennon e a prisão do assassino estavam registrados. O choque foi plantado e a reação estava crescendo.

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